Com piora do cenário externo, Bovespa interrompe altas

Piora das bolsas nos EUA serviu como argumento para um movimento de realização de lucros sobre as ações

Paula Laier, da Agência Estado

29 de janeiro de 2009 | 18h25

Após quatro altas seguidas, a Bovespa encerrou no vermelho o pregão desta quinta-feira, perdendo o patamar dos 40 mil pontos recuperado na quarta-feira, após 12 dias abaixo desse nível. A piora das bolsas nos EUA serviu como argumento para um movimento de realização de lucros sobre as ações brasileiras. Até ontem, o Ibovespa acumulava um ganho de 7,13% no mês de janeiro, sendo que somente nas últimas quatro sessões a valorização era de 6,15%. Hoje, o principal índice do mercado acionário doméstico encerrou o dia em baixa de 1,46%, aos 39.638,42 pontos - de 40.229 pontos na máxima (estável) e 39.369 pontos na mínima (-2,14%). O volume financeiro somou R$ 2,831 bilhões (preliminar) - e foi considerado baixo por operadores. Apesar da queda de hoje, o Ibovespa ainda contabiliza alta de 5,56% no mês.   Veja também: Câmara aprova pacote de Obama de US$ 819 bi Bolsas da Ásia sobem com otimismo sobre pacote dos EUA De olho nos sintomas da crise econômica  Dicionário da crise  Lições de 29 Como o mundo reage à crise    "Acho que ressaca é um ótimo termo para definir o estado do mercado nesta sessão. O movimento de ontem foi exagerado e os investidores 'caíram na real' hoje logo cedo com os resultados corporativos ruins nos EUA, Europa e Japão, e os indicadores econômicos divulgados na sequência afundaram ainda mais os índices acionários ao redor do mundo, contaminando a Bovespa", comentou Paulo Rebuzzi, operador na corretora Ativa.   No noticiário corporativo, repercutiu mal o anúncio de ontem da Starbucks de que seu lucro líquido caiu 69% no primeiro trimestre fiscal de 2009 e que vai fechar mais 300 lojas e demitir quase 7 mil funcionários. Hoje, a Ford Motor reportou prejuízo líquido de US$ 5,9 bilhões (US$ 2,46 por ação) no quarto trimestre de 2008 e confirmou a demissão de 1,2 mil funcionários na unidade Ford Motor Credit.   A farmacêutica AstraZeneca anunciou queda no lucro do quarto trimestre, para US$ 1,25 bilhão, e corte de 15 mil empregos nos próximos cinco anos. A Eli Lilly, por sua vez, divulgou prejuízo líquido de US$ 3,63 bilhões no quarto trimestre.   Na Europa, a Royal Dutch Shell divulgou prejuízo líquido de US$ 2,81 bilhões no quarto trimestre do ano passado, saindo do lucro líquido de US$ 8,47 bilhões registrado em igual período de 2007. No Japão, a Sony anunciou que seu lucro no quarto trimestre de 2008 (terceiro trimestre fiscal da empresa) caiu 95% em relação ao mesmo período do ano anterior.   Para piorar, a pauta de indicadores trouxe dados "péssimos", na palavra de um operador. Nos EUA, as vendas de imóveis novos caíram 14,7% em dezembro, as encomendas de bens duráveis recuaram 2,6% em dezembro e os pedidos de auxílio-desemprego subiram em 3 mil na semana encerrada em 24 de janeiro - contra expectativa de queda. Na Europa, o índice de confiança dos empresários e consumidores nos 16 países que usam o euro como moeda caiu ainda mais e atingiu mínima recorde em janeiro. No Reino Unido, o preço médio das moradias caiu 16,6% em janeiro na comparação com igual mês do ano passado.   Além disso, também houve um pouco de "compra no boato e realiza no fato", acrescentou Renato Bandeira de Mello, gerente operacional na corretora Futura. "As bolsas estavam subindo ontem, reflexo da expectativa de aprovação do pacote de estímulo à economia norte-americana e do anúncio do plano para montar um 'banco ruim' (bad bank), com o objetivo de comprar os chamados ativos tóxicos. Com a aprovação ontem do plano de estímulo na Câmara, muitos players aproveitaram para realizar lucros e esperar a aprovação do Senado."   O responsável pelo departamento de derivativos de outra corretora em São Paulo também considerou que o fato de 100% dos republicanos terem votado contra o programa de US$ 819 bilhões pode ter servido como argumento para alguma realização de lucros em Nova York, tendo em vista que tal atitude da oposição poderia complicar a aprovação do plano no Senado. E a piora lá fora arrastou a Bovespa junto, acrescentou. Na Câmara, os democratas têm ampla maioria na Câmara: 255 deputados, ante 178 republicanos (há duas cadeiras vagas). No Senado, contudo, são 49 parlamentares de cada lado, e dois independentes.   Em Wall Street, às 18h, o Dow Jones cedia 2,28%, o S&P-500 recuava 2,73% e o Nasdaq perdia 2,77%.   No ambiente doméstico, a ata do Copom era a divulgação mais aguardada, mas as informações no documento referente à reunião da semana passada, quando o BC reduziu a Selic de 13,75% para 12,75% ao ano, pouco influenciou as ações. Para muitos analistas, o Copom adotou um discurso 'dovish' (agressivo em relação a cortes na Selic), com destaque à desaceleração da atividade econômica e melhora nas expectativas de inflação. Na visão de muitos especialistas, o documento corrobora a aposta de uma queda de 1 ponto porcentual da Selic em março.   No noticiário corporativo, a siderúrgica japonesa Nippon Steel anunciou que comprará da Vale uma participação de 5,9% na Usiminas. Com a transação, a participação da siderúrgica japonesa no capital votante da Usiminas subirá de 23,3% para 29,2%, disse a Nippon Steel. Tal anúncio beneficiou as ações da Usiminas. As ON ganharam 5,40% (a maior alta do índice) e as PNA valorizaram-se 0,41%. No caso da Vale, as PNA caíram 2,96% e as ON -2,68%. "A Vale já vinha de uma semana de alta, já tinha puxado muito, tinha que realizar em um dia como esse", explicou um operador, citando que a notícia é positiva para a mineradora brasileira.   A outra blue chip, Petrobras, também sentiu o impacto da realização de lucros, ampliada ainda pela queda nos preços do petróleo. Petro PN caiu 0,67% e ON recuou 1,41%. Na Nymex, o contrato de petróleo para março encerrou negociado a US$ 41,44, em queda de 1,71%.   As quedas no Ibovespa foram lideradas por Klabin PN (-6,45%), Aracruz PNB (-4,72%) e TIM Participações S.A. ON (-4,23%). No outro extremo, atrás de Usiminas ON, Redecard ON subiu 2,35% e Transmissão Paulista PN avançou 1,82%.   No setor bancário, não ajudou a revisão do JPMorgan na recomendação para as ações preferenciais do Bradesco de "compra" para "neutra", em relatório sobre os bancos brasileiros em que aponta um ambiente desafiador à frente, com expectativa de aumento das provisões por crédito duvidoso em meio ao atual ambiente econômico. A corretora indica compra para os papéis do Itaú e do Unibanco, e continua a manter posição neutra para Banco do Brasil ON. Mas reduziu as estimativas de lucros de bancos brasileiros para 2009 e 2010 em até 16%.   Bradesco PN cedeu 3%, Itaú PN caiu 3,19%, Unibanco Unit recuou 3,05% e Banco do Brasil ON declinou 3,81%.

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