Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

Defasagem no preço dos combustíveis no Brasil já chega a até 27%, com disparada do petróleo

Segundo cálculos de consultoria, se valor fosse repassado integralmente, gasolina subiria, na refinaria, de R$ 3,26 para R$ 4,04, e o diesel, de de R$ 3,63 para R$ 4,62

Fernanda Nunes, O Estado de S.Paulo

02 de março de 2022 | 16h21

RIO - A alta da cotação do petróleo para patamar superior aos US$ 110 (o óleo tipo brent), nesta quarta-feira, 2, atinge em cheio o mercado brasileiro de combustíveis. A notícia é positiva para a Petrobras, exportadora da commodity. À medida que a cotação sobe, com os ataques da Rússia à Ucrânia, mais dinheiro entra no caixa da empresa. Mas, para isso, ela tem de reajustar os valores dos seus produtos refinados, o que não acontece desde 12 de janeiro - e vai contra o desejo do presidente Jair Bolsonaro.

A defasagem entre os preços comercializados nas principais bolsas internacionais e os pagos pelas distribuidoras brasileiras chegou a 27% para o óleo diesel e a 24% para a gasolina, segundo cálculo de Pedro Shinzato, consultor em Gerenciamento de Risco da consultoria Stonex. O litro do diesel S-10, sem imposto e sem biodiesel, sai hoje por R$ 3,63 nas refinarias da Petrobras, em média. Se a empresa repassar integralmente a alta do petróleo dos últimos dias, o valor deveria saltar para R$ 4,62. Já a gasolina, na refinaria, passaria de R$ 3,26 para R$ 4,04. O preço final ao consumidor é diferente, porque tem também impostos embutidos.

A Petrobras alega que outras variáveis influenciam sua política de reajustes, como a valorização do real frente ao dólar, e que mantém intervalos mais espaçados de reajustes para fugir de oscilações conjunturais da commodity.

No início da semana passada, a defasagem estava em 11% para a gasolina e 8% para o diesel, de acordo com a Associação Brasileira de Importadores de Combustíveis (Abicom). Hoje, a diferença entre os preços internos e externos mais do que dobrou. Com isso, a importação "está inviabilizada", disse Sérgio Araújo, presidente da entidade. Nenhuma das suas dez associadas forneceu combustível ao mercado brasileiro neste ano. Isso porque as pequenas importadoras não têm fôlego para concorrer com os preços da Petrobras.

Como as refinarias brasileiras não atendem toda a demanda interna, a tendência é de que a Petrobras tenha ampliado o volume importado neste ano, e que esteja suprindo a lacuna deixada por concorrentes. A companhia não informa oficialmente se isso está acontecendo.


As estatísticas de importação de cada agente do mercado estavam sendo divulgadas pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), em seu site. Mas, "por problemas técnicos, os dados de participação da Petrobras nas importações no ano de 2022" não foram publicados ainda. Procurada, a ANP disse que daria em breve informações sobre a retirada do ar das estatísticas de importação de combustíveis da Petrobras.

Pressão sobre a estatal

Por enquanto, a valorização do real frente ao dólar, em janeiro e fevereiro, ajudou a Petrobras a segurar seus preços, como afirmou o diretor de Comercialização e Logística da petrolífera, Cláudio Mastella, em teleconferência com analistas, na quinta-feira. Apesar dos argumentos, a pressão sobre a gestão da companhia é grande, dizem fontes que acompanham de perto esse processo.

De um lado, os acionistas minoritários exigem independência política da empresa. Do outro, o governo, sócio majoritário, teme os prejuízos políticos da alta do petróleo, num ano de eleições.

A visão de especialistas é de que a estatal não terá como segurar seus preços por muito mais tempo e deverá anunciar reajuste em breve. Pedro Shinzato, consultor em gerenciamento de risco da Stonex, diz que, apesar de o Brasil ser superavitário em petróleo, possui déficit em refino que leva à importação de 25% do diesel consumido no País.

"Desde o início do ano, a Petrobras vem continuamente mantendo preços ligeiramente abaixo do PPI (preço de paridade de importação, de equiparação ao mercado internacional). Esse diferencial tem se alargado bastante nos últimos dias. O diferencial é tanto que coloca em xeque a política de PPI da empresa", afirma. Parte do resultado recorde de R$ 106 bilhões de 2021 se deveu ao repasse da alta do petróleo para o mercado interno, segundo ele.

Luciano Losekann, especialista em petróleo e professor da Faculdade de Economia da Universidade Federal Fluminense (UFF), diz que o cenário é de incerteza, mas que, dificilmente, o barril será negociado patamar inferior a US$ 100 nos próximos dias. "Como já tem um mês desde o último reajuste, devemos ter um aumento nos próximos dias, embora acredite que a Petrobras não repasse a alta integral aos consumidores, num primeiro momento", disse.

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