José Patrício/Estadão
José Patrício/Estadão

Com recuperação lenta dos reservatórios, conta de luz deve ficar alta até o fim do verão

Especialistas afirmam que não há risco de desabastecimento, apesar do nível baixo dos lagos das hidrelétricas; em dezembro, conta de luz disparou 9,34%

Denise Luna, O Estado de S.Paulo

12 de janeiro de 2021 | 17h34

RIO - Desde 2012, os reservatórios das hidrelétricas brasileiras sofrem com o ciclo de chuvas mais fraco e dificilmente conseguirão se recuperar este ano, avaliam especialistas, o que manterá as usinas termoelétricas caras e poluentes ligadas até o fim do verão. A conta de luz, que em dezembro disparou 9,34% por causa do risco de desabastecimento de energia, o que levou o governo a acionar as térmicas emergenciais naquele mês, continuará subindo, apesar da bandeira amarela, mas existe folga de oferta no Sistema Interligado Nacional (SIN) que garante o abastecimento, resultado da soma de uma economia fraca à continuidade da entrada de projetos anteriormente contratados, quando se projetava um crescimento vigoroso da economia.

“Risco de desabastecimento tem, mas é baixo, o sistema está folgado, porque a economia não tem crescido e entraram em funcionamento uma série de usinas que foram contratadas lá atrás com expectativa do crescimento do consumo, que está vindo muito mais lento do que se esperava. Então, o sistema tem relativa folga”, explicou o pesquisador do Grupo de Estudos do Setor Elétrico (Gesel) da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Roberto Brandão.

Este ano entram em operação duas grandes termoelétricas a gás natural e mais modernas, em Sergipe e no Porto do Açu, empreendimento no norte do Rio de Janeiro, além de vários projetos de energia eólica e solar, o que dará ainda mais folga ao SIN.

“E tem outras térmicas que vão entrar mais na frente, além de plantas novas no mercado livre de eólicas e solares, que entram nos próximos anos. Tem uma expansão de geração que garante abastecimento mesmo o consumo crescendo”, lembrou.

Atualmente, 70% da geração hídrica de energia opera com reservatórios em torno dos 10%/20% de armazenagem de água. De acordo com Brandão, a maior parte da energia está armazenada em sete grandes reservatórios. Entre eles, cinco há muitos anos não conseguem encher, como as hidrelétricas Furnas e Serra da Mesa, 20,5% cheios no momento; Nova Ponte, com 11,5% de armazenagem de energia; Itumbiara, com 11%, e Emborcação, com 10%. Todas fazem parte do subsistema Sudeste/Centro-Oeste, região também com maior demanda de eletricidade.

“Os reservatórios estão muito vazios e isso sempre é uma preocupação. As chuvas atrasaram e o ano passado foi um ano muito ruim de chuva, mais uma vez, a gente tem tido ano atrás de ano, desde 2012”, avalia Brandão. Segundo ele, 2016 foi o ano com melhor incidência de chuvas nesse período, mas não o suficiente para garantir o enchimento das hidrelétricas.

O acionamento das termoelétricas, mais caras e poluentes, garante a segurança do sistema, mas não enche reservatórios, ressaltou, lembrando que apenas a redução do consumo poderia poupar a água das hidrelétricas, “o que não é possível em plena pandemia e em pleno verão”, afirma.

Segundo o Operador Nacional do Sistema (ONS), as chuvas nos últimos dias já estão contribuindo para o aumento dos níveis dos reservatórios localizados no subsistema Sudeste/Centro-Oeste, o mais afetado pela estiagem. O volume dos reservatórios do subsistema passou de 16,6% em 21 de dezembro para 20% em 10 de janeiro, informou.

O pior caso é o da hidrelétrica Chavantes, na bacia do Paranapanema, no Estado de São Paulo, que está com 9,59% do seu volume útil. “Mesmo assim, se compararmos o mês de dezembro com janeiro, houve uma leve alta, de 9,41% para os atuais 9,49%”, disse o operador em entrevista ao Estadão/Broadcast.

Para o Sudeste/Centro-Oeste, a expectativa do ONS é terminar o mês com 24,5% de armazenamento no subsistema, superior ao nível atual (20%), indicando que o nível dos reservatórios continuará apresentando alta nos próximos dias.

“É importante destacar que o período seco de 2020 nos subsistemas Sudeste/Centro-Oeste e Sul, principalmente entre outubro e novembro, ficou entre os piores em termos de valores médios de vazões observadas em todo o histórico de 90 anos”, afirmou.

Para o pesquisador da Fundação Getúlio Vargas (FGV) João Teles, até 15 de janeiro a previsão é de “chuva razoável” para o Sudeste e a cabeceira do Rio São Francisco, em Minas Gerais, próximo à hidrelétrica Três Marias, mas não há como projetar como será o ano de 2021 em termos de chuva, já que as previsões da meteorologia são eficientes apenas no curto prazo.

“O risco de racionamento é baixíssimo, porque a gente já tem uma colaboração muito grande das fontes intermitentes no Nordeste, que exporta energia. A economia está abaixo do previsto e está se recuperando em cima de uma pandemia, o que vai ajudar a não ter aquele boom de consumo”, afirmou.

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