Tiago Queiroz/Estadão
Mulher caminha na frente de lojas fechadas em São Paulo durante a pandemia. Tiago Queiroz/Estadão

Com queda generalizada do PIB, Brasil fica em 22º em ranking de 48 países

Impactos da pandemia colocaram a economia global em recessão; só China e Índia tiveram resultado positivo no segundo trimestre

Daniela Amorim, Mariana Durão e Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

01 de setembro de 2020 | 12h32

RIO - Apesar da queda histórica de 9,7% no Produto Interno Bruto (PIB) no segundo trimestre, o Brasil ficou na 22.ª posição no ranking internacional de desempenho da atividade econômica com 48 países, compilado pela agência de classificação de risco Austin Rating. Os impactos da pandemia foram generalizados, colocando a economia global em recessão.

Na lista, apenas China (+11,5%) e Índia (+0,7%) aparecem no azul. Epicentro inicial da covid-19, o gigante asiático recuperou o tombo de 10% registrado na economia no primeiro trimestre, como efeito do impacto antecipado da doença em relação ao resto do globo.

Os dados do PIB brasileiro foram divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que anunciou nesta terça-feira, 1º, os resultados das Contas Nacionais Trimestrais.

Para o economista-chefe da Austin Rating, Alex Agostini, o fato de o Brasil estar no meio da tabela, após ter ocupado a lanterna por diversas vezes no período recente, sugere que medidas da equipe econômica como o auxílio emergencial, redução dos juros e liberação de liquidez ao sistema financeiro pelo Banco Central surtiram algum efeito.

“Poderia ter sido pior. Mas o País ainda sofre com problemas domésticos antigos. O que faz o Brasil não deslanchar é a questão fiscal e isso não é segredo para ninguém”, diz Agostini. 

Empatado com Alemanha e Tailândia no 22º lugar do ranking, o Brasil ficou logo à frente de uma lista eclética de países como Bulgária (-9,8%), Ucrânia (-9,9%), Áustria (-10,7%), Turquia (-11,0%) e Canadá (-11,5%), entre outros. E imediatamente atrás dos Estados Unidos de Donald Trump, onde o PIB caiu 9,1% no segundo trimestre de 2020. 

O desempenho da economia brasileira foi ligeiramente superior à média global no trimestre, de -9,9%, mas abaixo da média do Brics - grupo formado por Brasil, Rússia, China, Índia e África do Sul -, de 0,8%, impulsionada pela economia chinesa. O País ficou atrás de outros mercados emergentes, como Hong Kong (-0,1%), Taiwan (-1,4%) e Coreia do Sul (-3,3%), o que sinaliza desvantagem na competição por investimentos.

“Há perspectiva de melhora no segundo semestre, mas o governo brasileiro começa a flertar com uma postura assistencialista, o que não é saudável para um País que há seis anos registra déficit primário”, afirma Agostini, destacando que as incertezas no ar contribuem para a estimativa do mercado de um crescimento de apenas 3,5% para 2021, ante 5,9% na média para o Brics.

À frente da elaboração do ranking internacional há 12 anos, Agostini diz que não viu uma concentração tão grande de quedas do PIB nem mesmo durante a crise financeira de 2009. A  Austin avalia que o segundo trimestre foi o fundo do poço da crise detonada pela covid-19 e enxerga o início de uma recuperação já no terceiro trimestre.

“Não vai ter força infelizmente para anular a queda do  primeiro semestre, mas vai ser interessante para amenizar o impacto e pavimentar o crescimento para 2021, que ainda assim será pequeno”, diz Agostini.

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PIB tem queda histórica de 9,7% no 2º trimestre e confirma recessão

Sob efeito da pandemia, atividade econômica registrou dois trimestres seguidos de retração, o que não acontecia desde 2016

Daniela Amorim e Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

01 de setembro de 2020 | 09h04
Atualizado 02 de setembro de 2020 | 01h17

RIO - As expectativas em relação ao desempenho da economia brasileira em 2020 até melhoraram, após a divulgação de dados mais recentes, de junho e julho, mas a pandemia de covid-19 levou a um tombo histórico no Produto Interno Bruto (PIB, o valor de tudo o que é produzido na economia) do segundo trimestre, assim como ocorreu em praticamente todos os países, confirmou nesta terça-feira, 1.º, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A retração de 9,7% em relação aos três primeiros meses do ano é a maior da atual série histórica do IBGE, iniciada em 1996, mas, segundo cálculos de pesquisadores da Fundação Getulio Vargas (FGV), não há registro de um trimestre com desempenho pior desde 1980.

Foi também o segundo trimestre de retração - a queda do primeiro trimestre em relação ao quarto trimestre de 2019 foi revisada para 2,5%, ante o 1,5% inicialmente informado -, primeira vez que isso ocorre desde 2016. As duas retrações seguidas caracterizam uma “recessão técnica”, classificação comumente usada no mercado financeiro, embora o comitê independente da FGV dedicado a analisar os ciclos econômicos já tivesse marcado o início da recessão no primeiro trimestre.

A queda do PIB no segundo trimestre foi tão pior do que em outras crises porque “nunca antes se propôs uma política que fosse desligar a economia”, diz Eduardo Zilbermann, professor do Departamento de Economia da PUC-Rio, numa referência às regras de restrição ao contato entre as pessoas, como forma de estancar o avanço da covid-19. Em outras crises econômicas - causadas por inflação, desequilíbrios nas contas externas ou bolhas financeiras, etc. -, as empresas entram em dificuldade, suspendem investimentos e demitem funcionários, ou a renda das famílias é corroída, e elas consomem menos.

Assim, nas outras crises, as lojas vendem menos do que o normal, amargam receitas menores, mas seguem vendendo. Indústrias veem a demanda caindo, o estoque começa a encalhar nas fábricas e reduzem a produção, mas seguem produzindo. Só que o “desligamento” provocado pela pandemia fechou lojas, que não podiam receber clientes, e fábricas, que não podiam aglomerar trabalhadores. Vendas e produção foram para perto de zero.

Como explica Zilbermann, o PIB é uma medida de fluxo, de quanto se produz continuamente ao longo do tempo. Assim, mesmo que a parada para valer tenha ocorrido em abril, o fundo do poço da economia, a reabertura gradual a partir de maio e junho foi insuficiente para salvar o PIB do segundo trimestre, formado por essa produção contínua em cada um dos meses.

O quadro catastrófico só não foi pior por causa das medidas adotadas pelo governo para mitigar a crise, com destaque para o auxílio emergencial de R$ 600 ao mês pago aos mais pobres e aos trabalhadores informais. Desde junho, estudos têm apontado que os pagamentos de emergência chegaram a elevar a renda dos mais pobres, reduzindo, temporariamente, a pobreza. Ainda assim, esse impulso não impediu o tombo de 12,5% no consumo das famílias ante o primeiro trimestre. 

O economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale, que, em maio, chegou a estimar uma retração de 17,3% no PIB do segundo trimestre, já havia revisado sua projeção, na semana passada, para uma queda de 9,7%. Além do impulso do auxílio emergencial no consumo, contribuíram para a melhora do quadro, na visão de Vale, a baixa adesão dos brasileiros à quarentena, que manteve alguns comércios funcionando, e o crescimento do agronegócio. O PIB da agropecuária teve o melhor desempenho entre os componentes da oferta, com alta de 0,4% ante o primeiro trimestre.

“Há commodities que não são agrícolas, mas também se beneficiaram do aumento da demanda chinesa e do câmbio, como minério de ferro e também petróleo, num grau menor. Se você junta esses segmentos todos, estamos falando de 35% a 40% do PIB com retorno positivo no primeiro semestre”, afirma Vale.

Ainda pelo lado da oferta, os serviços, que respondem por cerca de 70% do PIB, encolheram 9,7% em relação ao primeiro trimestre, e a indústria tombou 12,3%. Com as empresas adiando compra de maquinário e obras suspensas, a formação bruta de capital fixo (FBCF, medida dos investimentos no PIB) despencou 15,4% em relação aos três primeiros meses do ano.

Os rumos a crise

No cenário de Bráulio Borges, economista sênior da LCA Consultores, a dinâmica global da recessão poderá ditar os rumos da crise. O fato de todas as economias do mundo terem sido atingidas, de forma semelhante e mais ou menos ao mesmo tempo - apenas a China, onde a covid-19 surgiu, foi atingida um pouco antes -, é uma das características inéditas da crise. Para ele, a recuperação poderá acabar sendo ditada pela dinâmica internacional, que, por sua vez, é marcada pelas medidas de mitigação adotadas pelos principais países.

Por isso, na visão de Borges, o desempenho da economia no Brasil poderá ser melhor do que o dos vizinhos da América Latina, porque os brasileiros não respeitaram a quarentena e pela falta de coordenação na ação dos governos federal e locais - ao custo de mais mortes pela covid-19 - e por causa do tamanho das medidas emergenciais. Nas contas do Observatório de Política Fiscal do Ibre/FGV, as políticas do governo federal somam 11,5% do PIB - 8,27% do PIB em ações com gastos fiscais e 3,21% do PIB em medidas de “crédito fiscal”, voltadas para empréstimos. O pacote está praticamente no mesmo nível do dos Estados Unidos, que soma 11,6% do PIB.

“O pacote de suporte fiscal no Brasil foi muito elevado. Até mais elevado do que se poderia imaginar, dada a situação fiscal”, afirma Borges.

Para Zilbermann, da PUC-Rio, a economia brasileira está numa “encruzilhada”. Por um lado, no momento mais imediato, as medidas emergenciais impulsionam a economia e podem ajudar na recuperação nos próximos meses. Por outro lado, os gastos públicos associados às medidas ameaçam o equilíbrio fiscal nos próximos anos. Desequilíbrios poderão elevar o risco país e a cotação do dólar e afastar investidores, o que tiraria ímpeto da recuperação da economia. A saída, segundo o professor, seria o governo sinalizar claramente que a elevação de gastos é temporária, tem data para terminar, e que o equilíbrio das contas voltará no médio prazo.

'CHACOALHÃO'

Em mais de meio século de funcionamento, a Esquina do Fuad, tradicional restaurante do bairro paulistano de Santa Cecília, nunca tinha passado por nada parecido. Nem ele, nem os milhões de empreendedores espalhados pelo País. A queda de quase 10% da atividade econômica causada pelo confinamento exigido pela pandemia restringiu, de uma hora para outra, a operação do restaurante, que passou a trabalhar só por meio de entregas (delivery). “O segundo trimestre foi o pior em 54 anos, com queda de 20% no tíquete médio”, afirma o proprietário Denis Nery.

Para Lucas Furlani, dono de duas franquias do salão de cabeleireiros Soho, a situação foi pior. Por três meses, abril, maio e junho, os dois salões ficaram fechados. “O segundo trimestre não existiu para a gente, o faturamento foi zero.”

Com a flexibilização da quarentena a partir de julho, os dois empreendedores tiveram de se reinventar. Tanto Nery como Furlani não recorreram a bancos. Reduziram despesas e renegociaram contratos com fornecedores.

Nery focou no delivery, apesar de continuar atendendo presencialmente no restaurante. “A pandemia foi um chacoalhão”, diz o empresário, que tem hoje na entrega de comida um negócio muito maior do que o atendimento no restaurante, embora com uma lucratividade menor. No momento, Nery procura cinco pontos na capital paulista e também na região do ABC para instalar cozinhas e atender às vendas por delivery.

Furlani, que em abril cogitou a possibilidade de fechar definitivamente os salões, agora não pensa mais nisso. “Conseguimos nos ajustar, todos os dias temos tido movimento e estamos proporcionando segurança aos clientes.” Ele admite, no entanto, que não está tendo lucro. “É um privilégio conseguir manter o negócio aberto.”/COLABORARAM CÍCERO COTRIM, MÁRCIA DE CHIARA e GREGORY PRUDENCIANO

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O Brasil entra em depressão

Cai por terra a narrativa do ministro Paulo Guedes de que a pandemia abateu a economia brasileira quando esta iniciava um robusto processo de crescimento

José Luis Oreiro*, O Estado de S.Paulo

01 de setembro de 2020 | 11h34

Os números divulgados nesta terça-feira, 1º, pelo IBGE para o PIB do segundo trimestre de 2020 mostram a maior queda da série histórica iniciada desde 1996, uma retração de 9,7% com respeito ao primeiro trimestre do ano. O crescimento do primeiro trimestre foi também revisado para baixo, ao invés de uma queda de 1,5% contra o último trimestre de 2019, os dados do IBGE apontam para uma queda de 2,5%.

Considerando que as medidas de distanciamento social começaram a ser adotadas a partir de meados de março de 2020; cai definitivamente por terra a narrativa do ministro da Economia, Paulo Guedes, de que a pandemia do coronavírus abateu a economia brasileira quando esta iniciava um robusto processo de crescimento. Nada mais longe da verdade: a economia estava em franco processo de desaceleração antes da chegada do coronavírus.

Dado o crescimento medíocre observado no período 2017-2019, a conclusão inescapável é que a tão agenda de reformas não tem tido sucesso no sentido de colocar o Brasil na rota do desenvolvimento econômico.

A ocorrência de dois trimestres consecutivos de queda do PIB define uma recessão técnica. Dada a magnitude da queda do PIB ocorrida nos dois primeiros trimestres de 2020 e o forte estímulo fiscal representado pelo programa de renda emergencial é provável que no terceiro trimestre do ano o PIB apresente um crescimento expressivo. Fala-se de um crescimento de cerca de 5% no terceiro trimestre e de 1,5% no último trimestre.

Mesmo que esse crescimento se materialize, a economia brasileira irá encerrar o ano de 2020 com um PIB quase 6% mais baixo do que o prevalecente no último trimestre de 2019. Nem de longe tal resultado pode ser entendido como uma recuperação em V. Em termos de PIB per capita o resultado será ainda pior: uma queda de quase 7% na comparação com o final de 2019.

Não devemos nos esquecer, contudo, que a economia brasileira, antes da pandemia, ainda não havia se recuperado dos efeitos da crise de 2014-2016. Com efeito, o PIB no final de 2019 ainda era cerca de 5% mais baixo que o do primeiro trimestre de 2014. Dessa forma, a economia brasileira fechará 2020 com um PIB cerca de 11% mais baixo que no início de 2014. Esses números mostram que a economia brasileira se encontra, na verdade, numa depressão.

*Professor do Departamento de Economia da Universidade de Brasília, Pesquisador Nível IB do CNPq e Lider do Grupo de Pesquisa "Macroeconomia Estruturalista do Desenvolvimento", cadastrado no CNPq. É autor do livro "Macroeconomia do Desenvolvimento: uma perspectiva Keynesiana", LTC: Rio de Janeiro (2016)

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'Isso é impacto do raio que caiu em abril', diz Guedes sobre tombo do PIB

Ministro afirmou que a queda recorde de 9,7% na atividade econômica não preocupa o governo e que recuperação será rápida

Jussara Soares e Julia Lindner, O Estado de S.Paulo

01 de setembro de 2020 | 10h21
Atualizado 01 de setembro de 2020 | 16h32

BRASÍLIA - O ministro da Economia, Paulo Guedes, disse nesta terça-feira, 1º, que não causa preocupação ao governo o tombo histórico de 9,7% do Produto Interno Bruto (PIB), no segundo trimestre deste ano na comparação com os três primeiros meses do ano.

"Isso é impacto do raio que caiu em abril", afirmou Guedes, no Palácio da Alvorada, em referência aos impactos da crise do coronavírus na economia brasileira. Ele participou do anúncio da prorrogação do auxílio emergencial até dezembro, ao lado do presidente Jair Bolsonaro e de líderes do Congresso.

Depois, em audiência pública com os parlamentares, o ministro disse que o resultado do PIB divulgado hoje é "som de um passado distante".  “Nós humanos somos átomos que raciocinam. Economia não é uma ciência exata. Como a velocidade da luz é diferente da velocidade do som, você vê um raio muito cedo e o som chega muito depois. É a mesma coisa com a economia”, afirmou. 

Ele completou dizendo que quem previu uma queda de 10% no PIB deste ano “viajou na velocidade da luz” e errou. “Chegou agora o som de uma queda inicial do PIB de 10%. Só que a realidade é outra. É um som de um passado distante. Como a luz das estrelas que nós vemos foram emitidas há bilhões de anos. O que você vê é um registro do passado. Foi esse som que chegou agora”, completou. 

Guedes disse que as estimativas agorapara o PIB de 2020 estão em queda entre 4% e 5%, a metade da queda registrada no segundo trimestre. A projeção oficial é de retração de 4,7%. “O crédito, consumo de energia elétrica, notas fiscais estão todas voltando com dois dígitos. No fim do ano, a queda da economia brasileira pode ser 4% até um pouco menos”, afirmou. 

Os efeitos da pandemia de covid-19 sobre a economia, apesar de percebidos ainda em fevereiro, se intensificaram em todo o mundo a partir de março. Para conter a disseminação da doença e o colapso do sistema hospitalar, o Brasil adotou o isolamento social em boa parte do território, o que afetou a atividade econômica. Os efeitos negativos foram percebidos principalmente em março e abril.

O resultado divulgado nesta terça é a queda mais intensa desde que o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) iniciou os cálculos do PIB trimestral, em 1996. Até então, o maior tombo já registrado no País tinha ocorrido no quarto trimestre de 2008 (-3,9%).  Com o desempenho, o Brasil entrou oficialmente em recessão técnica, caracterizada por dois trimestres consecutivos de encolhimento do nível de atividade.

"Isso é de impacto lá atrás. Estamos decolando em 'V'", disse Guedes usando a metáfora para explicar que após uma queda rápida da atividade, deve acontecer também uma alta na mesma intensidade.

Na audiência pública na comissão mista do Congresso Nacional que acompanha a execução das medidas de enfrentamento à pandemia de covid-19, Guedes afirmou que o governo tomou "medidas vigorosas" para o enfrentamento à pandemia, acima da média dos países avançados e quase o dobro dos emergentes.  

“Mais importante do que o resultado do PIB do 2º trimestre é observar que abril foi o piso e já há uma retomada em V. Todo mundo previa essa queda de 10% no 2º trimestre, mas esse é um som distante do impacto da pandemia lá atrás. O Brasil ficaria nessa queda se governo não tivesse aprovado medidas com o Congresso. Com essas medidas, conseguimos criar uma volta em V, a economia está voltando em V”, disse.

Guedes afirmou que o crescimento da economia no próximo ano pode surpreender. Segundo a estimativa que consta da proposta de Orçamento do próximo ano, encaminhada ontem ao Congresso Nacional, o PIB deverá ter uma alta de 3,2% em 2021. “Ano que vem podemos ser surpreendidos com crescimento de 3%, 3,5%, 4% a 4,5%. Só depende de aprovarmos as reformas”, completou. 

Ministério diz que retração foi menor do que em outros países

O Ministério da Economia avaliou que o resultado do PIB do segundo trimestre, embora tenha mostrado retração elevada, foi menor do que "as principais economias" e, também, quando comparado a alguns países emergentes (Chile, México e Índia).

"A redução da atividade está entre as menores em relação as principais economias. Por exemplo, a queda no 2º trimestre nos países do G7, quando comparado ao mesmo trimestre de 2019, foi de -11,9%. Algo semelhante ocorre para os países emergentes como Chile, México e Índia foram de -13,7%, -19% e -23,9%, respectivamente", informou.

De acordo com a análise da Secretaria de Política Econômica do Ministério da Economia, essa "menor deterioração" deveu-se ao trabalho conjunto do governo e do Congresso Nacional na elaboração e implementação de políticas econômicas que "suavizassem os efeitos do coronavirus".

"Um dos objetivos de tais medidas foi justamente atenuar os impactos negativos sobre a economia, buscando a preservação dos empregos e à sobrevivência das empresas. Outro propósito das medidas implementadas foi o de limitar o efeito da pandemia para os informais e para as famílias mais pobres, mantendo a renda de muitas famílias brasileiras nesse momento de maior necessidade", acrescentou a área econômica.

Apesar do forte tombo do PIB e início de um novo período recessivo na economia brasileira, o governo informou que dados mais recentes apontam para início de uma recuperação parcial em maio e junho, e "continuidade da retomada" da economia no terceiro trimestre.

Entretanto, o governo avaliou que uma "recuperação pujante" da economia só será possível com a retomada da agenda de reformas e consolidação fiscal (redução do rombo das contas públicas). A área econômica citou a necessidade de aprovar a proposta que modifica a Lei de Falências, do projeto de Lei do Gás e do projeto que cria o Programa de Estímulo ao Transporte por Cabotagem (navegação na costa brasileira), entre outros. /COLABORARAM EDUARDO RODRIGUES E LORENNA RODRIGUES

 

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'A política econômica é em grande medida a política de saúde pública', diz economista

Entre os dados negativos do PIB do segundo trimestre, Armando Castelar chama atenção para o aumento de 15,5% na poupança, o que, segundo ele, é um indicativo de que a recuperação poderá ser acelerada

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

01 de setembro de 2020 | 15h28

SÃO PAULO - Em meio a tantos números negativos da atividade no segundo trimestre e ao resultado sem precedentes do Produto Interno Bruto (PIB), que registrou queda de 9,7% entre abril e junho ante o trimestre anterior, o economista Armando Castelar, coordenador da área de Economia Aplicada do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV), chama atenção para aumento da taxa de poupança. Com as pessoas confinadas em casa, a poupança subiu para 15,5% como proporção do PIB no segundo trimestre deste ano, superando os 13,7%, registrados no mesmo período de 2019.

Isso revela, segundo o economista, que o consumo não ocorreu pela falta de renda, mas porque os brasileiros não estão saindo de casa. Potencialmente, diz, é um indicativo de que a recuperação poderá ser acelerada, se houver uma melhora na saúde pública. “A política econômica é em grande medida a política da saúde pública”, afirma Castelar. O espaço para o governo agir é acelerar a redução dos casos de covid-19 e, quanto mais rápido fizer isso, a economia voltará a se recuperar.

A seguir, os principais trechos da entrevista.

Como o sr. avalia o resultado do PIB do segundo trimestre?

O resultado foi terrível, totalmente sem precedentes em relação às séries estatísticas que temos. Veio pior do que se imaginava. Nós, do Ibre, trabalhávamos com uma queda de 8,8% e o mercado com algo mais perto de 9%. Os 9,7% foram piores do que se esperava. Nesse sentido, foi o insulto em cima da injúria. O que surpreendeu foi o resultado do governo, da administração pública na parte da oferta e da demanda. Todo mundo esperava uma queda pequena, afinal de contas a saúde pública foi bastante ativa nesse período. Mas o resultado foi bastante negativo. Vamos ter que olhar com mais cuidado, porque os dados do IBGE não detalham. Transporte caiu também bastante: 19,3% em relação ao primeiro trimestre e, em relação ao ano passado, 20,8%. A expectativa era de uma queda na faixa de 14%. Surpreendeu negativamente. Acho que essas são as duas explicações de porque o número veio pior do que o esperado. O PIB só não caiu mais porque a demanda externa aumentou na comparação anual 2,8%. Se não fosse isso, o PIB ao invés de ter caído 11,4% ante o mesmo trimestre de 2019 teria recuado 14%. E o agronegócio ajudou. Os preços das commodities lá fora estão num bom patamar e isso vai continuar ajudando o setor agrícola. A tendência é que a renda dos exportadores tenha um bom resultado este ano

Com esse resultado, qual é sua projeção para o ano?

Eu estava mais otimista, trabalhando com uma queda de 4,5% no ano. Agora projeto queda de 5%. A revisão do PIB do primeiro trimestre, de -1,5% para -2,5%,foi uma notícia adicional ruim. Em março, em particular, a queda foi bastante forte. Abril foi muito profundo. Maio subiu um pouquinho e junho subiu mais. A média é de coisas muito diferentes: queda muito forte em abril, uma pequena elevação em maio e uma elevação mais forte em junho. Essa crise é diferente de outras, com o desemprego muito alto, o consumo das famílias  muito reprimido. Particularmente, como as pessoas estão dentro de casa, não têm ido ao restaurante, shows. Um dado que me chamou bastante atenção foi a alta da poupança. A poupança subiu porque o consumo caiu mais do que a renda. Isso se observa muito claramente na Europa e nos Estados Unidos. Com as transferências de rendas e tudo mais, as pessoas não consumiram. O que mostra que o consumo não ocorreu porque faltou renda. A queda no consumo ocorreu porque as pessoas não estão saindo para consumir.

O fato de a poupança ter aumentado é um sinal positivo?

Potencialmente, sim, porque significa que as pessoas têm recursos para consumir no futuro. Isso poderá acelerar a recuperação. As pessoas estão começando a comprar imóveis, por exemplo. Se houver uma melhora na saúde pública, as pessoas têm recursos para sair consumindo.

Na sua avaliação, está ocorrendo, de fato,  uma recuperação nos últimos meses?

Sim, melhorou a expectativa do mercado porque o auxílio emergencial, que inicialmente que ia até junho, teve mais duas parcelas. Agora foi estendido até o final do ano, com R$ 300. Nos dados mensais, a venda de eletrodomésticos está crescendo muito. O comércio está se recuperando em relação ao mesmo mês do ano anterior. Onde está mal é a venda de automóveis, compras que são mais difíceis de serem feitas pela internet. Além disso, toda a parte de serviços pessoais. O dado de serviços das famílias veio muito negativo e continua bastante afetado pela pandemia. Você já vê aumento do consumo, a produção industrial crescendo, tentando sair do fundo do poço. O comércio conseguiu chegar à superfície, a indústria está perto. Nesse sentido, estou mais otimista em relação ao terceiro trimestre, até porque a base de comparação é muito pequena, com toda essa queda.

O sr. acredita que o PIB do terceiro trimestre virá forte em relação ao segundo?

Sim. Gostaria de enfatizar que tudo isso está condicionado à pandemia. Se houver uma segunda onda, pode piorar. Mas, se houver uma vacina, vai ter um boom.  A tendência é que a gente continue escalando esse poço profundo. Acredito que o terceiro trimestre deve crescer alguma coisa na faixa de 6% sobre o segundo.

Quanto tempo vamos levar para voltarmos ao nível pré-pandemia?

Vamos voltar para o nível pré-pandemia só em 2022.

Vamos sair da recessão antes disso?

De acordo com a definição de recessão técnica, de dois trimestres seguidos de queda do PIB, nós já saímos, porque no terceiro trimestre teremos expansão. O comitê de datação de ciclos econômicos olha isso, mas também vai olhar o emprego e outras coisas que caracterizam recessão. Daí a pergunta é mais difícil. Tanto no Brasil quanto em outros países, o emprego está muito ruim. O emprego está demorando muito para reagir.

O sr. acha que o emprego vai demorar para se recuperar?

Sim e isso não é só aqui. Também em outros países o desemprego aumentou bastante. Principalmente nos setores de serviços pessoais, cabeleireiro, restaurante, médico, escolas. Setores em que há um contato pessoal direto entre o cliente e o prestador de serviço sofrem mais e eles empregam muita gente. Os setores que vão se recuperar bem é o comércio eletrônico, indústria de transformação, construção imobiliária. Agora o setor de serviços é bastante complicado e o setor de transporte também.

Como o sr. vê esse dilema: a concessão do auxílio emergencial que ajuda a economia no curto prazo, mas retira o ímpeto de crescimento no médio prazo por causa do aumento do endividamento público?

Esse é um imperativo que está colocado a todos os países. Existem três situações. Há países que têm dívida pequena e têm espaço fiscal para gastar mais por mais algum tempo, como a Coreia do Sul.  Outro caso é de países com dívida alta, mas com muita gente que vai comprar, caso dos Estados Unidos. A tendência dos EUA é continuar com posição fiscal relaxada.  A situação do Brasil é ruim porque já tem uma dívida muito grande. Então, não temos a  liberdade que têm a Coreia do Sul e a Alemanha para gastar. O que o Brasil poderia fazer é redirecionar o gasto para as pessoas mais pobres e fazer uma rede de proteção social. Os mais pobres gastam uma parcela muito grande da renda e isso ajudaria a impulsionar o consumo. É preciso focar melhor o gasto do auxílio emergencial para as pessoas de renda mais baixa e olhar também para outras políticas. Por exemplo, acho que é uma boa hora para rediscutir subsídios para empresas. Existem muito gastos que não contribuem para manter a economia andando. Não são gastos prioritários neste momento. Qualquer coisa fora disso vai gerar aumento dos juros e preocupação da situação fiscal a médio prazo.

O governo tem poucos instrumentos para minimizar essa recessão?

Sim. O que ele precisa fazer é retroceder a pandemia o mais rápido possível. Com isso, as pessoas que não estão consumindo por problemas sanitários, saem  para consumir, gastando a poupança acumulada. A solução é cuidar da pandemia. Quanto mais rápido fizer isso, mais rápido volta a saúde privada, a educação privada, o consumo de serviços. A política econômica é em grande medida a política da saúde pública. Quanto mais rápido agir na saúde pública, mas rápido a economia volta a se recuperar.

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