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Com quem e como vamos sair do sufoco?

Marco Antonio Rocha*, O Estado de S.Paulo

18 de junho de 2015 | 02h05

A inflação tem a peculiaridade de trazer o passado e o futuro para o instante presente e ao mesmo tempo. Como num cristal de quartzo, ela nos dá visão simultânea de dois cenários diametralmente opostos que se juntam num só olhar. Lembra Jano, o deus da antiga Roma, com sua dupla face, uma olhando para o passado e a outra, para o futuro. Essa peculiaridade da inflação raramente é percebida pelo grande público e dificilmente os economistas conseguem avaliá-la com acuidade nas suas análises.

A explicação é de que dois elementos importantes na formação da inflação são de natureza muito mais psicológica do que econômica, o que os leva a serem pouco considerados pelos economistas na medição dos avanços ou dos recuos das taxas. Apesar das dificuldades de quantificação, esses dois componentes são frequentemente mencionados nos artigos e comentários sobre o processo inflacionário, mas apenas en passant, como diriam os franceses, ou de maneira despicienda - para ficarmos no vernáculo. Estamos falando da chamada "inércia inflacionária" e das "expectativas inflacionárias".

O segundo componente o Banco Central tenta medir ou quantificar todas as semanas com sua pesquisa Focus, perguntando aos agentes econômicos, isto é, analistas e empresários de vários setores da economia, qual a expectativa que alimentam sobre o comportamento da inflação nos meses vindouros. Em suma, qual a inflação prevista ou previsível. Já a inércia inflacionária é o componente derivado dos reajustes de preços e de salários feitos nos meses precedentes, que os americanos chamam de carry over - a inflação trazida ou transportada.

Eis por que, em cada momento, a inflação, além de ser fruto de fatores conjunturais (taxa de câmbio, taxa de juros, quebra de safras, preço dos combustíveis, etc.), é fruto também da junção do passado com o futuro na cabeça dos formadores de preços. Com uma complicação a mais: a inflação passada, ou a inércia inflacionária, agrava as expectativas para a inflação prevista, ou futura. Assim, o passado não apenas se impõe ao presente, como influi no futuro.

Nada disso passou pela cabeça do grande timoneiro que conduziu o Brasil nos primeiros oito anos de PT. Ao acontecer a "marolinha" - como ele chamou a grande crise internacional de 2007-2008 - e coerentemente com o apelido que bolou, cavalgou sua proverbial arrogância - montaria usual dos ignorantes - e partiu para uma política econômica alegadamente anticíclica, porém desbragada e descuidada, sob as bênçãos do puxa-saco de ocasião, seu ministro da Fazenda.

A "marolinha" tornou-se "marolão", como reconhece hoje a própria presidente Dilma. E as medidas anticíclicas que "protegiam o Brasil da crise", frase com que o novo cavaleiro da esperança as justificava, prolongaram-se além do recomendável, mas cumpriram o real objetivo que ele tinha em mente: eleger o poste! Poste que, eleito, não se deu conta do desastre já armado e não cuidou de desarmá-lo. Manteve, no ministério, o gerente do desastre e sua descabelada "nova matriz macroeconômica", como batizou o improviso alçado a política de Estado.

Este é o resumo de como chegamos ao crescimento zero do PIB, ao aumento do desemprego, à paralisação de investimentos (públicos e privados), ao arrocho necessário das contas públicas, às revoltas contra o governo na base aliada e no próprio PT, à desmoralização da liderança da presidente.

E, pior, de como chegamos à perplexidade no combate à incerteza e à insegurança quanto ao futuro próximo ou remoto, no que se refira a empregos, rendas e salários; à desesperança, no que se refira a um projeto viável para o desenvolvimento do País; à incapacidade dos partidos políticos em aprovar e implantar tal projeto; à desilusão com lideranças oportunistas que se candidatam a herdar o poder do PT. De modo que a indagação fundamental hoje é: com quem e como vamos sair do sufoco?

*É jornalista (marcoantonio.rocha@estadao.com)

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