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Comecei em casa

São muitas as histórias de empreendedores que, ao começar um negócio, cortaram gastos com ponto comercial para economizar

Marilena Rocha, O Estadao de S.Paulo

19 de novembro de 2008 | 00h00

No mundo inteiro não faltam exemplos de grandes empresas que começaram numa garagem ou no fundo do quintal e se tornaram líderes em diferentes setores, como a Nike ou a HP. O fato é que em todos os casos de sucesso prevaleceram a determinação e trabalho duro de empreendedores.As dificuldades de locomoção nas grandes metrópoles, com suas vias cada dia mais congestionadas, têm levado muita gente a optar por trabalhar em casa. Outro tanto de pessoas tem transformado o próprio teto em local de trabalho, até por conta da decisão de cortar despesas. Há ainda os sem emprego que, por falta mesmo de opção, usam o próprio lar para terem uma fonte de renda.Aqui mesmo, de Norte a Sul do País, todos os dias, novas futuras grandes empresas estão nascendo em muito fundo de quintal. Aos novos empreendedores que estão vivendo essa situação o consultor de empreendedorismo do Senac, Marcelo Nakagawa, destaca cinco passos para que o negócio se fortaleça e deixe de ser apenas uma forma de subsistência. "É preciso conhecer a história de outros empreendedores dos mais diversos setores. Nos erros e acertos dos outros pode-se aprender muito. Pode ser com o Samuel Klein, das Casas Bahia, ou com alguém da área de gastronomia, por exemplo." Não encarar o próprio negócio como uma coisa amadora é fundamental. "Ou seja, o planejamento é vital para o crescimento da sua empresa", acrescenta o especialista.Em terceiro lugar é preciso sempre estar aprendendo técnicas de grandes empresas e procurando implantá-las. "Foi o que fez a dona Zica do Beleza Natural. Ela passou a usar no seu salão de beleza as técnicas que seu irmão aprendera ao trabalhar no McDonald?s. Ou seja, toda aquela padronização, seja fritando batatas ou na limpeza, foi levada com sucesso para o dia-a-dia do salão."O quarto passo é sempre perguntar ao cliente o que ele gostaria. "Conhecer a fundo a opinião do mercado que se atende é indispensável. E, por fim, sempre buscar um diferencial. É preciso pensar como o fundador do Wal-Mart, Sam Walton, que se impôs o desafio de anotar diariamente coisas para tornar o dia seguinte melhor do que o dia anterior. Resultado, durante um ano teve 365 melhorias, porque se obrigou a ter o dia seguinte melhor que a véspera."O negócio que começa de maneira informal e depois passa para a formalidade, gerando empregos, tem sempre um diferencial. Nakagawa cita o dono da Cacau Show, Alexandre Tadeu da Costa, como um exemplo de quem sai do ciclo da subsistência para a a inovação. "Ele focou a empresa no negócio presente e não no negócio chocolate. Quem não busca um diferencial vai ficar no fundo do quintal para o resto da vida", alerta.Voltando ao caso do salão Beleza Natural, lembra que Heloísa Assis, a dona Zica, fez pesquisas por dez anos para encontrar a fórmula de suavizar os cabelos crespos, tornando-os cacheados. "Resultado: aquele negócio que começou nos fundos de uma casa hoje tem 15 anos e seis unidades no Rio de Janeiro."Outro case que merece ser estudado a fundo por quem quer ir bem além da garagem é a Goóc, de Thai Nghia, que produz roupas e bolsas ecologicamente corretas. Ele fugiu do Vietnã na década de 1970 e foi resgatado por um barco da Petrobrás. Não sabia uma única palavra em português. Mas em cinco anos entrou na Matemática da USP e encontrou uma bela oportunidade de se desenvolver quando uma amiga ?quebrou?, em 1986, por conta do Plano Cruzado, doando-lhe máquinas e bolsas. Ele, que estava trabalhando num banco, passou a vender bolsas e foi atraído para a área de materiais reciclados. Resultado: a Goóc é hoje uma empresa bem posicionada na área de bolsas e calçados que respeitam o meio ambiente.CRÉDITO E QUESTÃO TRABALHISTACom a cara e a coragem, Ângelo Percebon, de 50 anos, decidiu aos 31 anos dar um basta na sua carreira de 17 anos de ferramenteiro numa metalúrgica de Limeira, a 154 km a noroeste de São Paulo (região de Campinas). "Com o incentivo de um amigo engenheiro-químico, resolvi abrir um negócio de bijuteria no fundo do quintal da casa de meu pai. Naquela época, em 1989, Limeira só conhecia peças de ouro", lembra,com orgulho do pioneirismo.Percebon conta que as coisas não foram tão fáceis quanto imaginava. Chegou a pensar que teria de produzir ferramentas para terceiros para sobreviver. Mas a persistência e a criatividade que até hoje lhe permitem apresentar designs diferenciados periodicamente garantiram a sua continuidade e crescimento.O maior desafio que encontrou foi vencer a dificuldade de obtenção de crédito. "O setor não era forte e eu não tinha nada para oferecer como garantia. Então vendia uma peça para produzir duas, depois quatro para produzir oito e assim por diante. Foram dez ou 12 anos operando só com recursos próprios, na raça mesmo",destaca.Percebon deixou a casa do pai em 1992. Comprou um terreno e construiu um prédio que duplicou em 1998. Dois anos depois comprou um prédio vizinho. Tem até um projeto pronto, mas ainda espera uma nova oportunidade para investir em mais essa ampliação. "Só faço as coisas quando me sinto bem seguro, que é para não comprometer os negócios já em andamento", explica. O produtor de bijuterias chama a atenção para o outro problema que enfrentou em 1992. "Foi na área jurídico-trabalhista porque fui mal assessorado." Sua indignação foi tamanha que, afastado havia 14 anos dos estudos, voltou à escola e, em 1995, formou-se em direito. No momento faz pós-graduação em direito do trabalho. "Nunca mais tive nenhum na área trabalhista", orgulha-se.Com a sua fábrica de folheados, Percebom emprega 25 pessoas. "Se for considerar os empregos indiretos pode-se multiplicar esse número por três, ou seja, 75 empregos. Só não gero mais vagas em razão da alta carga tributária e, principalmente, dos encargos trabalhistas. E produzimos de 30 a 50 mil pares de peças por mês, sempre com um diferencial e antenadas com a moda", garante. Revela que já está preparando dois de seus três filhos, na faixa dos 19 aos 25 anos, para assumirem a empresa em alguns anos "para poder curtir a vida um pouco na praia", brinca.CONFIO NO MEU TACOO trabalho em casa exige alguns cuidados para ter sucesso. Está provado que dá certo para quem é disciplinado. Ou seja, a pessoa vai de fato dedicar muitas horas do dia ao empreendimento, não se distraindo com os deveres de casa ou com divertimentos existentes no seu interior (home theater, por exemplo). E, sobretudo, não vai misturar o orçamento familiar com o caixa da empresa. Poderá até usar o cartão de crédito corporativo para uma ou outra compra pessoal, por conta de sua taxa menor, mas que não passe disso para não correr o risco de misturar para sempre os dois orçamentos."É fácil abrir uma portinha na frente de casa para vender quinquilharias, fazer cópias de documentos, consertar sapatos ou roupas. Em qualquer bairro que se caminhe você vai achar dezenas de exemplos nesse sentido. Agora, planejar para deixar os arredores de casa, crescer e não apenas buscar a subsistência, é para poucos. Ou melhor para quem foge do comodismo, não almeja lucro momentâneo e está sempre inovando", explica o consultor de finanças Marcos Crivelaro.Maria Auxiliadora Revieri, de 64 anos, diz que não tem do que se queixar da profissão que abraçou há 32 anos, no Tatuapé, Zona Leste da cidade, e que ainda hoje defende com unhas e dentes para ver regulamentada. "Eu queria muito trabalhar fora, mas meu marido não queria que eu me afastasse de nossos dois filhos pequenos. Pensei muito no que mais gostava de fazer e abri um salão de beleza em casa", diz.O marido, engenheiro mecânico, falecido há 20 anos, reconheceu o espírito empreendedor da mulher e lhe deu assessoria financeira nos primeiros anos. "Ele me ensinou a manter as coisas funcionando direitinho, sem misturar as contas da casa com as do salão. E pagando todas as taxas e impostos, porque o nosso ofício de cabeleireira não é reconhecido pelo Ministério do Trabalho, mas as nossas obrigações são muitas", critica.O tempo passou, Maria freqüentou vários cursos de atualização, foi sempre se reinventando e os filhos se formaram como analista de sistemas e engenheiro mecânico. "Nesses 32 anos, o período mais difícil foi sem dúvida a época do Plano Collor. Eu tinha 15 funcionários e precisei fazer cortes drásticos", lembra. Hoje a empresária tem cinco colaboradores e praticamente todo o atendimento é com hora marcada. "Esse sistema é bom para todo mundo. E ainda ofereço um outro diferencial, que é nunca dizer não aos meus clientes. Ou seja, atendo até aos domingos e feriados para não deixar ninguém na mão. É por isso que confio muito no meu taco, de tal forma que não temo a abertura de nenhum outro salão, mesmo que seja grudado na minha casa", desafia.

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