EFE/Michael Reynolds
EFE/Michael Reynolds

Comércio com EUA é equilibrado e é difícil saber que produtos seriam alvos de ataque, diz CNA

Após declarações de Trump de que o Brasil é um dos mais duros do mundo para fazer negócios, a entidade realizou um levantamento sobre o comércio bilateral

Lu Aiko Otta, O Estado de S.Paulo

03 Outubro 2018 | 20h42

BRASÍLIA - O Brasil tem uma relação comercial equilibrada com os Estados Unidos e é difícil saber sobre quais produtos agrícolas a administração de Donald Trump poderia adotar eventuais medidas de restrição, após sua crítica à dificuldade de fazer negócios no Brasil. A avaliação é da superintendente de Relações Internacionais da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Lígia Dutra.

“Onde ele pode adotar medidas, não se sabe”, explicou. “Foi apenas uma frase no meio a uma manifestação que reflete a dificuldade de se fazer negócios no Brasil, o que é verdade.”

Após as declarações do presidente dos EUA, de que o Brasil é um dos mais duros do mundo para fazer negócios, a entidade realizou um levantamento sobre o comércio bilateral. Os dados mostram que, nos produtos agrícolas, o País mantém superávits há pelo menos duas décadas, variando de US$ 2,21 bilhões em 1998 a US$ 6,51 bilhões em 2006.

“O Brasil é muito competitivo em produtos agrícolas, por isso é natural haver superávit”, comentou. Nesse recorte, a balança é favorável ao Brasil também na relação com os demais parceiros comerciais. Ou seja, não é um desequilíbrio exclusivo do comércio com os EUA.

Além disso, o saldo é considerado residual, perto do tamanho das trocas comerciais realizadas entre os dois países. No ano passado, a soma das importações e exportações realizadas entre os dois países somaram US$ 51 bilhões.

“É uma relação equilibrada e eles são nosso segundo parceiro comercial”, frisou. “Há trocas em todos os ramos da produção.”

Justamente por causa do tamanho do comércio, problemas pontuais se acumulam de lado a lado. O Brasil enfrenta barreiras para exportar produtos agrícolas para os EUA. A tarifa cobrada sobre carnes chega a 26,4%, enquanto os produtos lácteos pagam 73,5% e o tabaco, 350%. “Só tem problema quem tem comércio”, disse. Ela, porém, considera “prematuro” dizer que, por causa da afirmação de Trump, esses problemas vão crescer.

Pelo contrário, os dois governos têm trabalhado há alguns anos numa agenda com medidas para melhorar o ambiente de negócios e do comércio bilateral. Eles estudam, por exemplo, a adoção de um certificado fitossanitário eletrônico, batizado de “e-fito”, que vai tornar mais rápido o desembaraço de produtos agropecuários.

Porém, os casos que envolvem tarifas poderiam ser resolvidos via Organização Mundial do Comércio (OMC) ou com a adoção de um acordo comercial, que ainda não existe. “Está aí uma questão para o próximo presidente”, comentou Lígia.

A pequena quantidade de acordos comerciais do Brasil faz com que os produtores paguem tarifas mais elevadas que seus concorrentes em diversos mercados. Ela também corrobora a afirmação de Trump que o País é fechado ao comércio.

Segundo a CNA, a tarifa média cobrada aqui é de 13,4%, ante 3,4% nos Estados Unidos. Além disso, o Brasil taxa a importação de insumos. Os fertilizantes, por exemplo, pagam uma tarifa de 6%, enquanto nos EUA ela é zero.

“Que o Brasil é um país fechado, isso é fato”, disse o vice-presidente da Sociedade Rural Brasileira, Pedro de Camargo Neto. “Mas a gente importa muito deles.”

A guerra comercial entre a China e os Estados Unidos, por outro lado, tem criado problemas reais para o Brasil. A briga provocou uma elevação do preço da soja, o que elevou o custo da ração usada na avicultura.

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