Comércio antecipa tendência de corte de juros

O comércio já está antecipando a tendência de queda nos juros que provavelmente deverá ocorrer na taxa básica (Selic) a partir do segundo trimestre deste ano. Em janeiro, pelo sexto mês consecutivo, os juros cobrados do consumidor pelas lojas recuou ante o período imediatamente anterior. No mês passado, a taxa média mensal do crediário do comércio estava em 6,70%, ante 6,72% em dezembro, segundo pesquisa da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac)."Desde julho, as lojas gradualmente estão cortando os juros", observa o vice-presidente da Anefac, Miguel Ribeiro de Oliveira. De acordo com a mesma pesquisa, cuja amostra é formada por cerca de 12 mil anúncios das lojas em jornais, em julho do ano passado, a taxa média do crediário do comércio era de 6,88%. Na análise de Ribeiro de Oliveira, essa redução contínua, desde a metade do ano passado, revela que a precaução dos consumidores em assumir dívidas fez com que as lojas cortassem os encargos financeiros para impulsionar as vendas.A tendência, segundo o vice-presidente de Anefac, é que esse comportamento se espalhe para outras linhas de financiamento nos próximos meses. Ele fundamenta esse prognóstico apontando vários fatores para isso. O principal argumento é que a conjuntura econômica mudou. Com o fim do racionamento de energia, uma provável solução para crise na Argentina e o dólar menos pressionado, as empresas devem voltar a contratar e o ritmo de atividade deverá crescer no curto prazo. Com isso, o risco de inadimplência diminui e abre-se espaço para corte nos juros.Outro fator crucial para o recuo dos encargos financeiros é a perspectiva de queda para a taxa Selic, hoje em 19% ao ano, ressalta Ribeiro de Oliveira. Ainda que essa tendência não se concretize na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) marcada para a semana que vem, por causa do conservadorismo que tem predominado nas decisões das autoridades monetárias, há economistas que acreditam que o corte virá assim que índices de inflação apontarem, de forma consistente, a desaceleração nos preços.Outro indicador de que a conjuntura mudou é que os prazos do crediário para compra de bens duráveis tiveram uma pequena ampliação em janeiro. Depois de nove meses de estabilidade, o parcelamento máximo para compra de veículos que havia fechado dezembro em 48 meses foi ampliado para 50 meses em janeiro. Já o prazo médio para compra financiada de outros bens, que estava em dezembro em 11 meses, passou para 12 meses em janeiro, segundo pesquisa da Anefac.Bancos e FinanceirasEnquanto as lojas cortam os juros, as financeiras e os bancos fazem movimento inverso. Pesquisa da Fundação Procon-SP divulgada ontem mostra que os juros médios dos empréstimos pessoais pesquisados junto a 14 bancos subiram de 5,43% em janeiro para 5,53% no início deste mês. No cheque especial, houve apenas um ajuste técnico nas taxas cobradas pelas instituições financeiras no período: os encargos médios estavam em 8,90% ao mês em janeiro e passaram para 8,91% em fevereiro. "O consumidor deve ter cuidado ao assumir empréstimos pessoais", adverte a técnica de Estudos e Pesquisas do Procon-SP, Rosana Piccoli dos Santos (veja mais informações no link abaixo).A pesquisa da Anefac confirma que as financeiras e os bancos estão tendo comportamento diferente das lojas neste início de ano. De dezembro para janeiro, os juros médios nos empréstimos pessoais concedidos pelos bancos passaram de 5,07% para 5,27% ao mês, respectivamente. Nas linhas de empréstimos pessoais ofertadas pelas financeiras, o acréscimo nos juros foi ainda maior. A taxa que estava em 11,67% em dezembro passou para 11,89% em janeiro, com alta de 0,22 ponto porcentual.Segundo Ribeiro de Oliveira, o aumento das taxas das financeiras e dos bancos nessas duas linhas de financiamentos, apesar de a taxa Selic continuar estável, é sazonal. O aumento resulta da maior procura por empréstimos pessoais nesta época porque o consumidor geralmente precisa de um reforço no orçamento para bancar despesas extras com impostos no início do ano. O outro fator é o acréscimo da inadimplência que normalmente ocorre no primeiro bimestre. Por causa disso, as instituições aumentam as taxas para embutir esse risco.

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