Começa a faltar dinheiro para comércio exterior

As linhas de repasse para o financiamento de comércio exterior estão começando a secar nas instituições financeiras. Segundo apurou a Agência Estado, alguns bancos reduziram em mais de 50% a oferta dessas linhas contratadas, sobretudo via Antecipação de Contratos de Câmbio (ACC). Outros cortaram esse repasse em mais de 80%. Os prazos também sofreram redução substancial. Hoje é praticamente impossível negociar no mercado prazo igual ou superior a um ano. Na maioria dos casos, as escassas ofertas ficam restritas a prazos de 60 e 90 dias."O problema nas linhas de comércio exterior é grande", afirma o diretor de Trade, Payment e Services (TPS) do Deutsche Bank, Werner Sönksen. "Mesmo os repasses de linhas, em que os credores têm como contraparte uma instituição financeira, estão hoje muito limitadas". A redução das linhas de repasse é considerada o último estágio da secura de linhas externas para um país.Em momentos de crise, elas afetam primeiro as linhas chamadas "non trade related" (não vinculadas a comércio exterior) e, posteriormente, os financiamentos diretos aos exportadores, como o pagamento pré-exportação. "O que ocorreu é que quando as ´non trade´ praticamente secaram, tanto os exportadores tradicionais quanto os não exportadores, via compra de perfomance de exportação, passaram a demandar o financiamento direto, que também secou", afirma o diretor do Deutsche.Na esteira da redução das ofertas, que não atendem à demanda do mercado doméstico, os custos também subiram. "É difícil quantificar isso para o mercado inteiro, afinal são bancos diferentes. Mas o efeito é natural: com a maior demanda, os custos também sobem", avalia o diretor de Câmbio e Agribusiness do Unibanco, Ângelo Vasconcellos, destacando que em algum momento o mercado se acomodará à realidade da oferta de linhas.O cenário para as linhas ao comércio exterior foi uma das preocupações manifestadas pela vice-diretora-gerente do FMI, Anne Krueger, na reunião fechada que teve com banqueiros na semana passada. Segundo uma fonte que participou da reunião, a resposta dos bancos sobre as linhas foi de que a escassez das ofertas é transitória, basicamente relacionada às incertezas eleitorais que têm afetado o mercado como um todo.No atual cenário de poucas linhas de comércio exterior, os bancos têm optado por restringir créditos a clientes conhecidos e que mantêm boa relação com a instituição. "Como essa redução não ocorre no mesmo volume para todos os bancos, temos dado prioridade para os parceiros mais constantes", afirma Ângelo Vasconcellos. Há também a busca de estruturas diferenciadas, como, por exemplo, o financiamento direto dos exportadores em troca de recebíveis que serão pagos pelo importador. "Assim, o risco que assumimos é o do importador", afirma Werner Sönksen, do Deustche.Assim como na crise de 1998 e 1999, o Banco do Brasil também está reforçando as ofertas de ACC para os exportadores. Apesar da restrita oferta de recursos no mercado internacional, o banco estatal captou recentemente mais US$ 250 milhões que deverão ser prioritariamente destinados ao repasse dessas linhas de comércio. Os exportadores, diante de tal cenário, têm procurado segurar os embarques e fechar o câmbio no pronto, o que num mercado sem liquidez acaba amplificando a pressão sobre as cotações da moeda norte-americana. "Desde o ano passado as operações prontas tiveram um crescimento muito grande", afirma Vasconcellos.

Agencia Estado,

29 de julho de 2002 | 19h30

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