ALEX SILVA/ESTADÃO
Em dois anos, o comércio encolheu em mais de 200 mil lojas e quase 360 mil empregos  ALEX SILVA/ESTADÃO

Comércio fechou 108,7 mil lojas e cortou 182 mil vagas no ano passado

2016 foi o pior ano da história do varejo, com números recordes de fechamento de lojas, demissões e retração de vendas, mostra estudo da Confederação Nacional do Comércio, com base nos dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados

Márcia De Chiara, O Estado de S. Paulo

13 de fevereiro de 2017 | 05h00

SÃO PAULO - O comércio varejista brasileiro teve o pior ano da sua história em 2016. O setor bateu recordes de fechamento de lojas, de demissões e de queda nas vendas. Entre aberturas e fechamentos, 108,7 mil lojas formais encerraram as atividades no País no ano passado e 182 mil trabalhadores foram demitidos, descontadas as admissões do período, revela um estudo da Confederação Nacional do Comércio (CNC). O ano superou os resultados negativos de 2015 tanto na quantidade de lojas desativadas como em vagas fechadas. Em dois anos, o comércio encolheu em mais de 200 mil lojas e quase 360 mil empregos diretos.

“Foram três recordes negativos em 2016”, ressalta Fabio Bentes, economista da CNC e responsável pelo estudo, feito a partir de dados das empresas informantes do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged). O tombo nas vendas até novembro, o último dado disponível do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, foi de 8,8% no ano e de 9,1% em 12 meses para o comércio ampliado, que inclui veículos e materiais de construção (o IBGE divulga os números finais do varejo brasileiro amanhã). Como o Natal, a principal data para o varejo, foi fraco, a chance de se ter atingido no fechamento do ano um resultado menos pior que obtido até agora é pequena.

Bentes observa que, dos três recordes negativos, o mais dramático e preocupante, na sua opinião, é o de fechamento de lojas. “O comerciante só fecha loja quando está desesperançoso com a situação e não volta abrir tão cedo.”

O desânimo do varejo é visível nas ruas de comércio sofisticado e popular. É grande o número de lojas fechadas com placas de aluga-se. “O que chama a atenção é que as placas de aluga-se não eram comuns nos Jardins”, diz Jamile Ribeiro, coordenadora de marketing da Associação de Lojistas dos Jardins, reduto de lojas de luxo da capital paulista.

A situação não é diferente nas ruas do Bom Retiro, bairro paulistano que reúne lojas de confecção. “Nos últimos dois anos, 10% das lojas fecharam por causa da crise”, observa a secretária executiva da Câmara dos Dirigentes Lojistas do Bom Retiro, Kelly Cristina Lopes.

Chaim Wolf Piernikarz, conhecido como Jaime, dono da imobiliária JAB Imóveis e corretor há mais de 50 anos na região, diz que a vacância na rua José Paulino, a principal do bairro, é de 40%, o aluguel caiu 30% e não há mais luvas, a comissão pelo ponto na hora da locação.

O estudo da CNC mostra que de dez segmentos do varejo analisados, todos fecharam mais lojas do que abriram no ano passado. Depois dos hipermercados e supermercados, as lojas de artigos de vestuário e calçados foram as que mais sofreram com a crise. Em 2016, 20,5 mil fecharam as portas no País, descontadas as inaugurações. A Lojas Marisa, por exemplo, fechou cinco lojas em 2016 e abriu uma. A direção da rede, que tem hoje quase 400 lojas, diz que avalia neste ano se vale a pena manter a operação de 20 pontos de venda.

Setores movidos a crédito, como revendas de automóveis, móveis e eletrônicos diminuíram o número de pontos de vendas. A Via Varejo, dona da Casas Bahia e do Ponto Frio, por exemplo, fechou 23 lojas de janeiro de 2015 a setembro de 2016.

2017. Para Bentes, da CNC, o varejo em 2016 bateu no fundo do poço e dificilmente neste ano vai repetir números tão negativos. A tendência para 2017 é de estabilização dos números de lojas, empregados e faturamento, diz ele, ponderando que o primeiro semestre não será fácil. “Saímos de um furacão para uma tempestade tropical”, compara. Desaceleração da inflação e queda dos juros jogam a favor do consumo, aponta.

Eduardo Terra, presidente da Sociedade Brasileira de Varejo e Consumo, concorda com Bentes, mas ressalta que o desafio para o varejo voltar a crescer é a retomada do emprego.

De toda forma, apesar do resultado ruim dos últimos dois anos – distante de 2010, quando o varejo cresceu 11,3%, gerou mais de meio milhão de vagas e abriu 82 mil lojas –, Terra acredita que esse enxugamento será positivo no médio prazo. As empresas que continuarem operando, porém com uma estrutura menor, voltarão a apresentar melhores resultados.

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Seta fecha mais da metade das 50 lojas

Ajuste foi forte no setor de supermercado, abalado pela alta da inflação de alimentos

Márcia De Chiara, Estadão

13 de fevereiro de 2017 | 05h00

Afetados pela disparada da inflação de alimentos e pela queda na renda, a crise no varejo bateu forte nos hipermercados e supermercados. Em 2016 esse segmento respondeu por quase um terço das lojas fechadas, segundo estudo da Confederação Nacional do Comércio (CNC). Entre abertura e fechamento de lojas, o saldo ficou negativo em 34,7 mil pontos de venda no ano passado. “Por dois anos seguidos (2015 e 2016) os hipermercados e os supermercados lideraram o fechamentos de lojas”, diz o economista da CNC, Fabio Bentes. Em dois anos foram 62 mil lojas desativadas.

Ao que tudo indica, o ajuste desse segmento continua. No início deste mês, o Grupo Seta, que tinha 50 lojas de atacarejo nos Estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Amazonas, fechou 28 lojas. Só na cidade de São Paulo foram encerradas sete lojas e demitidos 1.180 trabalhadores, segundo Josimar Andrade, diretor do Sindicato dos Comerciários de São Paulo.

A empresa confirma o fechamentos de lojas, mas não o de demitidos. Por meio de nota, a companhia explica que o grupo, que começou as atividades em 2008, teve uma expansão rápida, mas dependente do crédito. Com as restrições nos empréstimos bancários por causa da crise, a empresa teve de reduzir a operação para se reorganizar.

O ajuste da operação atingiu neste começo também o Walmart, uma das maiores empresas do segmento do varejo de alimentos do País. A varejista fechou cinco supermercados, a maioria no Sul. A empresa informa, por meio de nota, que “revisa constantemente seu portfólio de lojas, podendo fechar unidades que não apresentem desempenho satisfatório”.

Tamanho.  Apesar de a crise ter reduzido drasticamente o número de lojas do varejo como um todo, foram as pequenas empresas que sentiram mais o baque e fizeram o maior enxugamento, muitas delas para sobreviver. De acordo com o estudo da CNC, das 108,7 mil lojas fechadas no ano passado, 39,6 mil foram no pequeno varejo.

O Grupo Nayara Cruz, especializado em vestido de festa e moda feminina para senhoras, tinha, por exemplo, nove imóveis alugados no bairro paulistano do Bom Retiro e empregava 70 pessoas. Hoje são seis imóveis locados para loja, confecção e estoque e 50 funcionários.

“Esta loja era geminada com a do lado. Entreguei a do lado e reduzi esta aqui. Isso diminuiu bastante o custo e também o número de funcionários”, explica a dona da empresa Meire Araujo Cruz. O ajuste aconteceu nos dois últimos anos, quando as vendas começaram a cair. Em 2015, a queda foi de 10% a 15% e no ano passado, entre 20% e 30%. Há 18 anos no mercado, a empresária diz que 2016 foi o pior ano da empresa. “Nunca tinha visto loja fechada na rua José Paulino”, observa.

O ajuste foi necessário, diz Meire, para manter a empresa funcionando, mesmo sem ter lucro. Segundo a empresária, o lado positivo desse ajuste foi que se começou a dar valor ao corte de pequenas despesas para reduzir custos. “Tudo olhamos hoje de forma diferente, pois temos que sobreviver.”

 

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