Tiago Queiroz/Estadão - 30/11/2017
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Coluna

Thiago de Aragão: China traça 6 estratégias para pós-covid que afetam EUA e Brasil

Com pandemia, importação cai 10,5% até julho

Primeiro trimestre foi atipicamente forte, mas quedas se repetiram a partir de abril

Lorenna Rodrigues, O Estado de S.Paulo

15 de agosto de 2020 | 21h30
Atualizado 17 de agosto de 2020 | 12h17

BRASÍLIA - Auxiliares do presidente Jair Bolsonaro na área de comércio exterior assumiram os cargos no início do ano passado repetindo o bordão: “importar é o que exporta”. A frase era uma inversão do título de um programa da ditadura militar - “Exportar é o que importa” – que, a partir de 1967, incluiu o financiamento de exportações e devolução de impostos sobre as vendas ao exterior.

Com o objetivo declarado de abrir a economia brasileira e reduzir tarifas de importação, a ideia do atual governo é que a compra de insumos e máquinas do exterior aumentaria a produção brasileira e, por consequência, as exportações.

A pandemia do coronavírus, porém, derrubou um dos pilares do mantra. Se as vendas brasileiras conseguiram recuar menos no primeiro semestre (6,4%), sustentadas pelo agronegócio, as importações encolheram 35,5% no mês passado, acumulando queda de 10,5% de janeiro a julho.

Depois de um primeiro trimestre atipicamente forte, as compras do exterior começaram a registrar quedas acima de dois dígitos a partir de abril. Considerado o período entre abril e julho, o total apresenta queda de 21% na comparação com o ano anterior. As importações chegaram a US$ 46 bilhões, patamar que, nos últimos dez anos, só foi alcançado em 2016.  

“A importação é quase um espelho da produção interna e da atividade. Se tem queda na atividade, tem queda na importação”, explica o gerente de Negociações Internacionais da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Fabrizio Panzini. “Em abril, caiu 99% a produção, teve uma queda de demanda imensa e você não pode continuar produzindo se a perspectiva não é boa.”

Entre o produtos mais atingidos estão petróleo e derivados, peças e partes de veículos e máquinas e equipamentos. No caso do petróleo, além da demanda interna ter diminuído, o preço no mercado internacional também caiu, contribuindo para a redução de quase 60% na importação do produto bruto em julho e 7o% em derivados manufaturados.

“Os primeiros meses da pandemia foram horríveis. A indústria automobilística, que é muito forte no Brasil, ficou 70 dias com a atividade parada. Houve também redução na linha branca (eletrodomésticos). Isso prejudicou muito”, explica o presidente da Associação Brasileira dos Importadores de Máquinas e Equipamentos (Abimei), Paulo Castelo Branco.

Ele afirma que a pandemia fez os importadores segurarem encomendas e acumularem estoques, que só não foram maiores porque, entre janeiro e abril, a China estava com a produção parada e os brasileiros enfrentaram dificuldades em trazer maquinários e outros produtos.

Foi o que aconteceu com o empresário Reinaldo Bonilha, CEO do PR2 Group, que representa uma indústria chinesa de máquinas de corte de metal. “No fim de janeiro já tivemos um pré-impacto do exterior, com a paralisação da China. Em março, quando eles voltaram, o Brasil parou. Todo mundo colocou o pé no freio e a queda nas vendas foi praticamente de 95%, ainda mais com o dólar em alta”, contou.

Bonilha lembra que os primeiros meses haviam sido “atipicamente forte”, mas que, ainda assim, sua empresa teve queda de 40% no faturamento no primeiro semestre.

Ele, porém, está otimista para os próximos meses e acredita que a retomada no segundo semestre será forte o suficiente para reverter esse quadro e terminar o ano no zero a zero. “Julho começou uma retomada e agosto está ainda melhor. Percebemos que o mercado deu uma reaquecida e tem segmentos com demanda superior ao que vinha antes, por exemplo no setor de móveis”, completou. “Nossa expectativa é otimista, o brasileiro precisa produzir e está acostumado com sustos. Todo ano tem uma história. O brasileiro consegue se reinventar e isso faz a diferença.”

Para o gerente da CNI, ainda há muita incerteza e divergência entre os especialistas em relação à recuperação da economia brasileira e, assim, das importações. Um dos principais fatores é se haverá uma segunda onda da pandemia, como começa a se desenhar em países da Europa. “Em um cenário sem segunda onda, começamos a sentir o retorno em agosto, setembro. Veremos uma recuperação na atividade econômica interna e uma recuperação da importação também. Agora, se tiver uma segunda onda, teremos que rever tudo”, completa.

Nova linha de crédito para compra de máquinas

O Ministério da Economia estuda a criação de uma linha de crédito especial para o financiamento da compra de máquinas e equipamentos importados. A ideia vem sendo discutida com representantes da indústria e de bancos públicos e deve prever um prazo de carência para que os empresários comecem a pagar os empréstimos entre 6 e 12 meses.

De acordo com Paulo Castelo Branco, da Abimei, a carência permitirá que os empresários aproveitem as taxas de juros baixas para tomar empréstimo. Sem o prazo, porém, Castelo Branco diz que eles não conseguem fazer os pagamentos.

“As empresas estão descapitalizadas, sem fluxo de caixa. Com a parada de 90 a 120 dias no faturamento, está todo mundo muito preocupado com a sobrevivência. A ideia em discussão é ajudar a indústria nacional a ter tecnologia e competitividade. O momento é ideal para isso”, afirma.

Para ele, a pandemia mostrou que é preciso reduzir a dependência de outros países para evitar quebras na produção. “Precisamos importar tecnologia para que o Brasil passe de importador para exportador de manufaturados. O novo normal pode trazer uma mudança de conceito para podermos ir à frente e não ficar estagnados como os últimos 30 anos.”

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