Claudia Trevisan/Estadão - 5/4/2016
Claudia Trevisan/Estadão - 5/4/2016

Juros

E-Investidor: Esperado, novo corte da Selic deve acelerar troca da renda fixa por variável

Com paralisia na China por coronavírus, efeito no mundo será enorme, diz economista

Para Monica de Bolle, ainda que dimensão do impacto da doença seja incerta, avanço pode prejudicar segunda fase de acordo comercial com os EUA e reduzir projeções para o crescimento do PIB brasileiro

Entrevista com

Monica de Bolle

Maria Regina Silva, O Estado de S. Paulo

05 de fevereiro de 2020 | 10h52

O tamanho do impacto do coronavírus nas perspectivas de crescimento mundial é dúvida com a qual os governos terão de conviver até que se estabeleça o grau de letalidade da doença e até onde a epidemia pode avançar. A avaliação é de Monica de Bolle, pesquisadora sênior em Washington do Peterson Institute for International Economics e professora da Universidade Johns Hopkins.

Em entrevista ao Estadão/Broadcast, a economista pondera que, a despeito da comparação de muitos especialistas do momento atual com a epidemia da SARS (sigla em inglês para Severe Acute Respiratory Syndrome), em 2003, o país asiático de hoje é totalmente diferente do daquela época, tendo impacto muito maior. "O PIB da China deu um salto de 5% para 15% (da economia global). Se de fato (o avanço do coronavírus) gerar paralisia da economia chinesa, terá uma mega repercussão na economia global, inclusive no Brasil." Leia abaixo os principais trechos da entrevista.


Em que momento será possível mensurar os impactos na economia mundial do avanço do novo coronavírus?

O problema quando ocorrem essas epidemias é a incerteza com a qual temos de conviver, geralmente por algumas semanas, até que se possa estabelecer o grau de letalidade do vírus e quanto pode desarticular a economia mundial. Só a incerteza em si já é paralisante. É uma situação em que não se sabe como medir o risco, de não saber com o que está se lidando. Os números informados podem não dar muita noção. Os parâmetros são todos desconhecidos. E isso começa a gerar consequências. A primeira foi nos mercados.


Muitos tentam comparar o momento atual com o vivenciado entre 2002 e 2003, quando a China foi acometida pela SARS. Como é a avaliação da senhora?

O longo prazo é mais preocupante. Até sabermos qual é a natureza do vírus, a incerteza vai realmente parando as coisas. Na China já tem um senso de paralisia. Está completamente atingida, e não é só a província de Hubei (epicentro do coronavírus). Comparando ao que o país é hoje e na época da SARS, o PIB (Produto Interno Bruto) da China em termos nominais equivalia a 5% do PIB mundial. Hoje, é três vezes maior, o equivalente a mais ou menos 15% do PIB do mundo. Se isso gerar alguma paralisia na economia chinesa, terá uma mega repercussão na economia global.


As economias estão preparadas caso os efeitos de uma forte crise atinjam o mundo?

Em 2002, se a China precisasse lançar mão de medidas expansionistas, tinha condições, mas não precisou fazer porque a epidemia da SARS teve uma dimensão muito menor do que o imaginado. Mas se precisasse lançar mão de políticas expansionistas para evitar as consequências de uma paralisação maior da economia, por exemplo, de uma recessão, tinha espaço. Hoje a China não tem. O déficit do país é elevado. Não tem mais o mesmo espaço fiscal para fazer políticas para enfrentar toda essa situação. Além disso, tem uma questão ligada à capacidade de o governo se segurar politicamente, à medida que uma epidemia vai se alastrando. Até agora, tem conseguido segurar a situação. Mas será sustentável?


Quais seriam as munições para enfrentar um agravamento de toda essa situação em termos econômicos, para estimular as economias se houver necessidade?

De forma geral, os bancos centrais estão com muito pouco espaço. Até podem levar o juro de volta a zero e fazer afrouxamento quantitativo. Sozinha, a política monetária não faz muita coisa. O que faz a diferença é a fiscal. Há países em situações diversas e a ação deve vir, se for necessário, bem mais do lado fiscal do que dos bancos centrais.


Além do temor de efeitos econômicas, quais seriam os outros riscos mundiais do coronavírus?

Há outras consequências. A China tem negócios com o mundo inteiro, viagens, empresas diversas. Mas isso agora está em suspenso. As companhias aéreas suspendendo voos, países fechando fronteiras. Inevitavelmente, terá impacto desse tipo de fluxo, de pessoas, que certamente terá consequências para a economia mundial. Pensando nas repercussões políticas, que têm obviamente ramificações econômicas, a epidemia vem num momento em que o mundo está com o nacionalismo em alta. Nada mais exacerbador dos impulsos nacionalistas do que uma epidemia, principalmente na China, que já estava sendo visto por muitos como um competidor desleal. Isso dá margem para todo extinto nacionalista vir a tona.


Todo esse quadro de incerteza provocado pela epidemia pode atrasar as discussões, o avanço de um próximo acordo comercial entre China e Estados Unidos?

Pode ter efeito, sim, sobre a segunda fase do acordo. Como não sabemos quanto tempo isso irá durar e como o Xi Jinping (presidente chinês) vai direcionar esses problemas internos, inclusive talvez até a sua sobrevivência política, pode postergar, tirar da tela por um momento a segunda fase do acordo.


Quais os reflexos do coronavírus na economia brasileira?

Sem dúvida, o Brasil sofreria bastante. Pega diretamente em vários aspectos, e não só na parte comercial, mas de investimentos. O País tem uma situação bem menos confortável. Pouco poderia fazer caso necessite. O problema é que aqui, além de pouco espaço para corte de juros, o fiscal - embora tenha melhorado - também tem uma janela limitada. Provavelmente sentiria o tranco mais fortemente.


Isso já num ambiente de indicadores de atividade com resultados divergentes.

Eu nunca achei que o Brasil poderia crescer tanto este ano (no relatório Focus, a mediana das projeções de analistas é de crescimento de 2,30%). O País ainda está em ritmo de crescimento na faixa de 1%, talvez chegando perto de 1,5%, mas muito longe de 2%, isso sem que nada acontecesse. Agora, com essa epidemia e podendo potencialmente se transformar em pandemia, obviamente o cenário tende a mudar, e de forma radical, principalmente porque os espaços de política econômica e as manobras são muito estreitas.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.