Comércio à moda antiga predomina no Recôncavo

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Comércio à moda antiga predomina no Recôncavo

Santo Antônio de Jesus atrai consumidores de 47 cidades com uma das maiores feiras; nas lojas, o velho carnê dos varejistas é o pilar das vendas

Márcia De Chiara, O Estado de S. Paulo

15 de agosto de 2015 | 21h00

SANTO ANTÔNIO DE JESUS (BA) - São seis horas da manhã em Santo Antônio de Jesus (BA) e a feira livre, que vende de alimentos a confecções, está a todo vapor. Já foi melhor seis meses atrás, quando a crise não era tão aguda e a unidade de Paraguaçu do Estaleiro Enseada, em Maragogipe, a 70 km dali, não tinha demitido 5 mil trabalhadores em razão da Operação Lava Jato.

Mas quarta-feira é um dia forte de feira, sobretudo para quem vende roupas. Frank Batista saiu às três e meia da madrugada de Feira de Santana, a cerca 100 km, e veio com o patrão para animar a clientela da barraca onde trabalha. E ele faz de tudo para chamar atenção. Estoura o saco de roupas no chão e provoca uma explosão. Depois sobe em cima da banca e joga as peças. São blusas, camisetas, vestidos espalhados por todos os lados. Algumas peças arremessadas sobre os clientes, outras espalhadas pelo chão nada limpo. Mas isso não importa. Como em toda boa feira, trocadilhos, músicas inventadas animam a performance. “As pessoas animadas gastam mais”, diz Batista, que há dez anos tem esse trabalho.

Assim como Batista, os comerciantes, sejam ambulantes, feirantes ou estabelecidos em grandes lojas no comércio de rua ou no shopping center, se multiplicam pela cidade. Na década de 80, a associação comercial lançou o slogan “Santo Antônio de Jesus: o comércio mais barato da Bahia” e a fama pegou. “Não deixamos a venda sair da cidade”, conta Herivaldo Nery, vice-presidente do sindicato patronal do comércio varejista. Faz 30 anos que os lojistas optaram por cortar margens, negociar mais com os fornecedores para ganhar nas quantidades vendidas. “Aqui ninguém explora preço.”

Outra característica do varejo local é o crediário com recursos dos próprios lojistas. Na Comercial São Luis, fundada em 1941 – a loja mais antiga de departamentos da Bahia –, o carnê responde por 45% das vendas de 25 mil itens: do tijolo ao celular.

De fora. “Aqui o comércio é à moda antiga”, diz Keila Brandão, gerente executiva. Cerca de 40% dos 14 mil clientes ativos do carnê, a maioria da classe C, são de fora. Na verdade, a população dessa pequena cidade de 100 mil habitantes encravada no Recôncavo Baiano chega a dobrar diariamente. Esse contingente, vindo de 47 municípios nas redondezas de Santo Antônio de Jesus, é atraído pelo comércio local, pelo serviço médico – são 40 clínicas instaladas no shopping center e 4 hospitais –, pelas quatro universidades e até por serviços básicos, como emissão de carteira de identidade.

Edmunda dos Santos, de 81 anos, e o marido Josezito dos Santos, de 76 anos, moradores da área rural do município vizinho de Amargosa, pegaram uma lotação às quatro horas da manhã para ir ao shopping center em São Antônio para renovar a carteira de identidade. “Venho sempre aqui para consulta médica”, conta a aposentada, que aproveitou para fazer uma pausa na frente de loja de grife no shopping.

Polo. A localização estratégica faz de Santo Antônio de Jesus um polo de convergência regional de três rodovias: a BR-101 que liga a Salvador; a BA-046 que é a conexão até Itaparica; e a BA-026, que é ligação com as cidades localizadas a oeste do município. Também a perspectiva da construção de uma ponte ligando Itaparica a Salvador amplia a posição estratégica da cidade. É que a ponte encurtará o escoamento de mercadorias pelo Porto de Salvador.

Atualmente, a população flutuante da cidade movimenta o comércio local que já respondeu no passado por 95% do PIB do município de R$ 1,147 bilhão. Mas nos últimos tempos cresceu a fatia da indústria. “O distrito industrial ficou pequeno”, diz Maria da Conceição Gonzalez, gerente da Superintendência de Desenvolvimento Industrial da Bahia. Até dezembro, um novo distrito será inaugurado. Com 440 mil m² e capacidade para 40 indústrias, há 9 empresas com processos em andamento para se instalar no polo em troca de benefícios fiscais. Há também mais 15 empresas interessadas.

Fora do distrito, os investimentos não param. A farmacêutica Natulab investiu R$ 130 milhões na segunda fábrica, com a geração de 300 empregos. A gaúcha Ramarim, de calçados, acaba de inaugurar uma indústria com 300 empregos. E a Bahia Vidros investiu R$ 11 milhões em máquinas para modernizar a linha de produção. 

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