Daniel Teixeira/Estadão
Entre mil pessoas entrevistadas, 78% desenvolveram hábitos mais saudáveis com a pandemia. Daniel Teixeira/Estadão

Com pandemia, venda de alimento saudável cresce e já soma R$ 100 bilhões

Isolado em casa, brasileiro ficou mais preocupado com a qualidade da comida, apontam consultorias; apenas os produtos que imitam os de origem animal tiveram alta de 29% no varejo

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

17 de março de 2021 | 05h00

O consumo de alimentos saudáveis, que já vinha ganhando força entre os brasileiros, foi acelerado pela pandemia. Em 2020, as vendas desses produtos – que incluem de produtos sem glúten ou com menor teor de sódio a orgânicos certificados – atingiram R$ 100 bilhões no País, segundo a Euromonitor Internacional. Foi a maior cifra para essa categoria de alimentos desde 2006, quando esse segmento começou a ser monitorado pela consultoria. Em relação a 2019, o avanço foi de 3,5%.

O movimento também foi constatado pela RG Nutri, especializada em nutrição e alimentação. No final de 2020, em parceria com a Tech Fit, a consultoria foi a campo para avaliar como estava a alimentação do brasileiro na pandemia. Ouviu cerca de mil pessoas e descobriu que 78% delas começaram a ficar mais atentas à alimentação e à saúde, e que 53% estavam buscando informação sobre a função dos alimentos.

“O consumidor começou a se preocupar muito mais com a sua saúde, de maneira holística, e com todo o sistema alimentar, de forma sustentável”, afirma Heloisa Guarita, CEO da consultoria que atende grandes indústrias do setor.

Essa mudança de comportamento do brasileiro, que está mais tempo em casa e experimentou novas possibilidades, diz Heloisa, obrigou grandes e tradicionais indústrias de alimentos a reverem o seu modo de produção – e de uma forma mais ágil, se aproximando de startups. Também as linhas de produtos foram reavaliadas.

No último ano, houve crescimento de novos alimentos e bebidas focados na ética e na sustentabilidade, com preocupação de não afetar negativamente o meio ambiente, usar embalagens sustentáveis e menos ingredientes como açúcar, gordura e sódio, segundo Naira Sato, diretora de pesquisa da consultoria Mintel. “Em comum entre todas as macro categorias, vemos que a pandemia provocou um aumento no lançamento de produtos que falam de mais naturalidade, funcionalidade e sustentabilidade.”

As novas demandas do consumidor por alimentos sustentáveis e o crescimento acelerado das startups do setor têm pressionado a indústria tradicional de alimentos a buscar caminhos mais rápidos para inovar. Um dos setores em que esse movimento é nítido é na indústria de carnes e de produtos lácteos, que tem lançado itens à base de plantas (plantbased), que imitam os de origem animal.

Nos últimos dois anos, diz Heloisa, as vendas de alimentos plantbased no varejo cresceram 29%. Só entre dezembro e janeiro deste ano, 32 produtos com esse perfil chegaram ao mercado.

Startup

Um deles é o hambúrguer vegetal Futuro Burger 2030, da startup Fazenda Futuro. Feito a partir de uma nova matriz que imita a carne bovina, a empresa diz que o produto é mais sustentável, saudável e com sabor e textura ainda mais próximos da versão animal. Esse foi o terceiro lançamento da startup nos últimos 12 meses.

Segundo Marcos Leta, sócio-fundador, a venda dessa categoria cresce, em média, acima de 150% desde maio de 2019 no Extra e Pão de Açúcar, rede varejista parceria. Na visão de Leta, a relação de consumo, principalmente de alimentos, será outra após a pandemia.

“O nosso propósito é produzir carne sem nada de origem animal e permitir que as pessoas continuem comendo o que gostam, mas sem fazer parte de uma cadeia de impactos ao meio ambiente.”

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Vigor cria marca 'sustentável' de olho em mudança de hábito do brasileiro

Empresa formou grupos de profissionais para criar alimentos mais saudáveis e investiu R$ 35 milhões na Viv, marca de iogurtes 'sustentáveis'

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

17 de março de 2021 | 05h00

No segundo semestre de 2019, nutrólogos, nutricionistas, influenciadores digitais, profissionais de marketing e de outras áreas da centenária Vigor Alimentos, fabricante de lácteos, se debruçaram para fazer uma releitura do que é um alimento saudável. Pela primeira vez trabalhando em “squads”, que são pequenos grupos que reúnem profissionais de várias áreas, um jeito típico de operar das startups, constataram que os consumidores querem alimentos mais saudáveis que vão além da funcionalidade de ter mais ou menos açúcar e gordura, por exemplo.

As pesquisas mostraram para esse grupo de profissionais que mais da metade do brasileiros procura marcas e companhias que ofereçam produtos sustentáveis, com poucos ingredientes e o mais natural possível. E, na pandemia, essa tendência foi acelerada.

O resultado concreto desse projeto, no qual a companhia investiu mais de R$ 35 milhões, começa a chegar às prateleiras dos supermercados este mês: uma nova marca, a Viv

Sob esse rótulo, inicialmente serão reunidas sete linhas de iogurtes “saudáveis e sustentáveis”. Um deles leva poucos ingredientes e é acondicionado num recipiente de papel, o que deve economizar 15 mil quilos de plástico por ano em embalagem. Outro, um iogurte búlgaro, fermentado dentro da própria embalagem e que se aproxima de um produto caseiro.

Apesar de começar com iogurte, segmento no qual a empresa responde por 9% do mercado em valor, segundo dados da consultoria Nielsen, a intenção da companhia é ampliar o leque. Planeja incluir queijos e outros lácteos sob a nova marca de produtos saudáveis. “Queremos liderar a categoria de saudáveis dentro do universo de lácteos até 2025”, afirma o presidente da Vigor, Luís Gennari. 

Ele não revela quando essa nova marca de produtos saudáveis deve representar do faturamento da empresa. Com todos os lácteos que produz, a companhia teve receita operacional líquida de R$ 2,8 bilhões em 2020, com crescimento de 15,5% ante 2019.

No começo, os iogurtes saudáveis serão produzidos na fábrica mais antiga, que fica no tradicional bairro paulistano do Belenzinho. Mas a intenção é espalhar a produção pelas outras oito unidades no País para atender à demanda crescente por alimentos saudáveis.

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