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Com proposta no preço, articulação pesa

Com vários pontos vazados na imprensa, o impacto do texto da reforma da Previdência nos preços dos ativos durou pouco

Fábio Alves*, O Estado de S.Paulo

20 de fevereiro de 2019 | 15h44

O mercado gostou da proposta de reforma da Previdência entregue nesta quarta-feira, 20, pelo governo Jair Bolsonaro ao Congresso, mas o impacto positivo nos preços dos ativos durou pouco, uma vez que, com tantos pontos vazados na imprensa, o espaço para surpresa foi pouco.

Ou seja, a proposta apresentada hoje ao Congresso já estava praticamente no preço. Para uma reação mais forte dos ativos brasileiros apenas uma surpresa, aprofundando ou ampliando a abrangência das mudanças.

No geral, os analistas e investidores consideraram a proposta de Bolsonaro, que, se aprovada integralmente, geraria uma economia de R$ 1,164 trilhão em dez anos, melhor do que o projeto original enviado ao Congresso pelo governo Michel Temer, em dezembro de 2016.

Nesse total estimado da economia em 10 anos estão incluídas mudanças nas aposentadorias dos militares no período (que gerariam a modesta economia de R$ 92,3 bilhões).

A impressão preliminar de vários interlocutores é de que a equipe do ministro da Economia, Paulo Guedes, responsável pela proposta, apertou vários parâmetros simultaneamente. E isso permite um alto impacto fiscal bem distribuído em várias iniciativas, desde o regime de Previdência dos servidores públicos até o da iniciativa privada, incluindo ajustes no pagamento de pensões e valores de benefício assistencial para idosos de baixa renda.

Se o desenho da proposta agradou, a preocupação agora é com a tramitação e a aprovação dela no Congresso.

Isso porque o governo deu a largada a essa Proposta de Emenda Constitucional (PEC) da Previdência no seu pior momento político desde que Bolsonaro assumiu o Palácio do Planalto, ainda sentindo a ressaca da crise política com a saída nada amigável de Gustavo Bebianno da Secretaria-Geral da Presidência. Além disso, pesou no sentimento a derrota ontem na Câmara dos Deputados na votação do decreto sobre a Lei de Acesso à Informação, assinado pelo vice-presidente Hamilton Mourão.

Ao analisar a qualidade da proposta da reforma da Previdência entregue hoje e a próxima fase, a de tramitação do projeto no Congresso, o economista-chefe de um importante fundo de investimento fez a seguinte analogia:

"É como uma corrida de revezamento: parece que o primeiro corredor disparou na frente e está passando o bastão na liderança da corrida, mas se o próximo atleta tropeçar, o time perde a corrida!"

Em sua avaliação, o mais importante para o mercado é que, ao longo da tramitação no Congresso, o governo consiga manter a idade mínima de aposentadoria (de 65 anos para homens e 62 anos para mulheres após um período de transição de 12 anos). Sem isso, o humor do investidor azedará.

Sobre a preocupação do mercado em relação à capacidade de articulação política do governo Bolsonaro, a economista-chefe da ARX Investimentos, Solange Srour, diz que o processo de aprovação da PEC da Previdência é difícil e o que este governo peca é na falta de políticos fazendo política.

"Achei a proposta muito boa, bem melhor que a do Temer original", diz ela. "O mercado já tinha colocado no preço ontem. Acho que continua gostando muito. Agora o problema será passar."

Para um gestor da asset management de um grande banco brasileiro, a virada de mão nos preços dos ativos, durante a entrevista coletiva à imprensa por representantes do Ministério da Economia para explicar a proposta, não passou de uma realização técnica.

"A proposta foi muito boa", argumenta. Ele admite, contudo, que o mercado está preocupado com a articulação política do governo no Congresso. "É dar tempo pra ver como as pautas vão andar", diz.

Não há dúvidas que a proposta da reforma da Previdência apresentada hoje veio mais robusta que a versão original do Temer e até mesmo na ponta mais otimista das expectativas dos analistas. O teor da proposta não preocupa. A questão é como o governo vai conseguir entregar isso no Congresso. E essa é uma meta ainda longe de parecer garantida para o mercado.

*É JORNALISTA DO BROADCAST

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