Epitácio Pessoa/Estadão - 5/2/2020
Plantão de soja em Capão Bonito (SP): demanda internacional por grãos ajudou o setor em 2020. Epitácio Pessoa/Estadão - 5/2/2020

Com supersafra de grãos, agropecuária evitou queda maior do PIB de 2020

O PIB do agro cresceu 2%, na contramão do recuo de 4,1% da economia como um todo; setor teve o melhor desempenho desde 2017

Daniela Amorim, Vinicius Neder e Isadora Duarte, O Estado de S.Paulo

04 de março de 2021 | 11h05

RIO - A supersafra de grãos impulsionou o resultado da agropecuária em 2020. A despeito do choque na economia provocado pela pandemia do novo coronavírus, o Produto Interno Bruto (PIB) da agropecuária cresceu 2,0% no ano passado, na contramão da queda de 4,1% da economia como um todo, informou o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) na quarta-feira, 3.

O bom desempenho das lavouras de soja, café e milho puxou o setor agropecuário para o melhor desempenho desde 2017. Naquele ano, a recuperação de uma quebra de safra em 2016 para uma produção recorde levou a um salto de 14,2% no PIB da agropecuária.

A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) estima um crescimento de 2,5% do PIB da agropecuária em 2021. “O resultado deve ser puxado pela forte produção de grãos e carnes, com firme demanda internacional por grãos e consumo interno de alimentos aquecido”, disse o coordenador do Núcleo Econômico da CNA, Renato Conchon. “Mas o crescimento pode ser limitado pelo possível impacto das adversidades climáticas sobre as culturas de milho de segunda safra, café e suco de laranja.”

Caso não houvesse crescimento da agropecuária, o declínio do PIB nacional seria ainda maior. “O crescimento da agropecuária foi importante não somente para esse indicador econômico, mas também na geração de empregos, na exportação, entre outros. Mesmo que o setor tenha apresentado um crescimento mais modesto, ele vem dando importantes contribuições para economia como um todo”, apontou o coordenador da CNA.

Pelo lado da oferta, apenas quatro atividades ficaram no azul em 2020: agropecuária, serviços financeiros, atividade imobiliária e indústria extrativa mineral. Somadas, esses setores respondem por pouco mais de um quarto de todo o PIB. Em 2020, a agropecuária aumentou sua importância no PIB brasileiro, crescendo de uma fatia de 5,1% da economia brasileira em 2019 para 6,8% no ano passado. “A agropecuária ganhou bastante peso, porque (a produção) cresceu e porque os preços subiram. A indústria e os serviços perderam”, disse Rebeca Palis, coordenadora de Contas Nacionais do IBGE.

A indústria de transformação reduziu seu tamanho no PIB de 11,8% em 2019 para uma participação de apenas 11,3% em 2020. Prejudicados pela necessidade de medidas de distanciamento social em função da pandemia de covid-19, os serviços encolheram de uma proporção de 73,5% no PIB de 2019 para 72,8% em 2020. As atividades mais afetadas do setor foram hotelaria, restaurante e bares.

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PIB tem 3ª maior queda da história e recua 4,1% em 2020

Retomada econômica perdeu fôlego no último trimestre do ano passado, quando a atividade econômica cresceu 3,2 em relação ao trimestre anterior, informou o IBGE; resultado do ano é o pior desde o confisco das poupanças pelo governo Collor, em 1990

Daniela Amorim e Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

03 de março de 2021 | 09h09
Atualizado 03 de março de 2021 | 12h06

RIO - A retomada econômica perdeu fôlego no último trimestre do ano passado, quando o Produto Interno Bruto (PIB, todo o valor gerado na economia) cresceu 3,2% em relação ao terceiro trimestre, informou nesta quarta-feira, 3, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Diante da redução do auxílio emergencial, extinto desde janeiro, e da piora da pandemia de covid-19, a desaceleração já era esperada. Com o dado do quarto trimestre, o PIB caiu, na média de 2020, 4,1% ante 2019, o terceiro pior resultado da história.

O tombo foi menor do que a retração de 4,35% registrada em 1990, ano do confisco das poupanças pelo governo Collor, que segue marcado com a maior retração econômica anual de que se tem registro, numa série histórica desde 1901, compilada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). O segundo pior desempenho desde o século 20 foi registrado em 1981, em meio à crise da dívida externa, quando o tombo foi de 4,25%. Também veio melhor do que as projeções do mercado financeiro, que apontavam para uma retração de 4,2%, segundo pesquisa do Projeções Broadcast.

Fortemente afetado pelas medidas de restrição de circulação para conter o avanço do coronavírus, o setor de serviços encolheu 4,5% no ano e a indústria registrou queda de 3,5%. Por outro lado, a agropecuária cresceu 2%.

Pesou no resultado anual de 2020 o segundo trimestre, auge das medidas de restrição ao contato social para tentar conter a covid-19, com tombo de 9,2% ante os três primeiros meses do ano. Entre abril e junho, a retração foi tão maior do que outras já verificadas na história porque houve uma paralisação quase completa das atividades, a partir de meados de março do ano passado

Em outras crises - causadas por inflação, desequilíbrios nas contas externas ou bolhas financeiras, entre outras causas -, as empresas entram em dificuldade, suspendem investimentos e demitem funcionários, ou a renda das famílias é corroída, e elas consomem menos. Assim, lojas vendem menos, mas seguem vendendo. Indústrias veem a demanda cair e reduzem a produção, mas seguem produzindo.

Em 2020, a crise foi diferente. A pandemia fechou lojas, que não podiam receber clientes, e fábricas, que não podiam aglomerar trabalhadores. Vendas e produção foram para perto de zero ao mesmo tempo, provocando uma enorme queda na comparação com o PIB de períodos anteriores.

Para Entender

Como o PIB é calculado

O Produto Interno Bruto (PIB) é utilizado para medir a atividade econômica do país. Economistas costumam dizer que o PIB é um bom indicador de crescimento, mas não de desenvolvimento. Confira.

A partir de meados do ano, as medidas de restrição ao contato social começaram a ser relaxadas País afora. Só isso já foi suficiente para dar início à retomada, lembrou a economista-chefe da Tendências Consultoria, Alessandra Ribeiro. É o que economistas chamam de “recuperação cíclica”. As medidas adotadas pelo governo para mitigar a crise, com destaque para o auxílio emergencial, deram um impulso adicional.

“Uma coisa é parar tudo e reabrir. Só com isso, já tem uma reação da economia. Depois, o auxílio (emergencial) foi muito importante, mas houve outros estímulos”, afirmou Alessandra, citando a baixa da taxa básica de juros (a Selic, que chegou aos atuais 2,0% ao ano, menor da história) e outras medidas do Banco Central (BC) sobre o crédito, o programa de preservação de empregos formais e o Pronampe, linha de financiamentos para pequenas empresas com garantia do Tesouro, operada pelo Banco do Brasil.

Portanto, a ação do governo e do Congresso Nacional evitou um resultado anual ainda pior. Para o estrategista-chefe do Banco Mizuho na América Latina, Luciano Rostagno, a história da retomada da atividade econômica no ano passado só pode ser contada tendo os estímulos fiscais, monetários e creditícios, “sem precedentes”, como protagonistas. No momento mais pessimista das pesquisas do Projeções Broadcast, quando o IBGE informou o PIB do primeiro trimestre, no fim de maio, as projeções apontavam para uma retração de 6,5% em 2020. Dali em diante, os analistas foram revisando para cima as projeções, à medida que foram sendo divulgados dados econômicos.

A pandemia também desorganizou a economia. Com as famílias passando mais tempo em casa, o comércio eletrônico permitiu que o consumo de bens fosse mantido, beneficiando a recuperação da indústria. Com isso, o PIB industrial avançou 1,9% no quarto trimestre ante o terceiro, fechando 2020 com queda de 3,5% sobre 2019.

Por outro lado, o isolamento social seguiu afetando a prestação de serviços como alimentação fora, lazer e viagens. Com isso, o PIB de serviços avançou 2,7% sobre o terceiro trimestre, mas isso não foi suficiente para evitar a queda de 4,5% em 2020 ante 2019.

A desorganização dificulta a retomada, porque o setor de serviços responde por 73% do PIB. Esse peso também se reflete no consumo, direcionado em sua maioria para os serviços. Mesmo com o impulso do auxílio emergencial, a alta de 3,4% no consumo das famílias no quarto trimestre sobre o terceiro não evitou a queda de 5,5% em 2020.

Como a redução do poder de fogo das medidas do governo já era conhecida - em setembro, o auxílio emergencial foi reduzido de R$ 600 para R$ 300 mensais, com o último pagamento feito em dezembro - e houve a piora da pandemia em dezembro, a perda de fôlego da retomada no fim do ano era esperada. A desaceleração da recuperação continuou neste início de ano, sem o auxílio e com os sistemas de saúde no limite, e vários economistas já esperam uma retração do PIB no primeiro trimestre

“2020 é o ano que não terminou. O ano de 2021 é um ‘repeteco’, e agravado. Estamos vendo uma rebarba forte da pandemia, sem os instrumentos (para mitigar a crise), como o auxílio (emergencial), e com o desemprego e a inflação mais elevados. É um 2020 piorado”, afirmou o economista Antônio Corrêa de Lacerda, professor da PUC-SP.

Segundo Alessandra Ribeiro, da Tendências, dados de dezembro, janeiro e fevereiro apontam que o fim do auxílio emergencial tem causado impacto negativo “mais importante” do que o inicialmente estimado. Por isso, e por causa da piora na pandemia, a consultoria projetava crescimento abaixo de 3,0%, antes de saírem os dados do quarto trimestre.

Ao mesmo tempo, lembrou a economista, as discussões em torno da reedição da transferência de renda trazem à tona as incertezas sobre os desequilíbrios fiscais. O governo federal já vinha com déficits nos últimos anos por causa da crise fiscal que se arrasta desde a recessão de 2014 a 2016, mas o quadro se agravou com a pandemia. Ano passado, o déficit primário nas contas do governo - que não considera as despesas financeiras com juros da dívida - foi de R$ 743,087 bilhões, ou 10% do PIB, o maior rombo da série histórica do Tesouro Nacional, iniciada em 1997

Agora, após dois meses sem pagar o auxílio emergencial, o governo ainda negocia com o Congresso uma reedição da medida, por meio de uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que autoriza a inclusão da transferência de renda no Orçamento deste ano, mas cria novas medidas de ajuste das despesas no futuro. A PEC está prevista para ser votada nesta quarta-feira, 3. 

Na visão de Alessandra, o controle da pandemia e o ritmo da vacinação são mais importantes para definir o ritmo da recuperação econômica em 2021, mas a questão fiscal poderá tirar ainda mais fôlego da retomada.

O efeito aí é indireto. Com as incertezas sobre o equilíbrio das contas do governo, agentes do mercado financeiro passam a buscar taxas de juros mais elevadas ao investir nos títulos públicos. Isso contribui para a elevação das cotações do dólar. O câmbio mais elevado serve de combustível para a inflação e poderá levar o BC a elevar os juros básicos. A elevação geral dos juros encarece investimentos e pode reduzir o ritmo de crescimento.

Para o economista-chefe da XP Investimentos, Caio Megale, as incertezas fiscais preocupam mais. Isso porque Megale - que integrava a equipe do Ministério da Economia, ocupando três cargos diferentes, até julho de 2020 - aposta que a vacinação contra avançará e que, mesmo sem o auxílio emergencial, recursos poupados pelas famílias manterão o consumo.

“O que pode piorar o cenário de PIB em 2021 não é a pandemia, não é a redução dos estímulos, mas uma piora relevante da percepção de risco”, afirmou o economista da XP.

Para Megale, a percepção de risco piorou recentemente, com a crise na Petrobrás - o presidente Jair Bolsonaro criticou a política de preços dos combustíveis e indicou um novo presidente para a estatal - e as sinalizações de que o auxílio emergencial poderá ser reeditado com poucas contrapartidas de cortes de gastos.

“Nesse ambiente, o câmbio talvez não seja tão favorável quanto a nossa projeção de R$ 4,90 (para o fim do ano). Se o câmbio for R$ 5,50, a inflação vai ficar mais pressionada, o Banco Central vai ter que antecipar a alta de juros, o que pode comprometer o crescimento no fim deste ano e do ano que vem”, completou o economista da XP.

O professor Lacerda, da PUC-SP, vê a reedição do auxílio como inevitável. Diante da elevação dos déficits nas contas públicas em todos os países, por causa do cenário inédito da pandemia, o problema maior é o governo federal não ter um plano de longo prazo de equilíbrio. No curto prazo, sem a transferência de renda emergencial, o desempenho da economia será pior em 2021, derrubando a arrecadação de tributos e, portanto, ampliando o rombo fiscal da mesma forma, segundo o economista.

“Não vamos conseguir o equilíbrio fiscal negando os recursos (para o auxílio), porque a arrecadação vai cair ainda mais, vai haver atrasos no pagamento de tributos. Não há muita alternativa se não fazer (uma nova rodada do auxílio)”, afirmou Lacerda. COLABORARAM THAÍS BARCELLOS e GREGORY PRUDENCIANO

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O problema não é o PIB. É a falta de rumo; leia análise

Queda de 4,1% na atividade econômica em 2020 vem na sequência de três anos de avanços em torno de 1% e fecha uma década de crescimento pífio

Alexandre Calais*, O Estado de S.Paulo

03 de março de 2021 | 10h10

Para uma economia que, em algum momento no início da pandemia, chegou-se a prever uma queda em torno de 10%, recuar 4,1% é quase um alívio. Mas não nos enganemos: é um número muito ruim. Seria diferente, claro, se a economia brasileira viesse num ritmo pujante e tivesse apenas sido abatida pela pandemia. Nesse caso, seria um tropeço numa trajetória virtuosa. Mas estamos muito longe disso.

Nos últimos dez anos, o crescimento brasileiro foi pífio, incluindo as quedas de 3,55% em 2015 e de 3,31% em 2016. Depois disso, foram três anos de crescimento em torno de 1%, culminando agora com mais uma queda significativa. Uma década - mais uma - perdida.

Os números são fortes, mas não são a coisa mais importante. No cenário atual, o problema é o que vem pela frente. O passado é bem ruim. Mas, olhando para o futuro, o que nos espera? A falta de rumo assusta muito mais do que saber que a economia não sai do lugar (na verdade, anda para trás) há uma década.

A nova matriz econômica imaginada no governo Dilma Rousseff, em 2011, trocou o tripé macroeconômico do governo Fernando Henrique Cardoso (câmbio flutuante, meta fiscal e meta de inflação) por um aumento dos gastos públicos, juros baixos (na marra), crédito barato via bancos estatais e desvalorização forçada do real, entre outros pontos. Deu no que deu, já conhecemos essa história.

Essa política foi revertida com a queda de Dilma e a chegada de Michel Temer. E a aposta dos empresários e do mercado financeiro era que essa mudança seria aprofundada com o governo Jair Bolsonaro, que angariou a simpatia desse segmento ao levar para sua equipe o economista Paulo Guedes, o seu 'posto Ipiranga', com sua pregação liberal.

Dois anos depois, pouco sobrou do discurso liberal. Gente que foi para o governo acreditando nesse caminho já pulou fora do barco (Salim Mattar, Paulo Uebel, entre outros). Alguns foram saídos pelas antipatias irracionais de Bolsonaro (Joaquim Levy, do BNDES; e Roberto Castello Branco, da Petrobrás). 

O episódio Petrobrás, aliás, jogou por terra qualquer esperança que alguém ainda tivesse da orientação liberal do governo Bolsonaro na economia. Pressionado pela alta de preços, a saída do presidente foi pelo caminho do populismo, puro e simples. Troca-se o comandante da empresa por um que siga as ordens do capitão. Não por acaso, cinco conselheiros da Petrobrás, entre eles ex-presidentes de grandes empresas, pediram para deixar o conselho.

Sem agenda liberal, sem privatizações, sem reformas, não há farol à vista para a economia brasileira. O que Bolsonaro mira é a sua reeleição, e vai trabalhar apenas para isso. Serão medidas de curto prazo, quando o País precisa mesmo é de um plano de longo prazo e de alguém que o abrace, de verdade. Estamos à deriva.

*EDITOR DE ECONOMIA

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Brasil deixa ranking das 10 maiores economias, após queda de 4,1% do PIB

Os dados confirmam projeções feitas em outubro pelo FMI, em decorrência da crise causada pela pandemia de covid-19

Mariana Durão, O Estado de S.Paulo

03 de março de 2021 | 12h06

RIO - Com a queda de 4,1% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2020, o Brasil deixou o ranking das 10 maiores economias do mundo. As contas do economista-chefe da agência de classificação de risco Austin Rating, Alex Agostini, mostram que o País passou para o 12.º lugar, com participação de 1,6% no PIB global.  

Em 2011, o País era a sétima maior economia do mundo, posição que ocupou até 2014. Quando veio a recessão de 2015 e 2016, o Brasil perdeu duas posições nesse ranking, passando para o oitavo lugar em 2017 e para o nono, nos dois últimos anos.

Os dados confirmam as projeções feitas em outubro pelo FMI para 2020: com a crise da covid-19 e seus impactos na economia mundial, o PIB do Brasil passaria de US$ 1,8 trilhão para US$ 1,4 trilhão até o fim do ano passado - o que levaria a economia brasileira a ser ultrapassada por Rússia, Coreia do Sul e Canadá, o que de fato ocorreu. Para 2021, a estimativa é que o País desça ao 14.º lugar. 

No ranking de crescimento econômico de 50 países em 2020, o Brasil  está em 21.º lugar. Ainda assim, o tombo da economia brasileira foi menor que o da média desses países (-4,8%), mas acima da verificada no mundo (-3,5%). Apenas três países terminaram o ano marcado pela pandemia da covid-19 no azul: Taiwan, China e Turquia

Com o resultado do PIB divulgado nesta quarta-feira, 3, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil ficou logo atrás de Bulgária, Romênia e Holanda (todos com -3,8%), Letônia (-3,6%) e Estados Unidos, que aparece na 16.ª posição, com uma queda de 3,5% no PIB anual. Entre os países da América do Sul listados, a Colômbia está no 38.º lugar, com um recuo de 6,8% no PIB, e o Peru ocupa a lanterna do ranking, com uma perda de 11,1%. 

Os três primeiros lugares do levantamento são ocupados por Taiwan (+3,1%), China (+2,0%) e Turquia (+1,6%), únicas economias que cresceram no ano passado. No quarto trimestre, entretanto, essas economias já demonstraram um crescimento mais contido. A China, por exemplo, cresceu 2,6% ante o terceiro trimestre, passando ao 15.º lugar na base trimestral. O gigante asiático foi o único país do mundo onde a crise começou antes - epicentro da pandemia, registrou o tombo no PIB no primeiro trimestre, enquanto o segundo já foi de recuperação. 

A economia brasileira foi impulsionada pelo auxílio emergencial e cresceu 3,2% nos três últimos meses do ano passado, ficando na 11.ª posição do ranking trimestral. Atingida por uma primeira e depois uma segunda onda fortes da covid-19, a zona do euro teve o pior desempenho em 2020 por região, com uma queda média das economias de 7,2%. 

Para 2021 a Austin projeta um crescimento de 3,3% do PIB brasileiro, mas não há motivos para comemorar. “Em 2021 o País vai crescer por efeito estatístico, mas e depois? Provavelmente vamos voltar para a gangorra econômica, porque falta um ambiente político coeso. Em termos estruturais, isto é, fiscal, reformas, atração de investimento, vamos avançar pouco. Tudo isso compromete o crescimento de longo prazo”, diz Agostini, responsável pelo levantamento desde 2008. A estimativa para o PIB global neste ano é de avanço de 5,5%, enquanto no Brics a média é de 7,6% - ou seja, o Brasil puxa o resultado para baixo.

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Análise: PIB surpreendeu, mas não esconde os desafios da economia em 2021

Projeções do Ibre/FGV apontam para retração de 0,5% do PIB no primeiro e segundo trimestres e crescimento de apenas 3,2% no ano

Silvia Matos e Luana Miranda*, O Estado de S.Paulo

03 de março de 2021 | 19h44

O aquecimento da atividade econômica ao longo do segundo semestre de 2020 é de surpreender até mesmo os analistas mais otimistas. O PIB brasileiro cresceu, em média, 5,4% por trimestre na segunda metade do ano, encerrando 2020 com queda de 4,1%. Apesar do tombo expressivo, as expectativas no início da pandemia eram muito piores, concentravam-se entre 6% e 10% de queda do PIB. Nossa pior estimativa era de queda de 6,4%.

O governo não economizou nas políticas de estímulo: cerca de R$ 295 bilhões foram injetados na economia. As medidas do governo foram mais do que suficientes para compensar a perda de renda do trabalho gerada pela pandemia, fazendo com que a massa ampliada de rendimentos da economia crescesse mais de 3% em termos reais em 2020.

Essa abundância de recursos transferidos às famílias estimulou sobremaneira o consumo de bens, permitindo que setores como indústria e comércio rapidamente retomassem aos níveis pré-pandemia. Por outro lado, o setor de serviços permanece mais de 2% aquém do patamar do final de 2019, diretamente afetado pelas medidas de distanciamento social.

Os bons resultados do PIB do ano passado, contudo, não se sobrepõem às dificuldades que se apresentam neste ano. O agravamento da pandemia, o lento processo de imunização da população, nossas restrições fiscais que limitam a implementação de políticas de transferência de renda na magnitude observada no ano passado, em conjunto com o processo de normalização da política monetária, são alguns dos entraves ao crescimento econômico em 2021.

Nossas projeções atualizadas apontam para retração de 0,5% do PIB no primeiro e segundo trimestres deste ano. Mesmo considerando uma recuperação ao longo do segundo semestre, o PIB deve encerrar 2021 com crescimento de apenas 3,2%, abaixo do carregamento estatístico, estimado em 3,6%. Além dos desafios de curto prazo, o risco de normalização da política monetária norte-americana em um horizonte mais próximo do que o esperado impõe viés negativo sobre a recuperação dos países emergentes, principalmente nos países com fundamentos econômicos mais frágeis. Este é o caso do Brasil. Não temos tempo a perder.

*Economistas e pesquisadoras do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV)

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