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Com S&P, País revive pesadelo do FMI

Missão de agência de risco é tratada com a mesma reverência que já foi dada ao FMI

MAURO ZANATTA, RICARDO DELLA COLETTA, RICARDO BRITO/BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

16 de março de 2014 | 02h08

A passagem da economista Lisa Schineller e outros dois analistas da agência classificadora de risco Standard & Poor's por Brasília na semana passada para analisar as contas do governo teve forte ênfase na política interna e expôs o grau de preocupação no mercado internacional com os desdobramentos das manifestações de rua no País e da crise nas relações da presidente Dilma Rousseff com o Congresso.

Para além das minúcias nas contas públicas e das questões econômicas que podem levar a um corte na nota de crédito brasileira, hoje em "perspectiva negativa", a diretora de Classificação de Risco Soberano da S&P entrou fundo em questões políticas, apurou o Estado. Quis saber desde o funcionamento da coalizão governista até as chances de aprovação no Congresso de projetos com impactos econômicos, como a troca de indexadores das dívidas de Estados e municípios.

A recepção à analista, recheada de mesuras e apreensão, lembrou as visitas de duas outras economistas temidas no Brasil. No fim dos anos 80, ficou famosa a chilena Ana Maria Jul, que negociava os empréstimos do Fundo Monetário Internacional (FMI). De tailleur e pastinha 007, ela encarnava a intromissão internacional no País. No fim dos anos 90, quem negociava com o Brasil era Teresa Ter-Minassian, diretora da área fiscal do Fundo.

Deferência. O "furacão Lisa", comparado a Teresa nos bastidores, foi recebido com deferência pela diretoria do Banco Central e pelos ministros da Fazenda, da Casa Civil e das Comunicações. A equipe foi conduzida por motorista do governo em veículo oficial da Fazenda em seu périplo pela capital federal.

Em sua lista de questões, Lisa colocou os interlocutores na parede. "Cordial, mas objetiva", segundo relatos, inquiriu os ministros sobre o alcance das manifestações, expressou surpresa com a volta dos protestos e com a falta de uma "cara" ou liderança única do movimento.

Quis saber como esses protestos influenciariam os planos legislativos do governo e quais as chances dessa insatisfação voltar a abalar a confiança da população no governo, interferindo nos índices de intenção de voto em Dilma, como ocorreu no rastro de junho de 2013.

Nos dois dias da visita, a equipe da S&P também tratou das prioridades da presidente para seu eventual segundo mandato e as implicações para um ambiente favorável aos investimentos. "A indústria está reagindo, o dólar está numa rota de equilíbrio. O PIB vai responder e a inflação está sob controle", resumiu uma fonte da equipe econômica.

Políticos. Em sua visita a Brasília, Lisa quis aprofundar seu entendimento sobre o cenário político com líderes da oposição. Na véspera da viagem, na quarta-feira, pediu até a ajuda do diretor de Assuntos Internacionais do Banco Central, Luís Awazu Pereira, para agendar um almoço com o senador tucano Aloysio Nunes Ferreira (SP) no dia seguinte. Também tentou um encontro com o senador Agripino Maia (DEM-RN).

No caso de Aloysio, o almoço foi cancelado por um atraso nas conversas da S&P no Ministério da Fazenda. No segundo, pela recusa de Agripino, que preferiu comemorar os 100 anos do tio, João Agripino, ex-governador da Paraíba, em João Pessoa.

"Eles tinham marcado das 13h às 14h. Mas o negócio com o Mantega enrolou", disse Ferreira. E Agripino emendou: "Queriam marcar quinta ou sexta comigo, mas não seria possível".

Em nota ao Estado, a S&P explicou que, embora não comente reuniões específicas, "em geral" ouve "uma variedade de indivíduos ou grupos" para completar a análise. "O que pode incluir os mais diversos representantes do governo e setores relacionados." A S&P não procurou integrantes do PSB do candidato Eduardo Campos nem da Rede de Marina Silva. Em São Paulo, a equipe esteve com analistas, investidores, acadêmicos e banqueiros.

Embora recebida com tratamento "vip", Lisa e sua equipe sofreram sanções do governo. Nos bastidores, alguns interlocutores lembravam do papel decisivo da S&P na avaliação positiva de papéis na crise das hipotecas podres ("subprime") nos Estados Unidos, em 2008, que resultou na quebra do banco Lehman Brothers. O governo americano processou a S&P em razão das falhas de avaliação dos papéis financeiros de alto risco de calote.

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