Gabriela Biló/Estadão
O grupo alimentação e bebidas subiu 0,39% no IPCA de janeiro, ante avanço de 3,38% em dezembro.  Gabriela Biló/Estadão

Com queda na carne, inflação perde força e sobe 0,21% em janeiro

Resultado é menor para o mês desde o início do Plano Real; depois do aumento de 18,06% em dezembro, preço das carnes recuou 4,03% no mês passado

Daniela Amorim, O Estado de S. Paulo

07 de fevereiro de 2020 | 09h12
Atualizado 07 de fevereiro de 2020 | 15h09

RIO - Passado o choque de preços, as carnes ficaram mais baratas neste início de ano, dando uma trégua também para a inflação oficial no País. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) subiu 0,21% em janeiro, o resultado mais baixo para o mês desde o início do Plano Real, informou o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta sexta-feira, 7.

A taxa foi ainda mais branda do que as expectativas mais otimistas de analistas do mercado financeiro coletadas pelo Projeções Broadcast, que estimavam uma inflação entre 0,31% e 0,56%.

Depois de subirem 18,06% em dezembro, os preços das carnes recuaram 4,03% em janeiro, item de maior contribuição negativa para o IPCA do último mês.

“(A carne) Estava com preço elevado em dezembro, então a gente está comparando com uma base elevada. Os preços não voltaram ao patamar anterior, mas tiveram leve recuo. Se considerar janeiro do ano passado, o patamar (de preço das carnes) está bem mais alto ainda. Não devolveu tudo que tinha subido”, ressaltou Pedro Kislanov, gerente do Sistema Nacional de Índices de Preços do IBGE.

O custo da alimentação no domicílio cresceu 0,20% em janeiro, após um avanço de 4,69% em dezembro. As famílias pagaram mais pelo tomate (13,72%, depois de uma alta de 21,69% no mês anterior) e pela batata-inglesa (11,02%).

A alimentação fora do domicílio subiu 0,82% em janeiro, ante uma elevação de 1,04% em dezembro. “A variação da alimentação fora de casa é um pouco mais estável, os preços não variam tanto quanto na alimentação no domicílio”, explicou Kislanov.

Além das carnes, os combustíveis também ajudaram a desacelerar a inflação. A gasolina voltou a ficar mais cara, assim como o etanol, mas subiram menos que no mês anterior. Os reajustes no condomínio e no aluguel residencial pesaram nos gastos com habitação. No entanto, as despesas foram menores em janeiro com peças de vestuário, produtos de higiene pessoal e artigos de residência.

“A gente não vê pressão de demanda no índice do mês. Foi o menor resultado para o IPCA de janeiro desde o Plano Real. Houve uma desaceleração em alguns componentes da inflação de serviços, que é o que melhor reflete a pressão da demanda sobre preços, sobre a inflação. Embora a economia esteja se recuperando, com redução da taxa de desemprego, a gente não sente ainda um efeito grande em termos de demanda no resultado da inflação”, avaliou Kislanov.

A inflação de serviços desacelerou de uma alta de 0,73% em dezembro para 0,28% em janeiro, dentro do IPCA. Já os preços de bens e serviços monitorados pelo governo avançaram de uma alta de 0,35% em dezembro para 0,51% em janeiro.

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Análise: Preços na direção certa

O resultado de janeiro do IPCA antecipa que o primeiro trimestre de 2020 será extremamente benigno para a inflação

André Braz*, O Estado de S.Paulo

07 de fevereiro de 2020 | 12h30

A inflação acelerou subitamente no último trimestre de 2019 e assustou os consumidores, principalmente os de renda baixa. Em janeiro o índice mudou de direção, recuando acentuadamente para metade da taxa prevista para o mês, que era de 0,4%.  

As variações percebidas no final de 2019, acendendo o sinal amarelo, vinham do segmento Alimentos, puxadas principalmente pela carne bovina - o item encerrou o ano com alta acumulada de 32,4%. O aumento das exportações para a China, com a diminuição da oferta de carne no mercado interno, contribuiu para a rápida aceleração dos preços. 

Este ano a China pode continuar influenciando os preços de commodities importantes, mas desta vez em sentido contrário, agora por conta do coronavírus e a consequente queda nas exportações do Brasil para aquele país. 

Outros fatores também explicam a comportada inflação este ano. A economia segue pouco aquecida e os preços dos Serviços Livres comprovam a fraca demanda. A taxa acumulada em 12 meses para esse segmento (3,3%) permanece abaixo da inflação do período, de 4,2%. Ou seja, sem registrar aumento real. 

O mesmo papel podemos esperar de Bens Duráveis. Quedas consecutivas da taxa Selic, no menor nível histórico (4,25% ao ano), tendem a favorecer o financiamento de tais bens, aumentando a demanda. No entanto, a taxa acumulada segue próxima de zero.

O resultado de janeiro antecipa que o primeiro trimestre de 2020 será extremamente benigno para a inflação. Em 2019, o índice oficial subiu 1,5% entre janeiro e março. Este ano a expectativa é que não ultrapasse 0,8%. 

Para fevereiro, ainda que pese o reajuste das mensalidades escolares, o IPCA deve seguir influenciado por novas quedas nos preços das proteínas, principalmente carnes bovinas.

A economia pouco aquecida não deve favorecer o pass through cambial (repasse das variações cambiais para os preços), mesmo com a desvalorização do real frente ao dólar. Os combustíveis, por exemplo, estão seguindo o preço do petróleo em queda, e as grandes commodities agrícolas estão com boas previsões de safra. 

Considerando tal cenário, o IPCA deverá fechar 2020 bem abaixo da meta, em torno de 3,3%. Teremos, portanto, mais um ano com poucos desafios para a política monetária.

*Coordenador do IPC do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas

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Cálculo do IPCA considerou pela primeira vez dados coletados por robô

O item transporte por aplicativo, que teve queda de 0,54% em janeiro, inaugurou essa forma de coleta no índice oficial de inflação

Daniela Amorim, O Estado de S.Paulo

07 de fevereiro de 2020 | 12h32

RIO - O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de janeiro, divulgado nesta sexta-feira, 7, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) trouxe pela primeira vez dados coletados por um robô. O item que inaugurou essa forma de coleta foi o transporte por aplicativo, com queda de preços de 0,54% em janeiro, que também está estreando na cesta de consumo das famílias.

O IPCA de janeiro é o primeiro a ser divulgado com estrutura de ponderações atualizada com base na Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) de 2017/2018. Depois de subir 1,15% em dezembro, o índice fechou o mês passado em alta de 0,21%.

Segundo Pedro Kislanov, gerente do Sistema Nacional de Índices de Preços do IBGE, o resultado do item passagens aéreas coletado por robôs passará a ser divulgado no IPCA-15 de fevereiro e no IPCA de fevereiro. A coleta por robô de preços de hospedagens e hotéis está em fase de testes, mas deve começar a ser divulgada em breve.

“A ideia é automatizar por robô tudo o que a gente já coleta online. A gente ganha muito em eficiência. Tudo que a gente puder coletar online, a gente quer expandir e coletar por robô”, disse Kislanov. “Esses números são submetidos a uma crítica no sistema, tem crítica feita pelo analista também, antes de chegar a vocês.”

O pesquisador disse que a coleta automatizada dos preços de hotéis será tema de uma reunião na semana que vem, mas ainda não tem data definida para divulgação. Para ele, a vantagem da automatização da coleta é massificar a quantidade de informações, além de liberar um técnico que vinha fazendo essa operação.

O IPCA de janeiro trouxe 58 novos subitens, enquanto 64 subitens que integravam a antiga cesta saíram do índice. Outros 319 subitens foram mantidos. Ou seja, a cesta de consumo das famílias com preços apurados pelo IBGE passou dos 383 que existiam até a divulgação de dezembro para os atuais 377 subitens divulgados no IPCA de janeiro.

“Os itens de maior peso continuam sendo basicamente os mesmos: aluguel residencial, empregado doméstico, gasolina, energia elétrica. Esses continuam em todas as áreas (pesquisadas). Os itens que entraram são importantes para compor a cesta, mas não têm peso assim tão significativo no índice”, explicou Kislanov.

Alguns dos novos itens são clínica para tratamento de animais (-0,13% em janeiro), serviços de higiene para animais (-0,19%), serviços de streaming (0,0%), macarrão instantâneo (-1,32%), cabeleireiro e barbeiro (0,20%) e sobrancelha (-0,26%). Os novos itens só terão resultado acumulado em 12 meses a partir da divulgação de dezembro de 2020.

Sob nova ponderação, o grupo alimentação e bebidas passa a pesar 19,35% no IPCA de janeiro. habitação passa a um peso de 15,59%; artigos de residência, 3,75%; transportes, 20,60%; vestuário, 4,58%; saúde e cuidados pessoais, 13,53%; despesas pessoais, 10,73%; educação, 6,15%; e comunicação, 5,71%.

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