Edgar Su/Reuters
Edgar Su/Reuters

Comércio internacional terá pior crescimento desde auge da crise econômica mundial

Segundo OMC, aprofundamento da recessão no Brasil levará América do Sul a registrar pior queda de importações no mundo; mas exportações devem subir acima da média mundial, graças ao câmbio

Jamil Chade, correspondente, O Estado de S. Paulo

27 Setembro 2016 | 07h55

GENEBRA - O comércio mundial terá em 2016 seu pior ano desde o auge da crise financeira internacional, em 2009. A previsão foi publicada na manhã desta terça-feira, 27, pela Organização Mundial do Comércio (OMC), que aponta a crise no Brasil como um dos fatores negativos do cenário internacional. A entidade também ressalta que, diante do "aprofundamento da recessão" no País, a América do Sul deve registrar neste ano a pior queda em importações em todo o mundo. Mas, no lado das exportações, a projeção aponta para a maior expansão entre todos os continentes. 

Para 2016, a nova previsão é de que o comércio internacional tenha um aumento de apenas 1,7%. Em abril, a perspectiva da OMC era de uma expansão de 2,8%. Para 2017, os economistas também fizeram uma revisão para baixo na taxa de crescimento do comércio, indicando que os volumes irão aumentar entre 1,8% e 3,1%. Em abril, a aposta era de uma expansão de 3,6%.

Um dos fatores nesse cálculo de 2016 é o crescimento baixo do PIB mundial, de apenas 2,2% no ano. A decisão da OMC em recalcular a expansão ocorreu depois de um primeiro trimestre mais negativo do que se esperava. Além disso, para o segundo trimestre do ano, a recuperação foi praticamente nula. 

O Brasil, na avaliação da entidade, teve um papel importante nesse cenário. "A contração foi levada pelo crescimento lento do PIB e de comércio em economias em desenvolvimento como China e Brasil, mas também na América do Norte", indicou. 

Segundo a OMC, desde a primeira previsão publicada em abril "alguns riscos importantes se materializaram", especialmente um período de turbulência financeira que afetou a China e outros emergentes. 

No que se refere à importação dos emergentes, a taxa sofreu uma contração de 3,2% no primeiro trimestre, com uma recuperação apenas parcial no segundo trimestre do ano. Já as economias ricas tiveram uma estagnação nas importações no primeiro semestre. O resultado também foi uma estagnação nas compras mundiais, tendo um impacto direto da exportação de países. 

De uma forma geral, as exportações de países desenvolvidos devem superar a das economias emergentes, com expansão de 2,1% contra 1,2% para o segundo grupo. Na importação, os emergentes devem ter um crescimento mínimo de 0,4%, comparado com 2,6% nos países ricos. Essa é uma mudança profunda no perfil dos dois grupos. Desde a crise mundial, foram os emergentes que assumiram o papel de motor do crescimento do comércio, modelo que se esgotou.

Brasil 

Na América do Sul, a avaliação é negativa quanto às importações. "A maior revisão para baixo na importação em comparação à análise de abril de 2016 ocorreu na América do Sul, à medida que a recessão no Brasil se intensificou", alertou a OMC. Em abril, a previsão era de uma contração de 4,5%. Agora, ela chega a 8,3%, a maior entre todas as regiões do mundo.

Se a crise está afetando as importações, a OMC projeta exportações maiores para a América do Sul em 2016. A previsão agora é de que as vendas da região aumentem em 4,4% no ano, comparado com uma projeção inicial de apenas 1,9%. De acordo com a entidade, a região irá se beneficiar das taxas de câmbio favoráveis. 

O crescimento será o maior entre todas as regiões do mundo, inclusive com a perspectiva de que a expansão atinja 5% em 2017.

No restante do mundo, porém, a previsão é de um crescimento de exportações abaixo do esperado. Na Ásia, a taxa será de apenas 0,3%, contra 0,7% na América do Norte. 

Mas não foi apenas o Brasil que contaminou sua região. Na Ásia, as preocupações sobre a China levaram a uma contração de importações de 3,4% no primeiro trimestre. Para o restante do ano, a precisão é de um crescimento de 1,6%.

Já nos países ricos, uma revisão para baixo também foi feita para as importações. Mas, na Europa, ela aumentou de 3,2% em abril para 3,7%. 

2017

Para o restante do ano, a OMC prevê certa recuperação do comércio mundial. Mas insuficiente para compensar a queda inicial de 2016. A projeção positiva também é afetada por incertezas, incluindo a volatilidade financeira e a retórica anticomércio, cada vez mais forte. O Brexit também é outro fator que pode pesar.  

"A desaceleração dramática do comércio é séria e deve servir de um alerta", disse Roberto Azevedo, diretor-geral da OMC. "Isso é particularmente preocupante num contexto de um sentimento antiglobalização cada vez maior", disse. "Precisamos garantir que isso não seja traduzido em políticas equivocadas que podem fazer a situação ficar muito pior, não apenas da perspectiva de comércio, mas também para a criação de postos de trabalho e desenvolvimento", afirmou.

Azevedo, porém, admite que a comunidade internacional precisa garantir que os benefícios do comércio sejam compartilhados de forma mais ampla. "Precisa buscar construir um sistema comercial mais inclusivo, que apoie os países mais pobres", disse. Em sua visão, esse é o momento de olhar para as "lições da história" e voltar a se comprometer com a abertura comercial. 

Se confirmada a previsão, Azevedo indica que essa será a primeira vez em 15 anos que a proporção entre crescimento do PIB e do comércio ficará abaixo de 1 x 1. "Historicamente, o comércio cresceu acima da expansão do PIB. Essa relação, agora, é a mais baixa em 30 anos.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.