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Combater a pobreza ou preservar a natureza?

Destruir a natureza pode ter um custo imediato mais baixo para o crescimento econômico, mas o passivo ambiental cobra preços altos

Celso Ming e Guilherme Guerra, O Estado de S.Paulo

31 de agosto de 2019 | 19h00

Entre as obsessões que tomaram corações e mentes em todo o mundo está a necessidade de garantir crescimento econômico sem olhar para os custos. Se o Produto Interno Bruto (PIB) não aumenta conforme o esperado ou se não aumenta na proporção do que ocorre em países concorrentes, é um deus nos acuda.

Não se trata apenas de derrotar a pobreza, mas também de garantir objetivos políticos. O dirigente que se mostrar incapaz de apresentar resultados econômicos não dura muito à frente do governo ou não consegue eleger seu candidato. Sabe-se disso bem antes da derrota do republicano George H. W. Bush infligida por Bill Clinton em 1992, quando prevaleceu o slogan eleitoral “é a economia, estúpido!”.

As consequências dessa lógica se estendem para a geopolítica. País atrasado no seu processo de desenvolvimento perde poder de barganha no comércio internacional ou perde capacidade de influência no jogo global.

O problema é que a corrida pelo crescimento econômico ou, simplesmente, o esforço para tirar um país do atraso em relação aos outros tende a produzir altos custos ambientais.

Não só as principais matérias-primas são finitas, como também o crescimento acelerado produz poluição, contaminação do ar e das águas, lixo não reciclável e aquecimento global. Não se conhece nenhum país que tenha se tornado exemplo intocável de preservação ambiental e, ao mesmo tempo, mostrado crescimento acima da média mundial. Durante muitos anos, foram os governos de esquerda na América Latina que acusavam os países ricos de impor exigências preservacionistas com objetivo de manter os países pobres no atraso. Essa não é invenção do presidente Bolsonaro. 

Na maior parte as vezes, as políticas econômicas calcadas no crescimento lembram a mentalidade das leis de armas que prevaleceu na Flórida a partir de 2005: “Atire primeiro e pergunte depois”. A China é caso típico de aplicação desse princípio. Teve como justificativa dar prioridade à erradicação da pobreza, sem preocupação imediata com os efeitos sobre o meio ambiente.

Muito lentamente e sempre com recaídas, começa a tomar corpo o ponto de vista de que o crescimento só pode ser admitido se não sacrificar a natureza. Pelo menos em parte, esse novo imperativo categórico, de só crescer com respeito ao meio ambiente, está por trás dos protestos globais que se viram depois de conhecida a extensão dos incêndios na Amazônia.

Esse é, em boa medida, o sentido da advertência feita pelo coordenador do Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getúlio Vargas (FGVces), Mario Monzoni: “O crescimento deve ser um meio e não um fim em si mesmo”. O fim, no caso, é o desenvolvimento integral, que deve, sim, ter como metas a erradicação da pobreza e da fome. Mas a preservação do meio ambiente tem de fazer parte dessa equação. Daí a expressão já consagrada “desenvolvimento sustentável”.

O especialista em Sustentabilidade e professor da Coppead-UFRJ Celso Lemme reforça a opinião de Monzoni: “Ainda prevalece o ponto de vista de que há uma oposição inconciliável entre desenvolvimento sustentável e erradicação da fome”. É o oposto. “O conceito de sustentabilidade atua em conjunto com o de combate à pobreza.”

Custo

Destruir a natureza pode ter um custo imediato mais baixo, mas o castigo vem em seguida. O passivo ambiental cobra preços altos. Inundações e doenças respiratórias podem ser os mais baixos.

Isso significa que essa matéria não pode ser deixada ao deus-dará. Tem de ser objeto de políticas públicas. A repressão a abusos ambientais e novas restrições ao uso de combustíveis fósseis são algumas delas. O incentivo à reciclagem e ao reúso de matérias-primas, por meio da chamada ecotributação, é outro caminho. 

Um grupo de economistas finlandeses, chefiados por Paavo Järvensivu, contratados em 2018 pela Organização das Nações Unidas (ONU), elaborou relatório prévio sobre desenvolvimento sustentável, a ser editado neste ano. Eles partem da verificação de que “a era da energia barata chega ao fim”. A industrialização intensiva dos dois últimos séculos só aconteceu graças ao baixo custo dos combustíveis fósseis (carvão, petróleo e gás). Mas este, lembram eles, é cenário que ficou para trás. Daqui para a frente, o custo da energia será mais alto, já que as novas fontes são menos eficientes. As catástrofes climáticas serão cada vez mais frequentes. Não há saída senão mudança radical de paradigmas e de hábitos de consumo, concluem eles.

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