Taba Benedicto/Estadão
Bernardo Ouro, CEO do Emporio Santa Maria Taba Benedicto/Estadão

Comerciantes fazem malabarismo e negociam com fornecedores para manter clientes

Importadora em São Paulo conseguiu desconto em preços de produtos para aliviar o repasse da alta do câmbio para o consumidor

Márcia De Chiara e Douglas Gavras, O Estado de S.Paulo

05 de outubro de 2020 | 05h00

A disparada do câmbio ao longo deste ano tem levado varejistas que trabalham com itens importados a fazer uma verdadeira ginástica para não perder vendas por conta da alta de preços. A conta tem sido sempre a mesma: é melhor abrir mão da margem de lucro do que ver o cliente, cada vez menos disposto a gastar, deixar de comprar.

No braço de importações do grupo St Marche, que abastece o mercado gourmet Empório Santa Maria e as lojas da rede de supermercados St Marche, por exemplo, a estratégia foi renegociar preços com fornecedores estrangeiros de vinhos e alimentos para conseguir atenuar o impacto da alta do dólar no bolso do consumidor.

“Conseguimos renegociar descontos entre 15% e 20% e, em alguns casos, baixamos a nossa margem”, conta Bernardo Ouro, responsável pelo Empório Santa Maria. A importação própria do grupo responde por cerca de 5% dos volumes vendidos nas lojas. Com esses descontos, Ouro diz que conseguiu manter os preços da maioria dos itens importados pela própria empresa no patamar de antes da pandemia, quando o dólar estava cotado a R$ 4,20.

Já nos itens estrangeiros que o grupo compra de importadoras – que representa 15% dos produtos da loja – a manutenção de preços não foi possível.

As importadoras renegociaram com fornecedores estrangeiros, mas aumentaram os preços em reais desses itens entre 15% e 25%, em média. “Na grande maioria dos produtos, não houve aumentos de 40%”, pondera o empresário. Esse porcentual equivale ao repasse integral da alta do câmbio.

Otimismo

Apesar das pressões de custos provocada pela alta do câmbio, Ouro está confiante no bom desempenho de vendas do Natal. Ampliou em 50% os volumes que importa por conta própria de vinhos, massas e azeites, na comparação com o ano passado. “As pessoas vão viajar menos este ano e celebrar o Natal em casa. Acreditamos que a venda de comida e bebida será muito forte”, conta ele.

Cliente de uma importadora de vinhos e azeites em Porto Alegre há mais de três décadas, o dono de restaurante Aguinaldo Barcelos, de 45 anos, diz que o dólar alto assusta na hora de planejar as compras do mês, sobretudo em um momento em que o horário de atendimento de seu estabelecimento ainda não foi normalizado após o relaxamento do isolamento social. 

“Manter um negócio não é um processo barato. Nunca sobrou muito dinheiro, mas os últimos meses foram ainda mais difíceis para quem depende de movimento. Os clientes ainda não voltaram totalmente e precisamos pensar duas vezes antes de cada despesa.”

Ele conta que conseguiu negociar um aumento menor nas compras de vinhos e de azeite. Sabe que o fornecedor também teve de reduzir sua margem de lucro, mas que todos acabam fazendo sacrifícios em momentos de crise, como o de agora. “O raciocínio dele é o mesmo que eu tenho: se repasso tudo, fico sem vender. É melhor perder um pouco.”

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Dólar pode tirar R$ 1,8 bilhão das vendas de Natal

Comércio pode perder com câmbio e alta do desemprego até 5% do que costuma vender

Márcia De Chiara e Douglas Gavras, O Estado de S.Paulo

05 de outubro de 2020 | 05h00

A disparada do câmbio, em um cenário de fraqueza do mercado de trabalho e queda da renda dos brasileiros, pode tirar até R$ 1,8 bilhão das vendas de Natal deste ano. Se a projeção de retração, de 3% a 5% do volume de vendas, se confirmar, será a primeira queda em quatro anos na data mais importante do varejo, aponta a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).

Fabio Bentes, economista-chefe da CNC, acompanha o desempenho do câmbio e das vendas de Natal desde 2009. Ele lembra que, em anos de forte desvalorização do real, o comércio sente o baque. “O câmbio por si só não explica como vai ser Natal, mas que ele atrapalha quando há uma desvalorização forte do real, como a que temos hoje, não há dúvida.” 

Em 12 meses até setembro, o dólar subiu mais de 35% ante o real. O impacto da alta da moeda americana no varejo ocorre por meio da elevação dos preços ao consumidor. O dólar alto pressiona custos de insumos, componentes e matérias-primas. Essa pressão ocorre especialmente agora, após a freada abrupta que houve no segundo trimestre pela pandemia da covid-19, com a atividade econômica está sendo retomada.

O repasse de custos para o varejo já aparece em vários produtos, embora não seja generalizado a ponto de colocar a inflação em risco. Neste ano até agosto, o preço ao consumidor da TV e do computador pessoal, por exemplo, já subiu 11,58% e 16,9%, respectivamente, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Esses itens levam muitos componentes importados. 

Outros, como tinta de parede, que ficou 5,77% mais cara no mesmo período, pneu (5,5%) e tecidos (2,95%) têm forte relação com matérias-primas cotadas em dólar no mercado internacional – como derivados de petróleo, borracha e algodão.

O economista da Fundação Getulio Vargas (FGV) André Braz ressalta que o Natal deste ano será mais magro, além do câmbio, pela queda na renda do consumidor. “A crise vai limitar a compra de bens duráveis. Na época do ano mais esperada pelo comércio, os produtos estão mais caros e o consumidor, com menos recursos. Celulares e computadores também subiram de preço pelo aumento da demanda com o home office.”

Falta de insumos

“A variação cambial é uma dor de cabeça”, admite José Jorge do Nascimento, presidente da Eletros (que reúne os fabricantes de eletrodomésticos e eletroeletrônicos). Ele lembra que os eletrônicos levam componentes importados e eletrodomésticos e eletroportáteis têm aço e plásticos, cujos preços subiram, em média, 20%. Ele diz que a maioria dos fabricantes tem de repassar a alta para o preço. “Integralmente não, absorvemos uma parte.”

O economista do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), Rafael Cagnin, lembra que a alta dos custos na indústria também ocorrem por que os diferentes segmentos terem voltando em ritmo irregular. “Como a indústria tem absorvido parte do aumento de custos, houve redução da margem de lucro. O risco é de uma alta do endividamento das empresas.”

Para 75% das empresas, a desvalorização cambial é o principal fator que gerou aumento de custos de componentes e matérias-primas, segundo sondagem de agosto da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee), que reúne os fabricantes de equipamentos e componentes elétricos, para diversos setores industriais. “Ninguém esperava a volta tão rápida da atividade, e os fornecedores estrangeiros aumentaram os preços”, segundo o presidente da Abinee, Humberto Barbato. Ele diz que os aumentos para resina plástica e cobre variam entre 30% e 40%.

Na indústria química, a história se repete. Fátima Giovanna Coviello Ferreira, diretora de Economia da Abiquim, também se surpreendeu com a velocidade da recuperação. A indústria química é base de inúmeras cadeias de produção. “Não é só recomposição de estoques, tem aumento real da demanda, mas não sabemos se é sustentável.”

A escassez de insumos, como aço, cobre e embalagens, inclusive de papelão, preocupa fabricantes de eletrodomésticos, eletrônicos de consumo e químicos. Indústrias de porte médio, com menor poder de negociação, são as que mais sentem a falta de insumos. “Há fabricantes de linha branca e portáteis que podem parar até o fim do mês por falta de insumos”, alerta o presidente da Eletros, José Jorge do Nascimento.

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