Alejandro Pagni/AFP
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Comércio do Brasil com Argentina recua ao nível de 2009

Três dias após Cristina Kirchner voltar da China, onde fechou 15 acordos, chanceler brasileiro chega à Argentina para negociar

Rodrigo Cavalheiro, correspondente, O Estado de S. Paulo

09 Fevereiro 2015 | 21h24

O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, chega nesta terça-feira, 10, à Argentina para articular com a cúpula econômica kirchnerista uma difícil reaproximação comercial com o Brasil. Em janeiro, a troca comercial entre os dois países foi a pior em seis anos. 

A visita ocorre três dias depois de a presidente Cristina Kirchner voltar da China com 15 acordos, estimados em US$ 21 bilhões, que incluem financiamentos capazes de engordar as reservas argentinas, em troca de privilégios legais e burocráticos que, segundo analistas, afetarão o intercâmbio entre os vizinhos sul-americanos.

Vieira foi durante seis anos embaixador na Argentina, até 2010. Embora o intercâmbio comercial não seja o único tema de sua visita, é o mais urgente. Segundo a consultoria argentina Abeceb, a queda de 25,3% no comércio bilateral no primeiro mês do ano, em relação ao mesmo período do ano passado, levou o volume de negócios mensal a U$S 1,6 bilhão, nível mais baixo desde janeiro de 2009. 

Tábua de salvação. “A China é uma tábua de salvação para Argentina, que está numa situação mais difícil do que a do Brasil. Temos problema de falta de dólares. Por isso essa decisão de restringir as importações do Brasil e de todo o mundo. A situação é tão grave que fizemos importações de produtores brasileiros que não pagamos”, afirma o economista Mauricio Claverí, coordenador de Comércio e Negociações Internacionais da Abeceb.

O Brasil fechou o mês passado com mais de 1,2 mil Declarações de Importação Antecipadas (DJAIs) pendentes de aprovação pelo governo argentino, o que atingiu praticamente todas as exportações brasileiras e explica a baixa histórica. A medida faz parte de uma estratégia argentina para controlar a saída de dólares, já que o país tem dificuldade em obter divisas. Enquanto no câmbio oficial o dólar é vendido a 8,5 pesos, no paralelo chega a 13,5 pesos. Ao segurar a liberação da moeda para que os importadores paguem os produtos comprados no Brasil, ocorre o atraso no pagamento mencionado por Claverí.

Segundo o economista, o financiamento chinês deu oxigênio ao governo, depois de o país ter tentado financiamento brasileiro. “Essa aliança política e econômica tem um custo para o Brasil, por uma série de benefícios que vão para os chineses. Nas licitações para infraestrutura, sejam portos ou construções navais, haverá favorecimento dos chineses. Há parte do acordo que prevê até a dispensa de licitação, além da redução da burocracia”, acrescenta Claverí. 

Vale. Numa das reuniões com os chineses, Cristina disse esperar que eles invistam nas jazidas de potássio da região de Mendoza, das quais se desligou a brasileira Vale. Também pediu investimentos na extração de lítio, cobre e outro minerais.

Para especialistas, o tipo de troca estabelecido, de matérias-primas por manufaturas, leva ao risco de “reprimarizar” a economia regional. “A relação argentina com a China deveria ser coordenada com o Brasil, como houve em missões binacionais em 2002 e 2003. Está claro que é preciso se relacionar com a China, isso não é uma opção, pois o mercado europeu caiu e há instabilidade geral. Mas isso deveria ser feito em conjunto, como bloco Mercosul, ou estamos fritos”, diz Alejandro Bercovich, professor de macroeconomia na Universidade de Buenos Aires (UBA).

O economista Ariel Slipak, também da UBA, dedica-se a estudar a relação entre China e Argentina e o perfil dos investimentos chineses na América Latina em geral. Ele ressalta que há desequilíbrio nas negociações envolvendo chineses desde o momento em que eles se apresentam como emergentes para conseguir vantagens em relação às potências ocidentais. 

Condições. Os números superlativos se refletem ainda mais nas condições quando os parceiros estão em desenvolvimento. “A China como financiadora exige condições especiais. Reforma a ferrovia que passa por 70% do território argentino, mas os vagões têm de ser comprados lá, até componentes que são feitos no Brasil e na Argentina. De alguma maneira, pode coagir os países a contratar chineses”, diz Slipak. 

Segundo ele, embora isso incomode o Brasil neste momento - parte da imprensa argentina usou o termo “irritação” para definir a visão brasileira da ida de Cristina a Pequim -, a Argentina também perde. “A subordinação dos dois países, em razão dessas assimetrias, desarticula a industrialização regional. Os chineses, em 90%, querem produtos primários, com petróleo cru, minerais ou soja”, acrescenta, salientando que os vizinhos latino-americanos perdem de investir na produção de tecnologia de média e alta complexidade. 

“Não há expansão de fábricas porque os dois países cometem os mesmos erros.”

Durante seus dois dias na Argentina, Vieira tem encontros com o chanceler argentino, Héctor Timerman, o ministro da Economia, Axel Kicillof, a ministra da Indústria, Débora Giorgi, e o titular do Planejamento, Julio de Vido. Há possibilidade de uma audiência com a presidente Cristina Kirchner.

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