Marcello Casal Jr./Agência Brasil
Repasse de lucros do Banco Central já foi feito antes. Marcello Casal Jr./Agência Brasil

Com pandemia, juros recuam e inadimplência sobe em abril, aponta BC

Com famílias e empresas com dificuldades para fechar as contas, taxa de inadimplência nas operações de crédito livre passou de 3,8% para 4% de março para abril

Fabrício de Castro, O Estado de S.Paulo

28 de maio de 2020 | 10h23

BRASÍLIA - Em meio aos efeitos da pandemia do novo coronavírus sobre a economia, a taxa média de juros no crédito livre caiu de 33,3% ao ano em março para 31,3% ao ano em abril, informou nesta quinta-feira, 28, o Banco Central (BC). Em abril de 2019, essa taxa estava em 38,3% ao ano.

Os dados apresentados pelo BC são influenciados pelos efeitos da pandemia, que colocou em isolamento social boa parte da população e reduziu a atividade das empresas. Em meio à carência de recursos, famílias e empresas aumentaram a demanda por algumas linhas de crédito nos bancos.

Para as pessoas físicas, a taxa média de juros no crédito livre passou de 46,1% para 44,5% ao ano de março para abril, enquanto para as pessoas jurídicas foi de 16,6% para 15,8% ao ano.

Entre as principais linhas de crédito livre para a pessoa física, há destaque para o cheque especial, cuja taxa passou de 130% ao ano para 119,3% ao ano de março para abril. No crédito pessoal, a taxa passou de 37,4% para 34,7% ao ano.

Desde julho de 2018, os bancos estão oferecendo um parcelamento para dívidas no cheque especial. A opção vale para débitos superiores a R$ 200. A expectativa da Federação Brasileira de Bancos (Febraban) era de que essa migração do cheque especial para linhas mais baratas acelerasse a tendência de queda do juro cobrado ao consumidor.

Em função da ineficácia da autorregulação da Febraban, o BC anunciou a limitação dos juros do cheque especial em 8% ao ano (151,82% ao ano). A nova regra começou a valer em 6 de janeiro.

Além da limitação do juro, os dados desta quinta também refletem uma revisão realizada na série histórica do BC. De acordo com a autarquia, os números passaram a considerar o fato de alguns bancos cobrarem juro no cheque especial apenas após dez dias de atraso no pagamento da fatura. Antes, era considerado todo o período de atraso. Esta mudança fez com que o nível do juro no cheque especial, na nova série histórica, fosse menor em anos anteriores.

Os dados divulgados pelo Banco Central mostraram ainda que, para aquisição de veículos, os juros foram de 19,8% ao ano em março para 20,4% em abril.

A taxa média de juros no crédito total, que inclui operações livres e direcionadas (com recursos da poupança e do BNDES), foi de 22,7% ao ano em março para 21,5% ao ano em abril. Em abril de 2019, estava em 25,0%.

Cartão de crédito

O juro médio total cobrado pelos bancos no rotativo do cartão de crédito caiu 13,7 pontos porcentuais de março para abril. A taxa passou de 327,1% para 313,4% ao ano.

O juro do rotativo já é uma das taxas mais elevadas entre as avaliadas pelo BC. Dentro desta rubrica, a taxa da modalidade rotativo regular passou de 297,9% para 269,0% ao ano de março para abril. Neste caso, são consideradas as operações com cartão rotativo em que houve o pagamento mínimo da fatura.

Já a taxa de juros da modalidade rotativo não regular passou de 345,3% para 339,3% ao ano. O rotativo não regular inclui as operações nas quais o pagamento mínimo da fatura não foi realizado.

No caso do parcelado, ainda dentro de cartão de crédito, o juro passou de 187,1% para 148,6% ao ano.

Considerando o juro total do cartão de crédito, que leva em conta operações do rotativo e do parcelado, a taxa passou de 75,6% para 78,9%.

Em abril de 2017, começou a valer a regra que obriga os bancos a transferir, após um mês, a dívida do rotativo do cartão de crédito para o parcelado, a juros mais baixos. A intenção do governo com a nova regra era permitir que a taxa de juros para o rotativo do cartão de crédito recuasse, já que o risco de inadimplência, em tese, cai com a migração para o parcelado.

Atualmente, porém, o risco de inadimplência aumentou, justamente porque muitas famílias estão enfrentando redução de renda, na esteira da pandemia. 

Inadimplência

Com famílias e empresas com dificuldades para fechar as contas, em meio à pandemia do novo coronavírus, a taxa de inadimplência nas operações de crédito livre com os bancos passou de 3,8% para 4% de março para abril. Em abril de 2019, a taxa estava em 3,8%.

Para as pessoas físicas, a taxa de inadimplência foi de 5,2% para 5,4% no período. No caso das empresas, a taxa passou de 2,3% para 2,4%.  

A inadimplência do crédito direcionado (recursos da poupança e do BNDES) passou de 2,2% para 2,3% na passagem de março para abril.

Já o dado que considera o crédito livre mais o direcionado mostra que a taxa de inadimplência foi de 3,2% para 3,3%.  

Já o Indicador de Custo de Crédito (ICC) caiu 0,4 ponto porcentual em abril ante março, aos 19,7% ao ano. O porcentual reflete o volume de juros pagos, em reais, por consumidores e empresas no mês, considerando todo o estoque de operações, dividido pelo próprio estoque.

Na prática, o indicador reflete a taxa de juros média efetivamente paga pelo brasileiro nas operações de crédito contratadas no passado e ainda em andamento.

O spread bancário médio no crédito livre passou de 27,6 pontos porcentuais em março para 26,2 pontos porcentuais em abril. O da pessoa física no crédito livre foi de 40,2 para 38,7 pontos porcentuais no período. Para pessoa jurídica, passou de 11,3 para 11,4 pontos porcentuais. O spread é calculado com base na diferença entre o custo de captação de recursos pelos bancos e o que é efetivamente cobrado dos clientes finais (famílias e empresas) em operações de crédito.

Endividamento

O endividamento das famílias brasileiras com o sistema financeiro ficou em 45,9% em março, ante 45,6% em fevereiro. Se forem descontadas as dívidas imobiliárias, o endividamento ficou em 27,1% em março, ante 26,9% em fevereiro.

O cálculo do BC leva em conta o total das dívidas dividido pela renda no período de 12 meses. Além disso, incorpora os dados da Pesquisa Nacional de Amostragem Domiciliar (Pnad) contínua e da Pesquisa Mensal de Emprego (PME), ambas do IBGE.

Em função da metodologia utilizada, os números de endividamento sempre são divulgados com um mês de defasagem. Assim, os dados de hoje têm como referência o mês de março, quando se intensificou os efeitos da pandemia do novo coronavírus sobre a economia.

Segundo o BC, o comprometimento de renda das famílias com o Sistema Financeiro Nacional (SFN) atingiu 20,6% em março, ante 20,2% em fevereiro. Descontados os empréstimos imobiliários, o comprometimento da renda ficou em 18,2% em março, ante 17,9% em fevereiro.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Concessões de crédito caem 16,5% em abril, diz BC

Entre as empresas, os relatos são de dificuldades de acesso ao crédito nos bancos

Fabrício de Castro, O Estado de S.Paulo

28 de maio de 2020 | 10h10

BRASÍLIA - Em meio às dificuldades de empresas e famílias para acessar financiamentos durante a pandemia do novo coronavírus, o Banco Central (BC) informou nesta quinta-feira, 28, que as concessões de crédito caíram 16,5% em abril ante março. No caso de pessoas físicas, essas concessões caíram 13,2% e, no das empresas, despencaram 21,1%.

Os números mostram ainda que, em abril, as concessões no crédito livre – que reúne operações que não utilizam recursos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) ou da poupança – caíram 18,4%. No caso das pessoas físicas, houve recuo de 15,2%. Para as empresas, a baixa foi de 25,5%.

Os dados com ajustes sazonais apresentados nesta quinta pelo BC são influenciados pelos efeitos da pandemia, que colocou em isolamento social boa parte da população, reduzindo a atividade das empresas e elevando o desemprego. Nos últimos meses, o BC e o Ministério da Economia anunciaram uma série de medidas justamente para manter o acesso ao crédito por parte de famílias e empresas durante este período de crise.

Entre as empresas, especificamente, os relatos são de dificuldades de acesso ao crédito nos bancos. Os dados de concessões divulgados indicam que, de fato, ocorre esse problema.

Modalidades

Dados divulgados pelo BC mostram que as concessões de crédito via desconto de duplicatas e recebíveis recuaram 44,1% em abril ante março, para R$ 25,117 bilhões.

No caso do desconto de cheques, houve baixa de 42,1% e, na antecipação de faturas de cartão, ocorreu retração de 61,6%. Os dados não levam em conta eventuais ajustes sazonais.  

Os números do BC mostraram ainda que, em abril, a concessão de crédito para capital de giro subiu 52,5% - esta foi a única linha com elevação entre as principais voltadas para empresas.  

 

Dentro desta rubrica, o capital de giro com prazo inferior a 365 dias disparou 101,2%, enquanto operações com prazo maior tiveram alta de 32,3%. Já o capital de giro na modalidade teto rotativo recuou 29,2%.

 

Conforme o Banco Central, no caso da conta garantida para empresas, as concessões despencaram 41,0% em abril ante março. Já o cheque especial para pessoas jurídicas registrou redução de 28,6% nas concessões no mês passado.

Estoque

O estoque total de operações de crédito do sistema financeiro ficou estável em abril ante março, em R$ 3,587 trilhões. Houve redução de 0,9% no estoque para pessoas físicas e alta de 1,2% para pessoas jurídicas.

De acordo com o BC, o estoque de crédito livre avançou 0,5% em abril, enquanto o de crédito direcionado apresentou alta de 0,8%. No crédito livre, houve baixa de 2,2% no saldo para pessoas físicas no mês passado. Para as empresas, o estoque avançou 1,4% no período. 

O BC informou ainda que o total de operações de crédito em relação ao Produto Interno Bruto (PIB) foi de 48,9% para 49,2% na passagem de março para abril. 

As projeções do BC, atualizadas no Relatório Trimestral de Inflação (RTI) de março, indicam expansão de 4,8% para o crédito total em 2020. A projeção para o crédito livre em 2020 é de alta de 8,2%. Já expectativa para o crédito direcionado é de retração de variação zero neste ano.

Estas projeções já levam em conta os efeitos da epidemia do novo coronavírus na economia, mas o BC lembrou que elas tiveram como data de corte o dia 13 de março. Desde então, as perspectivas mudaram, sendo que o próprio BC anunciou nos últimos meses medidas para sustentar o crédito. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.