Começa um novo ciclo no setor privado de educação

Desde 2007, quando ocorreu a primeira abertura de capital no setor brasileiro de educação privada, foram registradas mais de 180 aquisições de pequenas e médias instituições. Neste ano, o segmento de negócios educacionais entra em um novo ciclo - o das grandes fusões. Como o que se viu até agora foi sempre uma empresa comprando a outra, pode-se considerar a fusão entre Kroton e Anhanguera, anunciada ontem, a primeira do gênero no setor.

Ryon Braga, O Estado de S.Paulo

23 de abril de 2013 | 02h04

A instituição resultante dessa transação não só será a maior da América Latina, como também estará entre as maiores empresas educacionais com fins lucrativos do mundo, com potencial para se tornar uma Ambev da educação, já que a expansão internacional é uma consequência natural para empresas que alcançam esse porte. O conglomerado formado por Kroton e Anhanguera terá cerca de 15% de todos os alunos do Brasil.

Esse novo ciclo de consolidação do setor está diretamente relacionado à participação de agentes do setor financeiro na gestão das instituições de ensino. Dos cinco maiores grupos educacionais brasileiros, que juntos possuem mais de 1,5 milhão de alunos, quatro são comandados por empresas do setor financeiro. Entre as 15 maiores empresas educacionais do País, nove têm um fundo ou banco de investimentos em sua estrutura de gestão e governança - 60% do total. Ao contrário do que pensam alguns ideólogos, o setor financeiro trouxe benefícios para o segmento de educação nos últimos anos, como a melhoria do nível de gestão das instituições.

Mas como fica a qualidade da educação com essa fusão? Primeiro temos de lembrar que a educação superior como um todo (pública e privada), no Brasil, é muito ruim quando comparada com países de mesmo nível econômico e é péssima quando comparada com países desenvolvidos. A existência de grandes grupos como Kroton e Anhanguera não diminuiu o nível de qualidade da educação no País - ao contrário, aumentou. É óbvio que o aluno egresso da Kroton e da Anhanguera não tem o mesmo nível do aluno que sai da FGV ou do Insper ou ainda de um ITA ou de uma USP - nem poderia ter. Nessas instituições, praticamente só entra a elite intelectual brasileira. Quem vai estudar na Kroton e na Anhanguera trabalha o dia todo para pagar a mensalidade, e fez ensino médio em colégio público. É preciso muito esforço para transformar esse aluno em um profissional preparado para o mercado de trabalho. Como as gigantes do setor investem mais em gestão, conseguem um desempenho melhor do que o da maioria das pequenas e médias instituições no Brasil. Ter ou não ter fins de lucro é algo irrelevante para a qualidade. Cabe ao Ministério da Educação e ao mercado separar o joio do trigo.

* FUNDADOR DA HOPER EDUCAÇÃO

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