Nilton Fukuda/Estadão
Ânimo. Sara Aurélio: crédito imobiliário e consignado Nilton Fukuda/Estadão

Com queda nos juros, busca por crédito tem o maior crescimento desde 2010

Entre concessões, maior procura é por linhas destinadas a renegociação de dívidas, seguidas por crédito consignado; de janeiro a agosto, total de pessoas que buscaram financiamento foi 10,3% maior na comparação com o mesmo período de 2018

Márcia De Chiara , O Estado de S. Paulo

13 de outubro de 2019 | 20h31

A administradora de empresas Sara Ramos Aurélio, de 24 anos, tinha, em maio deste ano, dívidas em atraso de R$ 7 mil entre cheque especial e cartão de crédito. Ela gastou com roupas, celular, viagens, restaurantes e acumulou pendências incompatíveis com a sua renda mensal de R$ 5 mil. “Em maio, cheguei ao meu limite”, conta. A saída foi buscar R$ 8 mil em uma linha de crédito mais barata, o consignado, para se livrar da dívida antiga e mais cara. 

Agora, por três anos, todo mês o banco vai descontar R$ 280 diretamente do seu salário para ir quitando o novo financiamento. “O juro menor me motivou a renegociar a dívida”, diz. Foi o que deu coragem à administradora para assumir, na semana passada, um financiamento de 30 anos para a compra da casa própria, avaliada em um pouco mais de R$ 200 mil.

Sara engrossa as estatísticas de milhões de brasileiros que procuraram crédito neste ano. Até agosto, a demanda do consumidor por financiamentos teve a maior expansão dos últimos nove anos. Desde janeiro, o aumento do número de pessoas que buscaram crédito foi de 10,3%, em relação a igual período do ano passado, segundo a empresa de informações financeiras Serasa Experian. Essa marca só foi superada em 2010, quando a procura avançou 16,4% – mas em uma economia que cresceu 7,5%. 

Juros ao consumidor em queda (mesmo que num ritmo muito mais lento do que o recuo da taxa básica de juros, a Selic), inflação bem comportada (que dá mais poder de compra), e emprego em lenta recuperação estão entre os motivos que têm levado mais brasileiros a buscar financiamentos. 

A maior procura é por linhas que emprestam dinheiro vivo. Dados do Banco Central mostram que a concessão de crédito destinada a renegociação de dívidas cresceu 32,9% entre janeiro e agosto, em relação aos mesmos meses de 2018, e liderou o ranking dos financiamentos aprovados a pessoas físicas com recursos livres no período.

Na vice-liderança está o crédito consignado, com avanço de 32,5%, seguido pelo cartão de crédito parcelado (30,5%) e o crédito pessoal (22,3%). Já as concessões para a compra de bens de maior valor que ampliam o patrimônio também aumentaram, porém em ritmo mais moderado. As aprovações de crédito para a compra de veículos cresceram 18,8% entre janeiro e agosto, na comparação anual, e os financiamentos imobiliários avançaram 8,8%.

“Os novos recursos vindos do crédito estão sendo usados sobretudo para renegociar dívidas antigas pendentes e complementar o orçamento das famílias, que continua apertado”, afirma o economista-chefe da Serasa Experian, Luiz Rabi. 

“Muita gente está substituindo dívida mais cara por uma mais barata e existe mais qualidade na decisão da tomada de crédito”, observa Nicola Tingas, economista-chefe da Acrefi, associação que reúne as financeiras. Na sua avaliação, o brasileiro está atrás dinheiro tanto para pagar dívidas como para complementar o orçamento. “O crédito para consumo cresce também, mas é mais comedido.”

Juros

Desde o fim de 2016 até hoje a taxa básica de juros caiu abaixo da metade, de 14% para 5,5% ao ano. No mesmo período, o juro ao consumidor recuou quase um terço, de 74,48% para 52,06% ao ano.

Neste ano, a redução de um ponto porcentual na Selic ajudou, na avaliação de Rabi, nas linhas de crédito de renegociação de dívidas, cujo juro era de 4% ao mês em janeiro e caiu para 3,6% em agosto.

O BC vem cortando a taxa básica, mas reduções na mesma proporção não estão acontecendo nos juros na ponta porque, na avaliação de Rabi, o canal do crédito está obstruído pela própria situação difícil que se encontra o consumidor. 

Pesquisa da Serasa mostra que há no País 63 milhões de brasileiros com dívidas em atraso. Inclusive, acrescenta o economista, a inadimplência da pessoa física dentro dos bancos tem subido ligeiramente nos últimos meses. “Não dá para imaginar que a redução da Selic vá gerar um impulso muito grande de consumo e possa reativar rapidamente a economia. Antes disso, as pessoas estão resolvendo os seus problemas de endividamento e inadimplência.”

Ovos de ouro

O economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio (CNC), Fabio Bentes, diz que a taxa de juros não caiu o suficiente para explicar a maior demanda por crédito. “O que o mercado está fazendo para não matar a galinha dos ovos de ouro é ampliar prazo.”

Cálculos realizados por Bentes a partir de dados do BC mostram que o prazo médio para aquisição de bens subiu cerca de 10% nos últimos 12 meses até agosto. O economista pondera que esse aumento de prazo ajuda a reduzir o valor da prestação e impulsiona a venda.

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Bicos elevam demanda por crédito

Lenta recuperação do emprego leva brasileiro a comprar bens para trabalhar por conta própria

Márcia De Chiara, O Estado de S. Paulo

13 de outubro de 2019 | 20h30

As financeiras já sentiram o aumento da demanda por crédito por parte das pessoas físicas para deslanchar o empreendedorismo popular. A lenta recuperação do emprego empurrou milhões de brasileiros para viver de bicos. Muitos compraram a prazo pequenos bens de capital para empreender por conta própria. Esse movimento inclui desde a aquisição de um automóvel mais novo, para poder trabalhar como motorista de aplicativo, até a compra de um carrinho de lanches, por exemplo.

“O empreendedorismo popular está aquecendo a compra de pequenos ativos adquiridos a prazo pelas pessoas físicas”, afirma Nicola Tingas, economista-chefe da Acrefi, associação que reúne as financeiras. A tendência foi detectada entre as instituições que participam da entidade.

A maior procura por financiamentos para a compra desses equipamentos impulsiona as concessões de crédito. E ela acaba se misturando com as demandas feitas pelo consumidor.  Neste ano, por exemplo, as concessões de crédito para compra de veículos para pessoas físicas aumentaram 8,8% entre janeiro e agosto deste ano, em relação aos mesmos meses de 2018, segundo dados do Banco Central. Nesse resultado, provavelmente estão incluídas compras feitas por interessados em trabalhar com aplicativos.

Muriel de Oliveira, de 52 anos, está se preparando para virar motorista de aplicativo, colaborando para ampliar a procura por crédito. Montador de painéis luminosos, faz cinco anos que ele não tem carteira assinada. No momento trabalha como empreiteiro e executa diferentes tarefas dentro de uma obra. “Faço de tudo, da instalação hidráulica à parte elétrica.” Mas ele quer mudar de vida por causa da renda incerta e do risco de acidentes. “Estou cansado de trabalhar em obra.”

Dono de um veículo Clio, ano 2005, ele pretende comprar uma carro mais novo, ano 2013, para poder trabalhar como motorista de aplicativo. É que uma das exigências dos aplicativos é que o veículo seja mais novo.

Seu plano é vender o carro atual e usar o dinheiro da venda para dar de entrada num veículo mais novo. A diferença ele pretende financiar em, no máximo, 24 vezes.

Oliveira está disposto a desembolsar uma parcela de mensal de R$ 800 pelo financiamento do veículo e calcula que vai conseguir tirar cerca de R$ 1 mil por semana trabalhando com aplicativo. “Tenho vários amigos que trabalham com aplicativo e se deram bem.”

Depois de liquidar uma dívida ainda pendente e que ele pretende pagar à vista para conseguir a aprovação do financiamento do carro, Oliveira não planeja comprar nenhum bem de grande valor este ano. “Consumo vai ser só a compra do carro para trabalhar.”

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