Fábio Motta/Estadão
Fábio Motta/Estadão

BNDES se afasta de ‘campeãs nacionais’ ao vender R$ 2 bilhões em ações da Marfrig

Banco vendeu a fatia de 34% que detinha no frigorífico, aumentando seu caixa em R$ 2 bilhões; carteira de ações hoje de R$ 120 bilhões deve terminar 2020 abaixo de R$ 80 bilhões

Fernanda Guimarães e Vinícius Neder, O Estado de S.Paulo

18 de dezembro de 2019 | 13h08
Atualizado 18 de dezembro de 2019 | 23h31

Com a confirmação da venda de toda sua fatia no frigorífico Marfrig, por R$ 2 bilhões, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) deu mais um passo na estratégia de acelerar o enxugamento da sua carteira de ações, avaliada em R$ 120 bilhões, deixando para trás a política dos “campeões nacionais”, como ficou conhecido o apoio da instituição à internacionalização de grandes companhias brasileiras.

O presidente do BNDES, Gustavo Montezano, renovou a aposta na estratégia ontem. Ao apresentar o planejamento estratégico do banco até 2022, o executivo criticou o crescimento bilionário da carteira nos governos do PT e apresentou dados para mostrar que a rentabilidade do investimento nas participações acionárias foi ruim, ficando em 50% do CDI (referência para investimentos conservadores, em renda fixa). 

Logo que assumiu, em julho, Montezano colocou a aceleração do enxugamento da carteira, que já vinha desde 2018, como meta. Após mudar as regras internas da gestão da carteira, Montezano sinalizou a intenção de reduzir o montante investido em 80% até 2022. Para 2020, estão programadas vendas bilionárias de papéis da Petrobrás, do frigorífico JBS, da companhia elétrica Copel e da siderúrgica Tupy.

A fatia do BNDES na petroleira estava avaliada em R$ 52 bilhões no terceiro trimestre. Uma oferta de parte dessas ações poderá movimentar R$ 24 bilhões, embora Montezano tenha ressaltado ontem que o anúncio da intenção do BNDES em fazer a operação não trazia sinalização sobre o montante total que será vendido. 

A intenção foi comunicada na última sexta-feira, após a diretoria do banco receber autorização de seu conselho de administração para vender “até a totalidade” das ações ordinárias (com direito a voto). A operação deverá ir a mercado até março, revelou o Estadão/Broadcast.

Frigoríficos

A venda da fatia de 33,7% que o BNDES tinha no capital da Marfrig foi por meio de uma oferta pública fechada na noite de terça-feira. Para janeiro já está engatilhada a venda de metade da participação de 21,3% na JBS, avaliada em R$ 19 bilhões, operação que também será feita via oferta de ações e que renderá mais de R$ 8 bilhões ao BNDES. O restante da fatia no frigorífico deverá ser vendido ainda em 2020.

Para apoiar a formação dessas multinacionais, como Marfrig e JBS, o BNDES aportou bilhões nessas companhias, que assim fizeram aquisições no exterior. Comprando empresas nos Estados Unidos e na Austrália, o frigorífico da família Batista, que recebeu cerca de R$ 8 bilhões do banco, se tornou a maior processadora de carnes do mundo. A Fibria, incorporada pela Suzano em 2018, se tornou a maior produtora de celulose do mundo, também com apoio do banco.

Para o professor do Insper Sérgio Lazzarini, que estudou as operações do BNDES, a política dos “campeões nacionais” foi sepultada por falta de espaço no Orçamento do Tesouro Nacional e por razões políticas, já que, em sua visão, as operações “pegaram mal” na opinião pública. 

Lazzarini vê o BNDES menor, com uma pequena carteira de ações. “Eu até aceleraria mais as vendas das participações acionárias e a transformação do BNDES para ser menos um banco emprestador”, disse o professor do Insper, destacando o papel do BNDES na estruturação de projetos de concessões em infraestrutura.

Já o professor do Instituto de Economia da UFRJ Ernani Teixeira Torres Filho, que trabalhou no BNDES, questiona o destino dos recursos que o banco levantará com as vendas. Para o economista, o movimento seria positivo se o dinheiro voltasse para a economia. No entanto, a tendência é o banco ficar “entupido de liquidez” e destinar mais recursos ao Tesouro. “Toda a operação é fiscal, não há dúvida”, disse Teixeira. Ele diz que isso poderá restringir crescimento caso os investimentos se expandam mais rapidamente nos próximos anos.

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