Ed Ferreira/ Estadão
No mercado, uma eventual troca na presidência do BB é tida como "muito ruim" e é agravada pela possibilidade de ocorrer na esteira da mudança na Petrobrás Ed Ferreira/ Estadão

Com temor de interferência, Banco do Brasil perde R$ 10,5 bi em valor de mercado

Investidores temem que mudança anunciada no comando da Petrobrás ocorra também no BB; queda nas ações da petroleira levou junto as do banco, que recuaram mais de 11%

Aline Bronzati, O Estado de S.Paulo

22 de fevereiro de 2021 | 17h29

O Banco do Brasil acumula perda de R$ 10,5 bilhões em valor de mercado no pregão desta segunda-feira, 22, diante do temor entre os investidores de uma eventual interferência do presidente Jair Bolsonaro, na esteira do episódio envolvendo a Petrobrás. Com queda de mais de 11%, as ações do BB têm desconto frente aos papéis dos rivais privados de 42%, encostando no maior patamar da última década, durante o governo da ex-presidente Dilma Rousseff.

Na ocasião, a diferença chegou aos 46%, mostram cálculos da casa de análise Eleven Financial, a pedido do Estadão/Broadcast. Na época, o BB e a Caixa Econômica Federal foram utilizados pelo governo Dilma para oferecer crédito a juros baixos. Agora, o risco de ingerência política volta aos holofotes.

"A sinalização quanto a novas trocas do comando de empresas estatais preocupa o investidor, afetando as ações do BB", diz o diretor de renda variável da Eleven Financial, Carlos Daltozo, ao Broadcast.

Para chegar ao cálculo do desconto das ações do BB - quanto o papel do BB vale menos do que os bancos privados -, ele considerou o histórico do preço sobre lucro do banco dividido pela média do múltiplo dos pares privados. "Novamente, o risco de ingerência política assombra o BB, que pode ter o presidente trocado cinco meses após a chegada de (André) Brandão. Essa possibilidade fez o desconto chegar próximo ao maior patamar da última década, verificada em 2015/2016", observa Daltozo.

No fim de semana, o presidente Jair Bolsonaro afirmou que tem de "governar" e trocar "novas peças" que não "estejam dando certo", sinalizando futuros movimentos, após indicar o general da reserva Joaquim Silva e Luna no lugar de Roberto Castello Branco para comandar a Petrobrás.

Sua fala serviu de combustível para a derrocada das ações de estatais no pregão desta segunda-feira e foi reforçada por bancos internacionais demonstrando preocupação e rebaixando recomendações para papéis brasileiros.

O Credit Suisse rebaixou a recomendação para os papéis do BB, de 'outperform' (desempenho acima da média do mercado) para neutro , e o preço-alvo passou de R$ 46 para R$ 38. O Itaú BBA reiterou 'cautela' em relação ao Banco do Brasil, cujas ações foram rebaixadas recentemente. Tanto para o banco suíço quanto para o brasileiro, a preocupação gira em torno do aumento da incerteza política no BB.

"Nada é tão ruim que não possa piorar. Ele (Bolsonaro) prometeu mais para essa semana. Vamos ver o que vem por aí. No caso do BB, que já foi usado para distribuir crédito barato no passado, pode realmente ser ruim. Me lembra 2014, quando Petrobrás e BB passavam por uma situação semelhante", diz um analista estrangeiro, na condição de anonimato.

O presidente do BB, André Brandão, trabalhou normalmente nesta segunda-feira, conforme fontes relataram ao Estadão/Broadcast. Nos corredores do banco, a leitura é a de que Bolsonaro se referiu a "outras estatais", com o banco público fora da ameaça dele. "Mas está tudo no 'achômetro'", diz uma delas.

Isso porque a fala de Bolsonaro também deu combustível ao Centrão, que tem interesse em cargos no alto escalão estatal, principalmente, a presidência do Banco do Brasil. Nos bastidores, ainda que o presidente da República não tenha apontado especificamente para a cadeira, cresceu a percepção de risco de uma mudança no comando do banco público. Uma fonte acredita que os rumores são alimentados também por gente do Palácio do Planalto tentando desestabilizar o executivo.

No mercado, uma eventual troca na presidência do BB é tida como "muito ruim" e é agravada pela possibilidade de ocorrer na esteira da mudança na Petrobrás, refletindo-se na queda das ações do BB.

"O presidente Bolsonaro não simpatiza (com Brandão). Se vai mudar, não sei", afirma uma fonte próxima à equipe econômica. Outro representante da pasta diz, na condição de anonimato, que a troca do BB não está prevista, pelo menos até aqui.

Recuo

Bolsonaro chegou a pedir a cabeça de Brandão em meados de janeiro após o anúncio de um plano de corte de custos, que previa o fechamento de agências e o enxugamento do quadro de funcionários. Na ocasião, o ministro da Economia, Paulo Guedes, convenceu o chefe a manter Brandão no posto.

Ao comentar sobre o episódio pela primeira vez, publicamente, o presidente do BB disse que a crise política gerada pelo plano de fechar agências resultou de um "problema de comunicação". Brandão afirmou, na ocasião, que não havia conversado com o presidente Jair Bolsonaro desde o episódio, mas acreditava que ele tinha entendido a agenda do banco. 

Para o Credit Suisse, a agenda do BB será colocada à prova após o episódio envolvendo a Petrobrás. "Embora devamos reconhecer que as iniciativas de reestruturação do Banco do Brasil continuam avançando e a atual administração continua comprometida com a lucratividade, os desenvolvimentos recentes na Petrobrás são certamente um obstáculo significativo", dizem os analistas Marcelo Telles, Otavio Tanganelli, Alonso Garcia e Juliana Araujo, em relatório ao mercado.

Procurado, o BB não comentou.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Por que o mercado reagiu tão mal à interferência de Bolsonaro na Petrobrás?

Após indicação do general da reserva Joaquim Silva e Luna para o comando da petroleira, ações desabaram, levando junto as do Banco do Brasil e da Eletrobrás

Redação, O Estado de S.Paulo

22 de fevereiro de 2021 | 17h02

O anúncio do presidente Jair Bolsonaro, na sexta-feira, 19, de que iria tirar da presidência da Petrobrás o executivo Roberto Castello Branco e colocar em seu lugar o general da reserva Joaquim Silva e Luna provocou um estrago generalizado no mercado nesta segunda-feira, 22. As ações da Petrobrás caem cerca de 20%, e levam na esteira as do Banco do Brasil (cerca de 11% de queda) e da Eletrobrás (pouco menos de 3%). Por que isso acontece? É porque o mercado é "irritadinho", como disse Bolsonaro no início do mês?

O mercado - nesse caso, os investidores, acionistas da Petrobrás - é sensível, e reage rapidamente toda vez que vê a possibilidade de ganhar ou perder dinheiro. Nesse caso, viu uma probabilidade grande de perder. Roberto Castello Branco vinha fazendo uma gestão ao gosto desses investidores. A empresa vinha sendo enxugada, ativos não prioritários estavam sendo vendidos. O lucro está em alta e todos viam a possibilidade de receber mais dividendos. Uma troca nesse momento, por essa lógica, não faria sentido.

Mas Bolsonaro se disse irritado com a política de preços da empresa, que acompanha a variação do petróleo no mercado internacional - com uma enorme volatilidade. O preço às vezes cai. Mas, nos últimos meses, só vem subindo, e os caminhoneiros, base de apoio do governo, reclamaram e ameaçaram mais uma greve. A troca por um general de confiança do presidente foi a solução mais fácil de ser tomada.

O que o mercado viu nisso? A volta de uma política intervencionista, muito usada no período do governo Dilma Rousseff, que se acreditava enterrada. Na época de Dilma, os preços dos combustíveis foram segurados para evitar que a inflação disparasse. Isso provocou um enorme rombo nos cofres da empresa, que ainda paga por isso.

E o que o Banco do Brasil tem a ver com isso? Em janeiro, Bolsonaro já quis demitir o atual presidente, André Brandão, que anunciou um plano de corte de pessoal e de fechamento de agências - algo feito usualmente pelos bancos privados. A equipe econômica conseguiu segurar a demissão. Mas, no sábado, o presidente disse que haveria mais cortes. E as especulações em cima do Banco do Brasil voltaram com força. 

Quem é o mercado?

No caso da Bolsa de Valores, o "mercado", que é sempre visto como uma entidade etérea, tem CPF e CNPJ. São os investidores, pessoas físicas ou jurídicas. Eles investem nas empresas esperando que elas cresçam, deem lucro, distribuam seus dividendos. E não é mais uma coisa só para ricos ou grandes investidores. A Bolsa tem se tornado uma saída cada vez mais usada pelos pequenos investidores, que buscam uma alternativa para turbinar sua poupança, já que a renda fixa deixou de ser atraente com a queda da taxa de juros.

Petrobrás e Banco do Brasil, principalmente, são papéis bastante procurados, até por serem marcas muito conhecidas dos brasileiros. Então, uma queda tão profunda nas ações acaba prejudicando os grandes investidores, mas também os pequenos, aqueles que têm fundos de ações de seus bancos ou corretoras.

Ao fazer mudanças bruscas, da forma como Bolsonaro fez na Petrobrás, sem que ninguém tenha conseguido entender seu objetivo, traz perdas para todos.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Investidor estrangeiro teme que Bolsonaro repita nas estatais o intervencionismo do governo Dilma

Grandes bancos, como JPMorgan, Credit Suisse e Bank of America, cortaram suas recomendações para a Petrobrás e elevaram o tom pessimista em relação ao Brasil

Altamiro Silva Junior, O Estado de S.Paulo

22 de fevereiro de 2021 | 15h53

A decisão de Jair Bolsonaro de trocar o presidente da Petrobrás provocou surpresa e trouxe, entre os investidores internacionais, o temor da volta de uma política intervencionista do Planalto nas estatais, nos moldes da gestão de Dilma Rousseff. Aumentou também a preocupação com uma estratégia mais populista na área fiscal, conforme relatos de analistas e investidores estrangeiros ouvidos nesta segunda-feira, 22, pelo Estadão/Broadcast. O risco imediato é de aumentar ainda mais a seletividade dos fundos com o Brasil, que tem se beneficiado de uma onda geral de fluxos em busca de retorno nos emergentes. 

"Vende, vende, vende", foi uma das expressões ouvidas pela reportagem ao contatar investidores em Wall Street sobre a Petrobrás. Outro profissional, também em Nova York, disse: "Isso é um grande choque de credibilidade para o Brasil. Esta foi minha última tentativa de investir na empresa e no Brasil. São movimentos inaceitáveis". Um terceiro investidor, em Chicago, ressaltando que zerou suas aplicações na Petrobrás, afirmou: "Vimos isso em 2015. Concordo com a visão de que o governo atual quer salvar sua popularidade, são medidas desesperadas, vejo nova piora fiscal." 

Grandes bancos, como JPMorgan, Credit Suisse e Bank of America, cortaram suas recomendações para a Petrobrás e elevaram o tom pessimista em relação ao Brasil. Os analistas do JP afirmaram estar "surpresos" com a mudança anunciada por Bolsonaro e recomendam redução de exposição na empresa, em meio à elevada incerteza sobre o cenário no curto prazo.

"É um sério problema para a lucratividade do segmento de logística da Petrobrás e, ainda mais importante, para sua credibilidade no mercado internacional", comenta o analista de petróleo do americano Raymond James, Pavel Molchanov. A recomendação dele é que investidores interessados na petroleira sempre levem em conta o "intenso nível de risco político".

Para Molchanov, que acompanha a empresa brasileira há anos, o nível de interferência de Bolsonaro na Petrobrás é fundamentalmente o mesmo de governos anteriores, como o de Dilma, de tentar interferir na política de preços para ganhar apoio político. A diferença agora, diz o analista, é que Bolsonaro foi eleito afirmando que não haveria interferência, mas resolveu quebrar a promessa.

Juros

Para Priscila Robledo, economista de América Latina em Nova York da Continuum Economics, consultoria de Nouriel Roubini, a decisão de Bolsonaro é negativa, pois fica clara sua intenção de interferência. É crescente a chance de que a batalha do presidente contra a paridade internacional nos combustíveis vai acabar prejudicando a já ruim situação fiscal do País, colocando pressão adicional nos juros, câmbio e, mais importante, afetando a confiança dos investidores, prejudicando ainda mais a atividade econômica.

Na avaliação de Klaus Spielkamp, responsável em Miami pela área de vendas e trading da Bulltick, a questão da troca de comando da Petrobrás e dos preços de combustíveis vem se somar a um momento econômico e político "bastante fragilizado" no Brasil, pela maior necessidade de gastos do governo para conter a crise gerada pela pandemia. "Se espera e se faz urgente que o Brasil consiga fazer as reformas, e, para isso, o ambiente econômico e político tem de estar em ordem."

"Intervencionismo nunca é bem visto na comunidade financeira internacional", afirma Spielkamp. Mas ele pondera que uma greve de caminhoneiros nos moldes da de 2018 seria um ponto final para as chances de reformas. O analista comenta que, em outros momentos, já viu mudanças de presidente da Petrobrás que foram anunciadas como um desastre para a empresa e ela sempre sobreviveu, "inclusive durante as barbaridades que vimos durante o governo Dilma".

O economista-chefe de emergentes da consultoria inglesa Capital Economics, William Jackson, comentou  nesta segunda-feira que a decisão de demitir o atual presidente da Petrobrás aponta para uma maior intervenção do governo na economia e "pode também ser um prelúdio de uma política fiscal mais flexível". Por isso, o mercado financeiro doméstico deve permanecer sob forte pressão e cresce a chance de alta de juros no mês que vem.

Para a também inglesa TS Lombard, o episódio "populista" da Petrobrás aponta para o crescente risco de Bolsonaro prorrogar o auxílio emergencial sem cortes de despesa. Neste ambiente, a TS espera alta de juros já em março, de 0,50 ponto porcentual.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.