Jonathan Ernst/ Reuters
Jonathan Ernst/ Reuters

Com preços em alta nos EUA, caráter transitório da inflação global é questionado

Com o avanço da vacinação contra a covid-19 e a reabertura gradual da economia, a inflação começou a acelerar; números abaixo do esperado na geração de empregos no país também preocupam

Iander Porcella, O Estado de S.Paulo

18 de outubro de 2021 | 15h58

Dados de inflação e emprego divulgados recentemente nos Estados Unidos acenderam um alerta. O índice de preços ao consumidor (CPI, na sigla em inglês) subiu mais do que o esperado em setembro e o relatório mensal de empregos mostrou escassez de mão de obra e aumento salarial. Quando as pressões inflacionárias começaram a aumentar no país, no começo deste ano, o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) caracterizou o fenômeno como "transitório". Mas agora os próprios dirigentes da instituição têm revisto esse conceito.

"O risco de inflação está na mente de todos os investidores", resume o analista Antoine Bouvet, do ING. Durante evento na semana passada, o presidente da distrital de Atlanta do Fed, Raphael Bostic, afirmou que, no contexto atual, não parece mais ser "adequado" definir a pressão inflacionária como "breve". Ele disse que a alta de preços tem durado mais do que o previsto, devido aos gargalos nas cadeias produtivas globais e prefere chamá-la de "episódica".

Esse debate semântico sobre o caráter da inflação vista este ano no mundo começou a ganhar força ainda no primeiro trimestre. Com o avanço da vacinação contra a covid-19 nos EUA e a consequente reabertura gradual da economia, após o período de quarentena, a inflação começou a acelerar. Dirigentes do Fed se apressaram em dizer que essa pressão de preços seria "transitória" ou "temporária". Essa avaliação praticamente unânime na autoridade monetária, contudo, foi criticada por muitos economistas, incluindo o ex-secretário do Tesouro americano Larry Summers.

No mês passado, o Fed parecia ter vencido o debate. O CPI de agosto, divulgado em 14 de setembro, avançou 0,3% na comparação mensal, abaixo da mediana das estimativas dos analistas ouvidos pelo Projeções Broadcast, que indicava alta de 0,4%. Mesmo que no acumulado em 12 meses a inflação ao consumidor continuasse em níveis elevados (5,3%), um processo de desaceleração do indicador parecia ter começado.

Neste mês, porém, a surpresa foi ao contrário. O CPI de outubro subiu 0,4% em relação ao mês anterior, acima da mediana do Projeções Broadcast, que previa avanço de 0,3%. No comparativo anual, o índice acelerou para 5,4%. "Não podemos nos lembrar de uma semana com tantas evidências de que nossa visão anti-transitória de inflação dos EUA no longo prazo esteja correta", afirmam analistas do Nordea. "Mas o Fed tem precedência interpretativa sobre nós", ponderam Mikael Sarwe, Andreas Steno Larsen e Martin Enlund, que assinam um relatório do banco dinamarquês.

Em geral, os especialistas dizem que a inflação é gerada, principalmente, pelos gargalos nas cadeias globais de produção, que têm restringido a oferta, em meio a uma demanda crescente. Nos EUA, há também uma escassez de mão de obra. O relatório de empregos (payroll) de setembro mostrou criação de 194 mil postos, abaixo da estimativa de 500 mil do Projeções Broadcast.

Essa dificuldade das empresas em contratar funcionários é atribuída a diversos fatores, como o medo das pessoas de se contaminar com o coronavírus no ambiente de trabalho, principalmente diante do aumento do contágio com a variante delta. Na prática, esse cenário gera pressão salarial, que pode se traduzir em mais inflação. Ou seja, os empregadores aumentam os salários para tentar atrair trabalhadores.

"A semana passada trouxe mais notícias de que a escassez aguda de mão de obra e o aumento resultante nos salários estão rapidamente se refletindo nos componentes mais ciclicamente sensíveis do índice de preços ao consumidor", diz o economista-chefe para América do Norte da Capital Economics, Paul Ashworth. Ele destaca também que o aumento do preço petróleo, causado pela crise energética, deve se refletir ainda mais no CPI nos próximos meses.

Em relatório sobre perspectiva econômica, o Fundo Monetário Internacional (FMI) diz que a alta de preços deve desacelerar em 2022, mas faz um alerta: os riscos de inflação estão inclinados para cima e podem se materializar se os descompassos entre oferta e demanda induzidos pela pandemia de covid-19 continuarem por mais tempo do que o esperado. Esse cenário, de acordo com o órgão credor, levaria a pressões inflacionárias mais sustentadas. Nesse caso, com o aumento das expectativas de inflação, os bancos centrais das economias avançadas, como o Fed, acelerariam a normalização monetária.

Diretora-gerente do FMI, Kristalina Georgieva afirmou na última quarta-feira, 13, que a inflação elevada é algo transitório, mas que é preciso acelerar a vacinação contra a covid-19 para que a atividade econômica volte ao normal de forma mais rápida. "Enquanto existir forte divergência entre oferta e demanda nas economias avançadas, haverá pressão inflacionária", disse.

Em entrevista ao canal CNCB também na semana passada, o presidente da distrital de St. Louis do Fed, James Bullard, defendeu que a autoridade monetária comece logo a reduzir as compras de ativos, por meio do processo chamado de tapering, porque a inflação pode se tornar um problema maior e exigir uma elevação antecipada da taxa básica de juros. "Quero estar em posição de reagir a possíveis riscos de alta para a inflação no próximo ano", declarou.

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