Mario Anzuoni/ Reuters - 22/10/2008
Warren Buffet, CEO da gestora Berkshire Hathaway Mario Anzuoni/ Reuters - 22/10/2008

Com Warren Buffett como sócio, Nubank ganha novo 'status' entre investidores

Fundo do megainvestidor americano fez o maior aporte individual já realizado na fintech, que também atraiu recursos de Luis Stuhlberger, da Verde Asset

André Jankavski, O Estado de S.Paulo

08 de junho de 2021 | 18h43

O aporte de US$ 1,15 bilhão recebido pelo Nubank, que foi liderado pela gestora Berkshire Hathaway, do megainvestidor Warren Buffett, deu força adicional para o Nubank entre investidores. Apesar da empresa não ter capital aberto, o negócio, que elevou a avaliação da fintech para US$ 30 bilhões, mexeu com o mercado.

Afinal, com a atual avaliação, a fintech se consolidou como a quinta instituição financeira mais valiosa do país. A companhia comandada pelo colombiano David Vélez deixou bem para trás a XP (US$ 23 bilhões) e o Banco do Brasil (US$ 20,6 bilhões) e já está próxima do BTG Pactual (US$ 36,4 bilhões) e do Santander (US$ 33,6 bilhões). No topo, mais distantes, estão o Itaú Unibanco (US$ 60,2 bilhões) e o Bradesco (US$ 50,9 bilhões).

Em janeiro, quando foi anunciada a primeira parte da atual rodada, a companhia havia sido avaliada em US$ 25 bilhões. Ou seja, houve uma alta de 25% no valor de mercado em menos de cinco meses, valorização que nenhum dos grandes bancos brasileiros conseguiu no mesmo período na Bolsa de Valores. A companhia anunciou que parte do dinheiro vai para investimentos para o crescimento orgânico em grandes mercados da América Latina, como no México.

Os analistas estão de olho em como essa aposta de Buffett e outros investidores importantes, como o Verde Asset Management, liderado por Luis Stuhlberger, pode mudar o setor bancário. A Berkshire Hathaway fez o maior aporte individual no Nubank, de US$ 500 milhões.

“O ceticismo que muitos gestores têm com os bancos digitais, especialmente o Nubank, foi colocado em xeque. Afinal, a Berkshire Hathaway não é qualquer tipo de investidor”, diz Henrique Esteter, analista da corretora Guide. “Isso pode mostrar que o modelo de negócio pode ser sustentável.”

No entanto, a falta de lucratividade ainda pesa desfavoravelmente sobre a instituição, na visão de alguns analistas. Em 2020, o Nubank registrou prejuízo líquido de R$ 230 milhões. Foi uma perda 26% menor em relação ao ano anterior, mas ainda se trata de uma cifra alta. 

Porém, o estrategista-chefe da casa de análises Eleven Financial Research, Adeodato Volpi Netto, alerta que não é possível enxergar o Nubank como uma “fotografia”, mas como um “filme”. Segundo ele, a entrada de Buffett, conhecido no mercado como um investidor de longo prazo, ratifica um cenário positivo para a fintech.

“O DNA da Berkshire Hathaway é de investir em companhias que terão valor no longo prazo, e o Nubank tem todas as ferramentas para criar um modelo de monetização forte a partir da sua base de clientes e com um modelo de geração crescente”, diz Volpi Netto.

Concorrência acirrada 

O Nubank acabou de atingir 40 milhões de clientes em suas plataformas. O que também ajudou na expansão de clientes foi a aprovação, em maio, da aquisição da corretora Easynvest, que possui 1,6 milhão de clientes e US$ 5 bilhões em ativos sob custódia.

Para se ter uma comparação, o Banco Inter alcançou 10,2 milhões de usuários no primeiro trimestre deste ano e o Next, do Bradesco, tem cerca de 4 milhões e prevê chegar a 7 milhões de clientes até o fim do ano. Mas outros grandes bancos, e até empresas de serviços, como o Mercado Livre, estão de olho nesse filão.

Na visão de Álvaro Bandeira, sócio e economista-chefe do Modalmais, a capitalização do Nubank e o atual tamanho traz grande vantagem momentânea, porém o jogo ainda está bem aberto. “Não dá para avaliar se o valor de US$ 30 bilhões é justo, pois não temos acesso a todos os números, mas o Nubank está em um momento importante. Mesmo assim, não podemos falar que ele disparou. Os grandes bancos estão fazendo esse movimento e também têm muitos recursos para investir e para permanecerem grandes”, diz ele. 

Quem está mais perto do Nubank nessa corrida, pelo menos em número de clientes, é o Inter, que viu as suas units caírem 0,5% no pregão desta terça-feira. A queda também vem um dia após o banco confirmar que vai realizar uma oferta subsequente de ações (follow-on) para se capitalizar. A Stone, empresa de meios de pagamento, já anunciou que pretende investir R$ 2,5 bilhões no Inter por meio dessa operação.

As fintechs ainda estão em um momento em que o investimento é intensivo. Em troca de crescimento acelerado, essas empresas queimam caixa e, consequentemente, o seu lucro. Por isso, esses aportes podem fazer grande diferença perante a concorrência, ainda mais na busca pelos desbancarizados, público que os bancos estão disputando ferozmente.

“Existe espaço para todos no setor, pois o Brasil ainda tem um déficit muito grande em pessoas bancarizadas. Mas vai ser difícil repetir a trajetória do Nubank, pois a empresa se tornou um ponto fora da curva”, diz Renato Mendes, especialista em inovação e CEO da consultoria F5 Business Growth.

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Nubank fecha aporte de US$ 1,15 bilhão, o maior da história na América Latina

Empresa recebeu aporte de US$ 500 milhões da Berkshire Hathaway, do megainvestidor Warren Buffett

Giovanna Wolf e Matheus Piovesana, O Estado de S. Paulo

08 de junho de 2021 | 09h43

A partir desta terça, 8, as startups da América Latina têm um novo rei. O Nubank fechou investimento recorde de US$ 1,15 bilhão, se consolidando como a principal startup da região, e deixando para trás nomes como Rappi e iFood. Com isso, a avaliação do Nubank, que é uma empresa de capital fechado, chegou a US$ 30 bilhões. 

Nesta terça, a empresa revelou que levantou US$ 750 milhões, que se somam a rodada realizada em janeiro, que, na época levantou US$ 400 milhões. O maior pacote veio da Berkshire Hathaway, empresa do megainvestidor Warren Buffett, que concordou em comprar US$ 500 milhões das ações da fintech. Além da Berkshire, outros investidores estrangeiros estão aportando outros US$ 250 milhões no negócio, de acordo com a empresa – entre eles estão Sands Capital, Absoluto Partners, Verde Asset Management, Canada Pension Plan Investment Board (CPP Investments), MSA Capital e Sunley House Capital. Os dois acordos foram assinados na sexta-feira, 4. 

O aporte de US$ 1,15 bilhão do Nubank lidera a lista das maiores rodadas de investimento já realizadas na América Latina. De acordo com a empresa de inovação Distrito, atrás da fintech, estão a startup colombiana de entregas Rappi e a brasileira Loft que levantaram, respectivamente, US$ 1 bilhão e US$ 525 milhões. A empresa mexicana de carros usados Kavak ocupa o quarto lugar do ranking, com um aporte de US$ 485 milhões, e no quinto lugar há um outro aporte do Nubank e uma rodada do iFood, no valor de US$ 400 milhões. 

A extensão fez saltar o valor de avaliação do Nubank: em janeiro, o Nubank era avaliado em US$ 25 bilhões. Cerca de cinco meses depois, a marca chegou a US$ 30 bilhões, valorização de 20% – pelo câmbio da manhã desta terça-feira, 8, o Nubank tem valor de R$ 152 bilhões. Essa etiqueta torna a fintech brasileira mais valiosa que o Banco do Brasil, avaliado em R$ 103 bilhões. A título de comparação, o Santander Brasil vale R$ 168,3 bilhões, o Bradesco, R$ 231,6 bilhões, e o Itaú Unibanco, R$ 298,5 bilhões.

“O Nubank é o maior banco digital do mundo em número de clientes – acabou de atingir a marca de 40 milhões e, nestes primeiros cinco meses do ano, cresceu a um ritmo de mais de 45 mil novos clientes por dia”, disse a empresa, em comunicado nesta terça.

A Berkshire Hathaway fez o maior investimento individual já recebido pelo Nubank, mas a empresa não divulgou detalhes sobre sua base acionária. O Nubank destacou que a rodada serviu para dar entrada a gestoras nacionais, na figura da Absoluto e do Verde. "É com bastante entusiasmo que ingressamos nessa jornada como um dos primeiros investidores brasileiros", afirmou José Zitelmann, cofundador da Absoluto.

Barron Martin, sócio-diretor da Sands Capital, afirmou em nota que a gestora tem buscado "empresas que não estejam apenas desafiando o status quo hoje, mas também estejam moldando o futuro".

O Nubank também recebeu recursos de Invesco, Tarsadia Capital e da chinesa Tencent, que já eram investidores.

Crescimento 

Com sede em São Paulo, o Nubank é a maior fintech da América Latina e uma das maiores do mundo, com 40 milhões de usuários no Brasil, no México e na Colômbia, de acordo com a companhia. Desde a fundação, em 2013, a empresa já levantou cerca de US$ 2 bilhões em rodadas de financiamento – isso significa que a atual rodada da empresa levantou mais da metade de todos os investimentos recebidos pela startup na história. O valor supera, por exemplo, a quantidade de dinheiro já levantado pela colombiana Rappi, que tem investimentos somados de US$ 1,7 bilhão (o último dado de avaliação da startup de delivery é bem mais modesto: US$ 3,5 bilhões). 

"Para nós, essa é apenas uma grande validação do que o Nubank tem feito desde o começo", afirmou o fundador e CEO da empresa, David Vélez. Segundo ele, novas rodadas de financiamento estão fora de questão no momento. "Com esta, estamos muito, muito bem capitalizados; não temos planos para levantar mais capital."

Além de contas de depósito e cartões de crédito, o Nubank oferece hoje seguro de vida, empréstimo pessoal, produtos de investimento, pagamentos via smartphones e produtos para pequenos e médios empreendedores. No ano passado, a empresa adquiriu a Easynvest, uma plataforma digital de investimentos com US$ 5 bilhões em ativos e 1,6 milhão de clientes.

Guilherme Fowler, professor de inovação do Insper, explica que o Nubank está vivendo um momento de crescimento em potência máxima, o que justifica o alto volume de capital: "O crescimento de uma empresa pode se dar ampliando a oferta de produtos ou então expandindo geograficamente. O Nubank está apostando nos dois caminhos ao mesmo tempo", afirma.

Além disso, para Felipe Matos, presidente da Associação Brasileira de Startups (ABStartups) e colunista do Estadão, mais do que ajudar a consolidar a expansão do Nubank, os investimentos preparam a empresa para uma possível abertura de capital. "A essa altura, parece que o aporte é menos pelo dinheiro em si e mais para trazer investidores estratégicos, que podem abrir caminho para um bom IPO", diz. 

Segundo Vélez, porém, uma listagem do Nubank em Bolsa não está nos planos da empresa no momento, embora deva acontecer no futuro. Segundo ele, a companhia pretende continuar se expandindo, particularmente nos ramos de investimento e seguros nos três países em que já opera. O plano é expansão orgânica, mas ele não descartou aquisições.

"O foco principal será continuar na liderança do mercado de bancos digitais do Brasil, que é cada vez mais competitivo", disse Vélez. "O aumento da digitalização, do uso do e-commerce, todas essas tendências continuam a acontecer de maneira independente do crescimento do PIB ou do ambiente político."

Força das fintechs

O novo aporte do Nubank acontece em meio à rápida expansão dos bancos digitais no Brasil, onde o sistema bancário tradicional foi concentrado durante décadas em algumas grandes instituições, e onde boa parte da população não tem conta em banco. Nos últimos anos, o Banco Central tentou aumentar a competição ao dar suporte a startups que tomaram essa parte da população como alvo. Sob as bênçãos do regulador, as chamadas fintechs se moveram rápido para lucrar com o aumento na demanda por serviços financeiros. Elas ganharam um impulso com a expansão do e-commerce no ano passado, em resposta às medidas de restrição de mobilidade impostas pela pandemia de covid-19.

Segundo dados da Distrito, as fintechs brasileiras receberam mais de US$ 1,8 bilhão em aportes ao longo de 2020 – em 2019, o total foi de aproximadamente US$ 1 bilhão. É o setor mais forte do ecossistema de inovação brasileiro: as fintechs receberam mais de 50% do volume investido em startups brasileiras no ano passado.

Nesse sentido, para Junior Borneli, CEO da plataforma StartSe, esse bom momento para as fintechs também será um desafio para o Nubank, já que coloca um número crescente de rivais no radar da empresa – tanto fintechs quanto unidades digitais dos grandes bancos. "O maior risco para o Nubank é a competição, que no Brasil ficou mais acirrada", diz ele. "Além disso, criar relevância de marca em outros países é sempre um recomeço. Mas a empresa está bem posicionada."/ COM DOW JONES NEWSWIRES

 

Correção: O investimento da Berkshire Hathway no Nubank é o maior aporte individual que a fintech já recebeu, mas não a torna a maior acionista da empresa, como a Dow Jones havia informado anteriormente.

 

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