Combate à corrupção: o papel das empresas

Com tantas notícias revelando esquemas de corrupção no País, já quase não causa mais espanto saber que uma determinada empresa foi pega em algum tipo de atividade suspeita. Se, por um lado, as investigações em curso e a recém-aprovada Lei Anticorrupção indicam que muitos desses desvios podem sofrer as punições cabíveis, por outro, acaba restando um sentimento de que muitos dos negócios no Brasil se sustentam em bases pouco éticas.

Sérgio Lazzarini, O Estado de S.Paulo

31 Dezembro 2014 | 02h02

Em suas comunicações institucionais, prospectos e páginas de internet muitas dessas empresas não se cansam de ressaltar seus "valores" e ações de "responsabilidade social". Na conversa privada reclamam da dificuldade de fazer negócios no Brasil e da necessidade quase vital de ter de agradar a um político ou burocrata público para fazerem andar seus negócios. Sem essa ação, dizem, não seria possível competir com concorrentes que, em troca de boas oportunidades de negócio, se corrompem num estalar de dedos.

Esse argumento, porém, não se sustenta. Se todos se corromperem, não haverá ao fim fonte de vantagem competitiva. As empresas só pagarão cada vez mais para fazer negócios sem se diferenciarem de seus concorrentes. Além disso, fazer "agrados" diversos para sobreviver no mercado é injusto para empresas que, por um motivo ou outro, têm mais controles e travas contra atividades ilícitas. Muitas multinacionais no Brasil, por exemplo, se enquadram em leis muito rígidas nos seus países de origem (como o Foreign Corrupt Practices Act, dos EUA). As subsidiárias locais dessas empresas podem até envolver-se em corrupção, mas as dificuldades e as punições possíveis tendem a ser muito maiores.

Seria, então, possível sobreviver sem se engajar em corrupção? Poderia uma empresa prosperar sem participar de desvios e acordos opacos, mesmo em mercados mais regulados e com ampla interface com o setor público? Na Índia, que tem falhas institucionais similares às do Brasil, há o famoso caso da empresa Infosys, do setor de tecnologia de informação. A empresa buscou desenvolver uma reputação de não aceitar acordos corruptos. E isso se tornou uma fonte de vantagem competitiva: muitos compradores que querem sinalizar lisura nos seus processos buscam a empresa como principal fornecedor. Mas essa orientação não vem sem custo. Segundo executivos da empresa, evitar oportunidades suspeitas gera uma perda de receita de cerca de 30%. Uma perda deliberadamente aceita com parte da estratégia da empresa.

Nesse contexto, proprietários das empresas têm papel crucial. Ao se depararem com lucros exorbitantes, muitos acionistas não hesitam em cumprimentar seus executivos sem averiguar em detalhes se o lucro foi construído com bases éticas. Da mesma forma, ao serem frustrados com uma baixa rentabilidade, não hesitam em cobrar mais resultados sem estabelecer claros limites às ações dos gestores. Em geral, incentivam seus executivos com agressivo pagamento de bônus atrelado a vendas ou lucro, independentemente da origem do resultado. De forma distinta, os acionistas deveriam perceber que há um preço para manter a sua reputação intacta e que isso deve ser comunicado e alinhado com toda a gestão da empresa. Corrupção é uma escolha estratégica, não uma necessidade.

Por fim, e não menos importante, com o avanço institucional dos países e o crescente monitoramento externo da atividade empresarial, fundamentar um negócio numa miríade de acordos opacos raramente será uma fonte de vantagem sustentável. Uma empresa pode até lucrar no curto e no médio prazos com corrupção, mas dificilmente criará as bases para sua perenidade.

No Brasil, em particular, já existe um aparato consolidado de órgãos de fiscalização e uma crescente disseminação de casos de corrupção na mídia. Esperamos que essa tendência persista e ajude a orientar as empresas para a construção de competências voltadas para a eficiência e a produtividade. Que 2015 e os próximos anos nos tragam melhores notícias sobre o ambiente de negócios no Brasil.

*Sérgio Lazzarini é professor titular do Insper e autor de 'Capitalismo de Laços' e 'Reinventando o capitalismo de Estado'. E-mail: sergiogl1@insper.edu.br 

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