Léo Souza / Estadão
Importantes centros comerciais fecham em São Paulo e impacto na economia deve ser grande Léo Souza / Estadão

Combate à crise tem de passar pela área fiscal, dizem economistas

É unânime a opinião de que governo demorou para agir e medidas anunciadas até agora são tímidas

Luciana Dyniewicz, O Estado de S.Paulo

22 de março de 2020 | 05h00

O governo Jair Bolsonaro demorou para agir diante da crise do novo coronavírus e ainda tomou medidas tímidas demais dada a situação de calamidade global, segundo economistas ouvidos pelo Estado. Os especialistas pedem, principalmente, medidas mais profundas na área fiscal, a exemplo do que já foi feito em países desenvolvidos.

O Reino Unido, por exemplo, anunciou na sexta-feira passada que vai pagar até 80% dos salários dos trabalhadores nos próximos meses, enquanto o governo dos Estados Unidos articula com o Congresso um pacote emergencial que pode chegar a US$ 1 trilhão – ante -R$ 184,6 bilhões no Brasil.

Para o economista Paulo Leme, professor de Finanças na Universidade de Miami, o governo precisa injetar muito mais recursos na economia do que foi anunciado e, neste momento, seria melhor pecar pelo excesso. Monica de Bolle, pesquisadora do Peterson Institute for International Economics, nos Estados Unidos, afirma que a situação é de guerra e que, para bancar um aumento de gastos, o governo poderia se financiar através de instituições financeiras domésticas. 

Teto de gastos

Se os especialistas são unânimes ao defender um aumento dos gastos neste ano, eles divergem em relação à manutenção do teto dos gastos (emenda constitucional que limita o aumento dos gastos à inflação). Segundo Monica, a regra deve ser temporariamente suspensa, já que a realidade é dramática.

Ex-ministro da Fazenda, Maílson da Nóbrega, no entanto, afirma que é possível aumentar os gastos abrindo um crédito extraordinário para despesas de calamidade pública, que não seria contabilizado no teto. A economista Zeina Latif também apoia a manutenção do teto. “Tem de haver um esforço para manter o teto. Tenho medo do precedente que se abre ao suspendê-lo. Grupos de interesse sempre tentam abocanhar partes crescentes do Orçamento.”

Além de criticarem o alcance das medidas anunciadas, os economistas também apontam problemas políticos que têm atrapalhado o combate à pandemia e à crise econômica. Leme destaca que o governo precisa retomar a capacidade de informar a população de forma clara. “O presidente tem de apoiar a equipe de Saúde. O País tem de remar na mesma direção.” 

Zeina ataca a falta de articulação do governo e a demora do governo para reconhecer a gravidade da situação. “O governo subestimou o problema, agora será mais difícil lidar com essa crise. Não é que ela fosse inevitável, mas queimamos algumas etapas, como a da comunicação.”

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‘Plano de Guedes não basta. Tem de ser maior’

Economista Monica De Bolle defende a suspensão temporária do teto de gastos

Luciana Dyniewicz, O Estado de S.Paulo

22 de março de 2020 | 05h00

A economista Monica de Bolle, que há algumas semanas vem defendendo a suspensão temporária do teto dos gastos durante a crise, afirma que o pacote de medidas do governo é tímido demais para a recessão que virá -- ela estima uma queda do PIB de até 6% no Brasil neste ano. “Esse plano do Paulo Guedes não basta. Tem de ser algo muito maior. Tem de ser: o governo vai pagar os trabalhadores. O Reino Unido anunciou isso nesta semana.”

Monica propõe que o governo repasse R$ 50 bilhões ao Sistema Único de Saúde (o governo destinou R$ 11,8 bilhões ao combate da pandemia, sendo R$ 4,5 bilhões para o SUS) e outros R$ 30 bilhões para empresas mais afetadas pela crise. “Talvez precise mais. É uma situação de guerra”, diz. Ela destaca que o investimento na saúde é imprescindível, dado que grande parte da população brasileira vive aglomerada em favelas e recorrerá em massa ao sistema público de saúde. 

Monica sugere também, entre outras medidas, o repasse de R$ 500 mensais por um ano aos 36 milhões do Cadastro Único que não recebem o Bolsa Família. Todo o pacote da economista elevaria a dívida brasileira em 4% do PIB, calcula. “4% não é nada. Alguém acha que o Brasil acaba se a dívida aumentar isso?”

Mônica lembra que a dívida em relação ao PIB aumentará de qualquer modo, seja pela elevação dos gastos seja pela redução drástica do PIB caso esses gastos não sejam feitos. Ainda segundo a economista, o governo poderia se financiar com as instituições financeiras domésticas para poder aumentar os gastos. “É  assim que os países se financiam em guerras”, diz.

“O ministro da Economia precisa se mexer. A política fiscal é a protagonista numa crise dessa. A monetária é coadjuvante. O protagonista hoje é o Paulo Guedes e ele precisa estar ao alcance do papel que lhe foi dado”, acrescenta.

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‘É melhor errar por fazer demais’

Para Paulo Leme, os R$ 11,8 bilhões que o governo destinou para a Saúde é pouco

Luciana Dyniewicz, O Estado de S.Paulo

22 de março de 2020 | 05h00

“Esquece o teto dos gastos, agora é preciso cuidar dos doentes”, diz o economista Paulo Leme, que já comandou o Goldman Sachs no Brasil e hoje é professor de finanças na Universidade de Miami. Para ele, dada a gravidade da situação, cumprir uma meta fiscal deixou de ter qualquer prioridade e a resposta para a emergência econômica é política fiscal. “Reconheço que o pacote fiscal apresentado pelo governo é significativo, são 2,3% do PIB. Mas acho melhor errar por fazer demais, porque temo que ainda possa ser insuficiente.”

O economista afirma que os R$ 11,8 bilhões que o governo destinou, em seu pacote emergencial, para a saúde, é pouco. “Duplicaria, triplicaria esse valor para, por exemplo, a construção de hospitais. Utilizaria o exército para montar instalações provisórias.” Leme também defende um incentivo fiscal entre R$ 15 bilhões e R$ 20 bilhões, que poderia ser via postergação de pagamento de impostos, para empresas da área de saúde, como hospitais e indústria farmacêutica, além de subsídios para pesquisas de vacinas e medicamentos.

Leme afirma ainda que o governo deveria ampliar linhas de crédito tanto para pequenas e médias empresas, como para algumas maiores, como as aéreas, e usar o BNDES para comprar debêntures de companhias. Do lado do consumidor, outra rodada de liberação de recursos do FGTS deveria ser providenciada. “O jogo é ser gigantesco e rápido.”

Na área monetária, o economista avalia que a decisão do Banco Central de cortar a taxa básica de juros em 0,5 ponto percentual, para 3,75%, foi muito modesta. Ele reduziria em, pelo menos, mais um ponto porcentual em reunião extraordinária nesta semana.

“O Fed (Federal Reserve, o banco central americano) está comprando título de municípios. Acha que isso é normal? O erro de 1929 foi não ter uma política monetária expansionista. O Fed corrigiu isso em 2008 e está fazendo isso agora. Qualquer coisa, depois você retira liquidez.”

Além das medidas macroeconômicas, Leme destaca que a questão política -- global e doméstica -- é o alicerce para a recuperação. “Quando o líder americano perde credibilidade global, e fatal. Você não consegue coordenar as políticas.” No caso interno do Brasil, acrescenta que o governo precisa retomar a capacidade de informar a população de forma clara. “O presidente tem de apoiar a equipe de saúde. O País tem de remar na mesma direção.”

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‘Desarticulação do governo agrava situação’

Para Zeina Latif, governo federal se preparou mal para a crise

Luciana Dyniewicz, O Estado de S.Paulo

22 de março de 2020 | 05h00

Para Zeina Latif, doutora em economia pela USP, o plano do governo de conceder R$ 200 por mês, durante três meses, aos trabalhadores informais não apenas é insuficiente para essa população como também é um projeto de difícil execução. “É claro que R$ 200 são insuficientes. Tem de ser mais. E como fazer para chegar a quem necessita? São coisas que precisavam ter sido pensadas antes”, diz. 

Zeina destaca que o governo se preparou mal para a crise e subestimou o problema, o que torna tudo mais complexo agora. Para ela, quando o Ministério da Saúde colocou o alerta em nível um, ainda em janeiro, era preciso ter começado a traçar um plano emergencial.

“O governo é desarticulado. Isso agrava a situação. As medidas anunciadas ainda estão na borda do problema. Como executar medidas para ter capilaridade e para que recursos cheguem aonde é preciso rapidamente?”, questiona.

A economista diz que muitos setores poderão se aproveitar do momento e pedir recursos ao governo. “Tem de separar setores com problemas emergenciais do oportunismo. O desafio de desenhar política econômica agora é que estamos entrando tarde nisso, o que aumenta o risco de desperdício, de não usar o dinheiro onde é necessário.”

Para Zeina, deve-se aumentar os gastos agora -- “não fazer isso é um equívoco” -- , mas o teto dos gastos precisa ser respeitado. “Acho que tem de fazer um esforço para manter o teto. Tenho medo do precedente que se abre ao suspendê-lo. Grupos de interesse sempre tentam abocanhar partes crescentes do orçamento.”

Uma linha de crédito para empresas pequenas também é essencial, acrescenta ela. Nada disso, no entanto, será suficiente para evitar uma recessão. “A questão é reduzir o sofrimento e tentar fazer com que a crise não seja tão forte.”

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‘Governo tardou em agir na área econômica’

Ex-ministro da Fazenda de José Sarney diz que é preciso aumentar o orçamento da Saúde e providenciar alívio de caixa para empresas e famílias

Luciana Dyniewicz, O Estado de S.Paulo

22 de março de 2020 | 05h00

Para o ex-ministro da Fazenda Maílson da Nóbrega, o governo Jair Bolsonaro errou ao insistir que acelerar as reformas estruturais solucionariam a crise econômica decorrente da pandemia do novo coronavírus. “O governo tardou em agir na área econômica. Quando a situação começou a se agravar, insistia no discurso equivocado de que era preciso fazer reformas. Se aprovadas, elas terão impactos daqui a anos. A crise precisa de algo emergencial.”

O economista destaca que é preciso aumentar o orçamento da saúde para evitar mortes e providenciar um alívio de caixa para empresas e famílias. Ele sugere ainda que a contribuição previdenciária seja dispensada temporariamente. “É preciso colocar dinheiro no bolso das pessoas. A Coreia do Sul está cobrindo 80% dos salários das empresas com dificuldade para garantir isso. Mas, claro, a Coreia não tem dificuldade fiscal.”

Maílson admite que o déficit primário do Brasil vai aumentar neste ano, mas defende que o teto dos gastos não seja eliminado. “O governo pode propor a abertura de um crédito extraordinário para cobrir despesas de calamidade pública, que não é contabilizado no teto.” Segundo ele, o teto é a única âncora fiscal do País e revê-lo poderia colocar em colapso a expectativa de capacidade de pagamento do governo. “Se abrir o teto, vão surgir emendas loucas e os Estados vão pressionar para ter mais dinheiro.”

Para o economistas, as medidas adotadas pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, estão em linha com as europeias e asiáticas, mas é possível discutir a intensidade delas. “Você pode chamá-las de tímidas.” Maílson, no entanto, não vê muito espaço para, por exemplo, aumentar os R$ 200 que serão concedidos por mês, nos próximos três meses, aos trabalhadores informais. “O Tesouro não tem condições de bancar muito mais.”

Assim como Paulo Leme, o ex-ministro da Fazenda critica a coordenação política. “Tem de melhorar a coordenação dentro do governo. O ministro da Casa Civil, general Walter Braga Netto, tem feito um pouco isso. Mas é preciso coordenação também com Estados e municípios.”

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