Com pacote, EUA crescem 2,8%, diz FMI

Ajuda do Congresso daria maior credibilidade aos títulos públicos americanos e auxiliaria no esforço de ajuste das contas públicas

ROLF KUNTZ / ENVIADO ESPECIAL, DENISE CHRISPIM MARIN, CORRESPONDENTE / WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

26 de setembro de 2011 | 03h03

A economia americana poderá crescer 2,8% em 2012 se o pacote fiscal apresentado pela Casa Branca for aprovado integralmente pelo Congresso, estimou o economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI), Olivier Blanchard. Não chegaria a ser a "expansão sonhada" da economia dos Estados Unidos, para a qual o FMI projeta crescimento de apenas 1,8% no período. Mas seria suficiente para dar maior credibilidade aos títulos públicos americanos e para disparar um sinal mais forte do necessário ajuste, em ritmo mais lento, nas contas públicas do país.

A rejeição do Congresso aos dois componentes do pacote - estímulos para a geração de empregos e ajuste fiscal adicional de US$ 3,6 bilhões para os próximos dez anos - seria "uma catástrofe". Há forte resistência da oposição republicana no Congresso à proposta, seja por razões político-eleitorais ou por convicções ideológicas. Sua parte sobre o ajuste adicional nas contas públicas será decidido até o dia 23 de novembro por um comitê especial, formado por políticos dos dois partidos.

O pior cenário pode aumentar a preocupação de investidores já estressados nos últimos três meses pelo debate sobre o teto da dívida pública americana e pelo rebaixamento da classificação de risco dos EUA. Disso, entretanto, não deverá resultar um aumento significativo nos custos financeiros nos EUA e no resto do mundo. Na avaliação de Blanchard, o status dos bônus e do governo dos EUA ainda é elevado, e não há muitas alternativas de investimento seguro.

De qualquer maneira, advertiu o economista, os EUA terão de conviver por algum tempo com a demanda doméstica baixa, "não importam as medidas que sejam adotadas". Com isso, o crescimento mais expressivo da economia americana dependerá do aumento de suas exportações. Não se trata de uma questão simples. Há três anos, o grupo dos principais países avançados e emergentes (G20) definiu tarefas para os países para reequilibrar a economia mundial, ainda a serem cumpridas.

Conforme a receita ditada pelo G20, países com amplo superávit comercial, como a China, teriam de adotar uma estratégia de crescimento na qual o mercado interno tivesse maior participação. Os deficitários, como os EUA, teriam maior espaço para sustentar a expansão da atividade em suas vendas ao exterior. Para Blanchard, o plano de cinco anos de reestruturação da China, está no caminho correto. Mas, a velocidade da sua execução não parece ser a desejada pelos países mais interessados.

Insônia. Nas discussões do FMI na última semana, a América Latina sobressaiu-se como região fora do alcance de preocupações. Para o economista-chefe do FMI, as crises na Europa e nos Estados Unidos dão razões suficientes "para se dormir mal". No caso da Europa, a dívida soberana da Grécia e a capacidade de o BCE prestar a ajuda financeira necessária geram a maior preocupação deste momento. No pior cenário, os bancos europeus terão de ser recapitalizados para afrontar suas perdas com os títulos gregos. A missão caberá ao Fundo Europeu de Estabilização Financeira. Mas o novo modelo desse fundo ainda não foi aprovado pelos Parlamentos da maioria dos 17 países.

Os bancos podem melhorar seu balanço aumentando o capital ou reduzindo suas aplicações. Qualquer das duas fórmulas permitirá elevar a relação entre capital e ativos. Para Blanchard, a segunda opção seria "catastrófica" para a economia, porque consistiria em restringir a oferta de crédito a investidores e a consumidores. O aumento do capital, por meio da emissão de ações, seria a melhor solução para a os países europeus.

Se os bancos não levantarem recursos no mercado, poderão recorrer a fundos públicos. Ao contrário do observado em 2008, o G20 tem se mostrado incapaz desta vez de provocar a coordenação entre as maiores economias desenvolvidas e emergentes. Sua reação seria desejável. Segundo Blanchard, se a situação piorar, o fórum pode vir a ser chamado a mostrar-se mais ativo. "A coordenação se torna mais atraente quando se está no fundo do buraco".

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.