Com preços de minério em queda, S&P ameaça rebaixar nota da Vale

Com preços de minério em queda, S&P ameaça rebaixar nota da Vale

Agência de classificação de risco colocou em viés de baixa a nota de crédito da mineradora brasileira e de outras sete companhias, em função da expectativa de cotações ainda mais baixas para a commodity; só neste ano, preços caíram cerca de 30%

Fernanda Guimarães, O Estado de S. Paulo

13 Abril 2015 | 13h08


Atualizado às 22h35 

A agência de classificação de risco Standard & Poor’s (S&P) colocou nesta segunda-feira a nota da Vale e de outras sete mineradoras globais em observação com viés negativo, para possível rebaixamento. A expansão da oferta global da minério de ferro, o ritmo menor que o esperado para a saída dos produtores de alto custo do mercado e o crescimento mais lento da economia chinesa contribuíram para o tom pessimista da S&P. A forte queda nas cotações da commodity nos últimos meses fez a agência e analistas reduzirem as estimativas de preços do insumo para os próximos dois anos.

Nas próximas duas a três semanas, a S&P sinalizou a probabilidade de rebaixar até uma nota ou “excepcionalmente” duas notas das mineradoras. A agência classifica a nota da Vale em BBB+, três degraus acima do chamado grau especulativo. Ou seja, mesmo que seja rebaixada em dois níveis, a mineradora brasileira vai continuar mantendo seu grau de investimento. As outras que tiveram o rating colocado em observação negativa foram Anglo American (BBB), BHP Billiton (A+), CAP (BB+), Eurasian Resources Group (B-), Exxaro Resources (zaA-), Fortescue Metals Group (BB+) e Rio Tinto (A-).

Nesta segunda-feira, os preços do minério fecharam a US$ 48,80 a tonelada no mercado à vista no mercado chinês, alta de 3,2% sobre sexta-feira. Esse valor segue a referência do insumo com teor de concentração de 62%, negociado no porto de Tianjin, na China. No ano, o produto acumula recuo de cerca de 30%.

As perspectivas de recuperação para 2015 e 2016 são baixas, segundo analistas. Parte deles prevê que as cotações possam ficar abaixo de US$ 40 no segundo semestre. A própria S&P reduziu as estimativas de preços de US$ 65 para US$ 45 por tonelada para o ano; de US$ 65 para US$ 50 por tonelada em 2016; e de US$ 70 para US$ 55 em 2017.

Além disso, o recuo dos preços do minério tem sido acentuado pela queda dos custos de produção da energia e desvalorização das moedas em relação ao dólar americano nos principais países produtores, como Austrália, que viu sua moeda retrair mais de 20% nos últimos 12 meses, Brasil, com queda de quase 40% do real, e Rússia, com a perda de mais de 40% do rublo.

“Os preços mais baixos do minério de ferro podem não apenas enfraquecer os fluxos de caixa e a alavancagem financeira das produtoras, mas afetar a resiliência de longo prazo dos perfis de risco de negócios de algumas companhias, tendo em vista a esperada volatilidade dos lucros em razão da oscilação dos preços”, informou a S&P.

Nesta segunda-feira, as ações preferenciais da Vale recuaram 1,56%, enquanto as ordinárias baixaram 0,98%. Outra notícia negativa foi a piora da recomendação do UBS de neutro para venda. O banco também cortou o preço-alvo do ADR, de US$ 6,80 para US$ 4,80, em razão do corte de projeções para o preço do minério para uma faixa entre US$ 48 e US$ 53 entre 2015 e 2017. Procurada, a Vale não comentou o assunto.

Ciclo. Para o especialista em mineração José Mendo de Souza, da consultoria J. Mendo, o ciclo mineral é de dez anos. “Uma análise pontual reflete o cenário do momento. Historicamente, os preços do minério de ferro operavam em baixa antes de 2002. Entre 2002 e 2008, a demanda da China cresceu extraordinariamente, elevando os preços da commodity.”

Para serem competitivas, como a Vale é, as empresas têm de ter uma jazida de dimensão internacional, como a de Carajás, e logística eficiente. “A decisão por desinvestimento (como já anunciou a Vale) dá maior flexibilidade à necessidade de entrada de liquidez”, disse Mendo.

De acordo com analistas, o projeto de expansão S11D da Vale, em Carajás, no Pará, tem respaldo econômico e deverá ser mantido pela companhia mesmo com a queda do minério.

Na avaliação do mercado, o atual cenário de preços e os pesados investimentos que a empresa ainda terá que fazer em 2015 e 2016 levam à projeção de um fluxo de caixa livre negativo de cerca de US$ 2,4 bilhões para a companhia em 2015 e 2016.

A Vale manterá seus planos de desinvestimentos como forma de reforçar o caixa diante de um cenário considerado “difícil”, conforme afirmou o presidente da mineradora, Murilo Ferreira, em recente entrevista ao Estado. O mercado projeta que neste ano a mineradora se desfaça de ativos avaliados em US$ 6 bilhões. 

Para lembrar. A Vale fechou o ano passado com a venda de US$ 4,4 bilhões em ativos e deve continuar com o programa de desinvestimentos. É uma forma de reforçar o caixa diante de um cenário classificado de “difícil” pelo presidente da empresa, Murilo Ferreira. Parte dos recursos entrará no caixa em 2015.

O principal negócio foi a venda das operações de carvão e logística em Moçambique para a japonesa Mitsui, por US$ 3,7 bilhões. Completam a conta US$ 600 milhões da venda de navios Valemax, US$ 90 milhões da transferência da Vale Florestar à Suzano e US$ 42 milhões pela fatia na Fosbrasil.

Nos últimos três anos, a Vale levantou quase US$ 12 bilhões com desinvestimentos e seguirá vendendo ativos não estratégicos. Na linha de frente agora está a negociação de 15 navios Valemax, que poderá render até US$ 2 bilhões. Outras operações possíveis são a alienação da fatia na produtora de bauxita Mineração Rio do Norte (MRN) e a reorganização estratégica dos ativos de fertilizantes. / COLABOROU MÔNICA SCARAMUZZO

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