Mike Segar / Reuters
Mike Segar / Reuters

Comércio mundial fracassou em distribuir renda, admite agência da ONU

Brasil viu transferência de renda do comércio para o exterior e queda do valor adicionado

Jamil Chade, O Estado de S.Paulo

26 Setembro 2018 | 14h11

GENEBRA - A guerra tarifária que eclodiu entre EUA e China é um sintoma de uma crise mais profunda da economia mundial e do fracasso do sistema comercial em distribuir lucros. O alerta é da Unctad que, nesta quarta-feira, 26, publica seu informe anual e aponta que, dez anos depois do pior momento do capitalismo sete décadas, os desequilíbrios globais continuam mais fortes do que nunca. Os países emergentes, porém, devem ser os mais afetados diante da tensão entre Washington e Pequim.

Colocando por terra a versão vendida pelos promotores da abertura de fronteiras e derrubando um mantra defendido pela OMC, a agência da ONU aponta que o sistema comercial dos últimos 20 anos aumentou as desigualdades e fracassou em gerar desenvolvimento aos países mais pobres. Os ganhos do comércio ficaram com apenas um punhado de grandes empresas, com lucros maiores e salários cada vez mais deprimidos.

Agora, segundo eles, o combate de Donald Trump e dos projetos de reforma da OMC é para que o sucesso do modelo chinês não seja replicado pelo mundo em desenvolvimento.

Para mostrar que o atual sistema não funcionou para distribuir renda, a agência revela que apenas 1% das empresas que comercializam no mundo são responsáveis por seis de cada dez dólares movimentados pelas exportações. Em alguns países, apenas dez empresas movimentam 40% das exportações. Enquanto isso, pequenos exportadores não conseguem sobreviver. 75% deles desistem do mercado internacional em apenas dois anos.

O Brasil é um dos exemplos desse fracasso. De acordo com o informe, a produção manufatureira no País entre 2000 e 2014 transferiu renda para o exterior e viu o valor adicionado doméstico cair em 2 pontos percentuais nesse período.

De acordo com o levantamento, apenas dez empresas no Brasil são responsáveis por 28% das exportações nacionais. Os benefícios de uma maior exportação, porém, ficaram com trabalhadores com maiores graus de responsabilidade e nas sedes das empresas. Os investimentos diretos no Brasil, portanto, não trouxeram uma distribuição de renda aos trabalhadores do chão das fábricas, que viram sua participação nas exportações caírem.  “O Brasil precisa proteger salários e renda”, diz a Unctad, que acredita que esse seria o caminho para gerar uma economia menos vulnerável.

Na avaliação da entidade, existe uma desaceleração estrutural da economia mundial e isso não conseguiu ser superado, uma década depois da quebra do Lehman Brothers. “A economia mundial está sob pressão”, disse Mukhisa Kituyi, o secretário-geral da Unctad. Segundo ele, atrás da escalada tarifária que ameaçam a estabilidade global, o mundo precisa reconhecer “um fracasso mais amplo de lidar com as desigualdades e desequilíbrios”.

“A globalização não beneficiou a todos e as cadeias produtivas não distribuíram renda”, disse  o autor do informe, Richard Kozul-Wright. “Temos uma economia mundial muito frágil, as políticas fracassaram, salvamos bancos. Mas reforçamos o poder na mãos de poucos, enquanto os salários foram minados. As desigualdades não foram lidadas, enquanto os lucros atingiram níveis inéditos”, apontou.

O resultado, segundo ele, foi uma descrença em políticos tradicionais e a busca por soluções em grupos populistas, xenófobos e neofascistas. “Hoje, a desigualdade é maior, os bancos são maiores e as dívidas são maiores. Não por acaso, a ansiedade é maior e está se traduzindo na política em escolhas como Donald Trump”, disse.

Para a entidade, o G20 fracassou em lidar com os desequilíbrios, enquanto os governos e concentraram em aplicar medidas de austeridade. “O resultado é que temos economias mais frágeis e populações ainda mais frágeis”, disse.

Segundo a entidade, os últimos dez anos foram marcados por uma concentração ainda maior do poder nas mãos de apenas algumas grandes empresas, limitando a habilidade de países em desenvolvimento de também tirar proveito do sistema comercial ou das novas tecnologias.

O levantamento também mostra como, desde 2008, governos abriram mão de recursos domésticos de crescimento para depender do mercado internacional. O resultado é uma vulnerabilidade cada vez mais intensa. Hoje, o estoque da dívida global hoje é de US$ 250 trilhões, 50% superior aos níveis registrados no auge da crise, em 2008. Ela ainda é três vezes superior à economia mundial.

A dívida pública, sem estímulos para os investimentos, estaria criando uma nova bolha que ameaça uma vez mais a economia.

Guerra comercial deve afetar economias mais frágeis

Nesse contexto, o clima de guerra comercial é apenas um sintoma de um “sistema económico e de uma arquitetura multilateral degradada”, aponta Richard Kozul-Wright.

Mas, uma vez mais, serão os países mais vulneráveis os que mais sofrerão diante de um impacto nas cadeias produtivas, da incerteza e da queda dos investimentos.  Para as economias com sérios problemas financeiros, portanto, a nova crise pode ser particularmente negativa. 

“Para a América Latina, a incerteza é o maior impacto e não há fundamentação para pensar que a região vai ganhar em obter parte do mercado diante da guerra entre americanos e chineses”, disse o economista da Unctad, Alex Izurieta. Segundo ele, exportadores de ambos os lados vão ser compensados, inclusive com mais subsídios. “A América Latina não deveria ter esperanças de ficar com uma parcela desse mercado”, alertou.

Apesar dos ataques ao sistema, a Unctad acredita que o avanço do populismo e do protecionismo seria “trágico” para a economia global.  Ainda assim, ela explicita a necessidade de que governos repensem o comércio para garantir que haja uma renda mais justa a partir das exportações. A “hiperglobalização” a partir dos anos 90 não gerou resultados positivos para todos. “Mas nem um retrocesso a um nacionalismo nostálgico e nem uma abertura total de mercados poderiam dar uma resposta”, aponta.

“O livre comércio mostrou ser um instrumento ideológico que limitou o espaço para políticas públicas para países em desenvolvimento e cortou proteções a trabalhadores e pequenas empresas, em favor de grandes empresas”, disse a Unctad.

Se nos anos 90 as cadeias produtivas ganharam espaço e permitiram um crescimento rápido aos emergentes, a constatação hoje é de que elas tem deixado pouco valor adicionado aos países. A concentração da renda continua cada vez mais centrada no local onde se controla a cadeia produtiva, aprofundando a disparidade de renda nos países.

Na avaliação de Richard Kozul-Wright, o termo “acordo de livre comércio” é hoje uma “falácia”. “Ele não é livre, pois o objetivo é o de atar as mãos de pequenos empresários, trabalhadores e governos. Ele não sobre comércio, pois trata acima de tudo do movimento de capital. E, finalmente, eles não são acordos, já que são frutas de intenso lobby e pressão política, além de uma falta total de transparência e democracia”, diz.

Agência da ONU defende modelo chinês de desenvolvimento

Para a agência da ONU, o debate hoje contra as distorções criadas pela China no comércio é “desonesto”. Pelas propostas de reforma da OMC, novas regras seriam criadas para impedir que o setor industrial fosse subsidiado, para acabar com a diferenciação entre emergentes e países ricos e para controlar empresas estatais.

Sua avaliação é de que a reforma que se propõe hoje na OMC é “chocante”, já que visa acima de tudo impedir que o modelo de desenvolvimento chinês seja replicado em outros lugares do mundo. “Essa é uma forma perversa de reformar o sistema e matar a única história de sucesso entre os emergentes”, atacou. “Esse foi um modelo para eliminar a pobreza. Mas a luta é agora para que isso não se repita”, disse.

Os dados da Unctad revelam que, de fato, a China foi a única que se destacou em 20 anos. Sem a China, os Brics viram sua produção aumentar de 3,7% do total mundial em 1990 para 7,4% em 2016. Com Pequim no cálculo, a fatia sobe para 22,2%. Hoje, de cada US$ 10 exportados por emergentes, US$ 7 vem do Sudeste Asiático.

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