Kim Kyung-Hoon/Reuters
Kim Kyung-Hoon/Reuters

Bolsa fecha em queda de 3,6%, segundo maior recuo desde a greve de caminhoneiros

Articulação política falha e temor de que Previdência corra riscos abalaram o mercado

Renée Pereira, Paula Dias e Fabrício de Castro, O Estado de S.Paulo

27 de março de 2019 | 12h12
Atualizado 27 de março de 2019 | 22h27

A falta de articulação política com o Congresso Nacional e a preocupação de que a reforma da Previdência corre risco trouxeram nervosismo para o mercado financeiro nesta quarta-feira, 27. O Ibovespa, principal índice da B3, caiu 3,57%, para 91 mil pontos. É a segunda maior queda do índice desde a greve dos caminhoneiros – em 28 maio de 2018, a Bolsa caiu 4,49%.

O dólar atingiu a maior cotação desde 1º de outubro de 2018, antes das eleições presidenciais. A moeda americana fechou o dia com alta de 2,24%, a R$ 3,954.

O mau humor do mercado financeiro começou logo cedo com a derrota sofrida pelo governo no dia anterior. Na noite de terça-feira, a Câmara dos Deputados aprovou em dois turnos a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) que obriga o governo a executar todos os investimentos previstos no orçamento – medida que vai na contramão das propostas defendidas pelo ministro da Economia Paulo Guedes.

A votação foi entendida pelos investidores como um recado dos deputados ao presidente Jair Bolsonaro, que tem trocado farpas com o presidente da casa Rodrigo Maia (DEM/RJ). “A aprovação da PEC foi uma demonstração de força da Câmara e reforçou a fraqueza deste governo”, afirmou o economista Alexandre Schwartsman, ex-diretor do Banco Central (BC). Para ele, o governo Bolsonaro estabeleceu como prioridade a reforma da Previdência, mas que até agora não avançou. “A reação do mercado tem sido até leve”, diz o economista.

A ida de Paulo Guedes à Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado para falar sobre o endividamento dos Estados, repasses da Lei Kandir e Previdência não mudou o rumo dos negócios no pregão de ontem e ainda trouxe um ligeiro desconforto entre os investidores, segundo analistas de mercado.

Durante a audiência, quando questionado se deixaria o governo caso a reforma da Previdência não fosse aprovada, o ministro disse não ter apego ao cargo, mas sinalizou que não sairá da pasta na primeira derrota. “Se ele sai, o governo perde o discurso liberal (que agrada aos investidores)”, afirma o analista da Rico Investimentos, Thiago Salomão.

O próprio ministro reconheceu que o principal opositor do governo no Congresso tem sido o governo. “Está falhando algo em nós”, disse ele, durante a audiência no Senado. Para Schwartsman, a falta de articulação política não é um problema de não ter alguém para fazer o meio de campo, mas de postura do governo. “Ele não quer fazer acordo com políticos, mas vai fazer com quem então?”

Para o economista José Márcio Camargo, da Genial Investimentos, a explicação para o nervosismo do mercado está no “risco de um conflito institucional grave entre o presidente da República e o presidente da Câmara”. “Passamos por algo parecido há três, quatro anos. Por isso, nunca sabemos onde vai acabar. Existe uma enorme incerteza em relação a isso, que foi reforçado pela aprovação da PEC.”

Em entrevista à TV Bandeirantes, Bolsonaro não ajudou a diminuir a tensão política. Apesar de dizer que se encontrará com o parlamentar na volta de sua viagem a Israel, ele disse que Maia está “emocionalmente abalado” por problemas pessoais. A declaração gerou resposta imediata de Maia: “Abalados estão os brasileiros, que estão esperando desde 1º de janeiro que o governo comece a funcionar. São 12 milhões de desempregados, 15 milhões de brasileiros vivendo abaixo da linha da pobreza e o presidente brincando de presidir o Brasil.”

Nesse ambiente conturbado, as incertezas recaíram sobre a reforma da Previdência e fizeram os investidores mudarem suas posições para operações mais seguras, vendendo títulos do governo, afirmou Camargo. “Sem a reforma, o País não vai a lugar nenhum.” Ele destaca, porém, que no meio desse cenário turbulento, uma notícia positiva passou despercebida : “Da mesma forma que a PEC foi aprovada, 291 deputados, de 13 partidos, divulgaram um manifesto a favor da reforma.

Câmbio

Após o dólar à vista ter subido mais de 2% ante o real na sessão de ontem, o BC convocou para hoje um leilão de linha (venda de dólares com compromisso de recompra) de US$ 1 bilhão. Os recursos representam “dinheiro novo” no mercado, já que não estão vinculados à rolagem de nenhum vencimento. A operação é a primeira do tipo desde que o economista Roberto Campos Neto assumiu o BC. /RENÉE PEREIRA, PAULA DIAS e FABRÍCIO DE CASTRO

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