Ed Ferreira/AE-26/5/2010
Ed Ferreira/AE-26/5/2010

Começa disputa pelo comando do FMI

Possibilidade de Strauss-Kahn se lançar candidato à presidência da França antecipa eleições no Fundo, que pode ter um país emergente na direção

Jamil Chade, O Estado de S.Paulo

20 de abril de 2011 | 00h00

CORRESPONDENTE / GENEBRA

Começa a corrida pela direção do Fundo Monetário Internacional, no que promete ser a primeira eleição desde a criação do FMI a ser aberta também aos países emergentes. Ontem, o primeiro-ministro britânico, David Cameron, deixou claro que não apoiará Gordon Brown e acredita que chegou a vez de a Ásia assumir a entidade, tradicionalmente nas mãos dos europeus.

Mas os candidatos já começam a se perfilar, principalmente diante da possibilidade da decisão do atual diretor, Dominique Strauss-Kahn, de se lançar como candidato à presidência da França, o que obrigaria a entidade a acelerar o processo de escolha de seu substituto. Se o calendário fosse mantido, as eleições ocorreriam em 2012. Mas a eventual saída de Strauss- Kahn promete antecipar tudo.

Ontem, Cameron já alertou que Londres não apoiará o ex-primeiro-ministro Brown, alertando que ele "não seria adequado". Cameron derrotou Brown nas eleições no ano passado. "Não me parece que se existe alguém que acha que não temos um problema de dívida no Reino Unido, quando obviamente temos, essa pessoa seria apropriada para lidar com outros países que têm problemas de dívida e de déficit", disse à BBC.

"É muito importante que o FMI seja liderado por alguém extraordinariamente competente e capaz", disse Cameron. Brown e seus simpatizantes rebatem dizendo que, nos dez anos em que foi responsável pelas Finanças do Reino Unido, o ex-primeiro-ministro promoveu crescimento. Mas ele acabou assumindo o governo só em 2007 e, diante da pior crise em 70 anos, ficou no cargo apenas até maio de 2010.

Mas Cameron deixou claro que está na vez de alguém de fora do grupo ocidental assumir o FMI, até mesmo "para aumentar a visibilidade da entidade no mundo". "Temos o crescimento da Índia, da China e do Sudeste Asiático, uma mudança no foco do mundo e já é hora de o FMI começar a pensar em mudar de foco também", apontou.

Criado após a 2.ª Guerra Mundial, o FMI foi estabelecido como parte do esforço entre europeus e americanos para reconstruir o sistema financeiro internacional. Por um acordo de cavalheiros, ficou estabelecido que todos os diretores do FMI seriam europeus, enquanto todos no Banco Mundial seriam americanos.

Diante da crise que eclodiu em 2008 e da emergência de novos polos de poder, o G-20 estipulou o fim do controle europeu sobre a direção do órgão. Entre os nomes mais citados estão o do indiano Pranab Mukherjee, ministro de Finanças da Índia, e o sul-africano Trevor Manuel. Outro cotado é o mexicano Angel Gurria, secretário-geral da OCDE há anos e considerado um candidato que poderia agradar ao mundo desenvolvido.

Na Europa, os nomes mais citados são os de Christine Lagarde, atual ministra de Finanças da França, e Mario Draghi, presidente do BC italiano e um dos principais negociadores no G-20. Para o Partido Trabalhista britânico, a ideia de Brown não deveria ser desprezada por Cameron. Há uma semana, nos Estados Unidos, Brown admitiu que cometeu "erros" na gestão da crise. Mas lembrou que todos cometeram.

PARA ENTENDER

Comando sempre esteve com europeus

O Fundo Monetário Internacional (FMI), juntamente com o Banco Mundial (Bird), emergiu em 1945 como um dos pilares da ordem econômica internacional do pós-guerra.

Além disso, sua criação foi necessária para evitar a repetição da desastrosa política econômica que contribuiu para a Grande Depressão de 1929. Tem como objetivo básico zelar pela estabilidade do sistema monetário internacional, por meio da cooperação e da consulta em assuntos monetários entre os seus 187 países-membros.

O presidente do FMI é tradicionalmente um europeu, com exceção da americana Anne Krueger, que manteve o posto até que um novo diretor fosse nomeado. Por sua vez, o presidente do Banco Mundial é sempre um cidadão americano.

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