Com rentabilidade superior ao CDI, 'CDB das financeiras' ganha destaque

Letra de Câmbio, apesar do nome, não tem relação com o dólar; emissões do título de renda fixa subiram 43% em março na comparação anual

MARIANA CONGO, O Estado de S.Paulo

13 Abril 2015 | 02h05

O nome pode confundir, mas a Letra de Câmbio (LC) não tem relação com o dólar. É sim um título de renda fixa. A palavra câmbio tem o sentido de troca. A LC é emitida por financeiras para captação de dinheiro no mercado - daí vem o apelido de "CDB das financeiras", uma referência ao popular investimento bancário.

Os investidores são atraídos pela rentabilidade acima da média do CDB dos bancos. É comum encontrar Letra de Câmbio com faixa de remuneração entre 110% e 130% do CDI (taxa de juros do Certificado de Depósito Interbancário) e prazo de vencimento de dois anos. O Imposto de Renda segue a tabela regressiva.

O investimento mínimo inicial varia de acordo com o apetite da financeira e com o público almejado, com valores como R$ 100, R$ 10 mil ou R$ 500 mil. Uma desvantagem do produto é a baixa liquidez: não há mercado secundário e algumas financeiras não permitem o resgate antecipado (carência para recompra do título).

Mercado. Depois que o Fundo Garantidor de Crédito (FGC) ampliou, em maio de 2013, a garantia de cobertura da Letra de Câmbio de R$ 70 mil para R$ 250 mil (por CPF e instituição), o mercado ganhou mais fôlego.

O crescimento do volume depositado em Letras de Câmbio foi de 43% na comparação de março com o mesmo mês de 2014, segundo dados da Cetip, central de registro de ativos e títulos. Já o estoque atingiu no mês passado R$ 4,6 bilhões, alta de 38% na comparação anual.

A Dacasa Financeira, braço do varejista Grupo Dadalto, começou a emitir Letra de Câmbio depois que o limite do FGC foi ampliado. O produto ofertado hoje exige investimento mínimo de R$ 20 mil, tem vencimento de dois anos (sem possibilidade de resgate antecipado) e rentabilidade de 128% do CDI.

Outra financeira, a Omni, atua na área de financiamento de veículos e motos para a classe C, além de oferecer bandeira de cartão de crédito para varejistas. Sua Letra de Câmbio paga 108% do CDI, com prazo de dois anos e aplicação mínima de R$ 1 mil. Segundo a Cetip, 27 financeiras fizeram emissões no mês de março. O acesso ao produto via corretoras e distribuidoras de valores faz crescer seu alcance, já que muitas financeiras atuam regionalmente.

Risco e retorno. A rentabilidade atraente da Letra de Câmbio não é só um prêmio pelo fato de elas serem emitidas por instituições menores e, em tese, com maior risco. A relação também engloba a outra ponta: os empréstimos para clientes de financeiras têm juro alto.

A Dacasa, por exemplo, trabalha com crédito ao consumidor e cartão de crédito. O juro cobrado nessas modalidades é em torno de 10% ao mês (214% ao ano), enquanto o CDI está em torno de 12% ao ano. "Tem muita gordura, muita margem. Daí eu consigo pagar uma taxa maior ao investidor", diz Felippe Oliveira, coordenador de captação e relações com investidores da Dacasa Financeira. Na avaliação dele, a insegurança da renda variável não compensa quando é possível receber 16% ao ano com uma LC.

De acordo com o diretor financeiro da Omni, Nelson Rosa, o produto também tem se popularizado porque mais financeiras passaram a ter plataforma de distribuição própria, além das parcerias com corretoras. "O investidor está ficando mais familiarizado com a Letra de Câmbio. O risco é muito parecido com o da poupança, mas com taxa muito superior", avalia o diretor.

Segurança. Apesar da garantia do FGC, é sempre bom o investidor evitar dor de cabeça e buscar uma financeira com credibilidade. "Uma vantagem de adquirir a Letra de Câmbio na corretora é que nós fazemos uma análise prévia do balanço e da condição de crédito da empresa", diz o diretor de gestão de recursos da Ativa Investimentos, Arnaldo Curvello.

Outra maneira de reforçar a segurança é buscar financeiras que têm o selo Cetip Certifica. "Esse selo atesta que o título está registrado no nome do investidor", explica Ricardo Magalhães, gerente executivo de relações e projetos da Cetip.

Passo a passo: O que é Letra de Câmbio?

1.O que é. A Letra de Câmbio (LC) é um título de renda fixa emitido exclusivamente por financeiras. Apesar de ter a palavra câmbio no nome, não tem relação com dólar. Câmbio aparece aqui no sentido de troca: enquanto a financeira capta recursos, o investidor recebe rendimento.

2. 'CDB das financeiras'. A LC é apelidada de "CDB das financeiras", pois segue a mesma lógica do popular Certificado de Depósito Bancário (CDB) dos bancos. As emissões são atreladas ao volume de empréstimos que a financeira fez em certo período.

3. Investir. Por lei, não há aplicação mínima em Letra de Câmbio, isso depende da estratégia do emissor. Ela pode ser adquirida na financeira, em corretoras ou em distribuidoras de valores.

4. Rentabilidade. A maior parte das Letras de Câmbio tem rendimento pós-fixado atrelado a um porcentual do CDI (taxa do Certificado de Depósito Interbancário). Em geral, a rentabilidade oferecida é superior ao CDI - na faixa de 120%.

5. Impostos. A cobrança de Imposto de Renda segue a tabela regressiva. Em uma aplicação de dois anos, por exemplo, o rendimento é tributado em 17,5%. Já o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) só é cobrado se o houver resgate antes de 30 dias.

6. Vencimento. Nas emissões de Letra de Câmbio predominam os títulos com vencimento em dois anos. Algumas financeiras permitem o resgate antecipado (por exemplo, carência de 30 dias), mas o rendimento será menor nessa opção. Assim, o recomendado é que o investidor aplique um valor que não fará falta em caso de emergências.

7. Garantia. O Fundo Garantidor de Crédito (FGC) oferece cobertura a aplicações de até R$ 250 mil (por CPF e por instituição). Se a financeira quebrar, o FGC repõe a perda do investidor dentro desse limite. Outra maneira de verificar a segurança da Letra de Câmbio é checar se a financeira tem o selo Cetip Certifica, que comprova que o título comprado pelo investidor está registrado em seu nome.
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