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Comércio, perdemos a luta?

O Brasil precisa, mas não consegue aumentar suas exportações além das matérias-primas e produtos básicos. É uma luta que vem perdendo nos últimos anos. Nesse cenário, o Brasil está desprotegido e ainda não encontrou o caminho certo. O déficit comercial de produtos industrializados deve passar de US$ 100 bilhões este ano

ALBERTO TAMER, O Estado de S.Paulo

26 de abril de 2012 | 03h05

Essas foram algumas das afirmações do professor da PUC-SP, Antônio Correa de Lacerda, doutor em economia e também colaborador regular do Estado, em palestra realizada na semana passada. Lacerda documentou sua análise com gráficos e quadros baseados em dados oficiais que mostram o atraso e as distorções do comércio exterior brasileiro. Uma aula de uma hora e meia que merece ser registrada pela coluna para esclarecimento dos leitores e analisada pela equipe econômica.

Lacerda não hesita em afirmar que "nesse cenário adverso, o protecionismo é o nome do jogo no curto prazo." Na verdade, diz ele, no caso do Brasil, é algo ainda muito tímido. Temos que fortalecer as defesas contra ações de outros países. "Esses, sim, usam desvalorização da moeda, subsídios na produção, controle do mercado interno e principalmente na exportação de seus produtos."

Heresia? Não, diz Lacerda. É uma adaptação tática às circunstâncias externas alheias ao campo de ação do Brasil. Excesso de liquidez, emissões de dólares, euros, juros negativos nos Estados Unidos e na Europa exigem defesas circunstâncias. Ou isso ou o Brasil continuará perdendo espaço na sua pequena participação no comércio mundial, hoje de apenas 1,2%. E terá de continuar dependendo excessivamente das exportações de commodities. A luta é árdua, mesmo porque, Estados Unidos e Europa, que respondem por quase 40% das exportações brasileiras, ainda não superaram as consequências da crise financeira.

É o cambio? Temos uma desvantagem cambial significativa, a valorização do real; o cambio é importante, representa 90% do desafio para o Brasil exportar. Isso se deve a fatores internos, sim, mas principalmente à desvalorização da moeda dos nossos parceiros comerciais, afirma Lacerda.

Onde está o problema? "O desafio continua sendo o de transformar nosso grande mercado consumidor em um fator de incremento da produção local. Os desempenhos do consumo e da produção continuam descompassados. Grande parte da demanda doméstica tem sido atendida pelas importações."

Há pontos estruturais relevantes para a competitividade sistêmica da economia brasileira. O elevado custo de insumos, como energia, por exemplo, infraestrutura e logística deficientes, carga tributária e custo de capital ainda muito altos são questões importantes.

"Todo e qualquer esforço de desoneração tributária, ou de folha de pagamento, embora possa ajudar, não vai mudar substancialmente nossa posição competitiva desfavorável", diz Lacerda. Para ele, as empresas pararam de reclamar da taxa de câmbio valorizada simplesmente porque passaram a produzir no exterior, ou substituíram parte do processo de produção por importados. "Isso é uma solução para as empresas do ponto de vista microeconômico, mas é péssimo para o País. O Brasil não pode se dar ao luxo de viver esse processo", afirma o professor da PUC."

Em 2011, ano em que a produção ficou praticamente estagnada ao crescer apenas 0,3% ante 2010, Lacerda avalia que os problemas estruturais do setor, tais como a alta carga tributária, a infraestrutura precária do País e os juros elevados, foram exacerbados pela crise internacional, que acabou por "desovar" no mercado doméstico o excesso de produtos de outras economias em desaceleração. De acordo com ele, a produção da indústria nacional está, hoje, em patamar pouco acima da de setembro de 2008, mês que precedeu o "mergulho" da crise gerada pelos efeitos da quebra do Lehman Brothers nos EUA e que contaminou a economia mundial.

O professor da PUC afirmou que o País passa por um processo de desindustrialização, que, ao contrário do que ocorre em países desenvolvidos, não é saudável. "O problema da desindustrialização é muito grave no estágio de desenvolvimento em que estamos. Há uma 'reprimarização' das nossas exportações. Não estou dizendo que o País tem que deixar de produzir commodities, mas isso não pode ocorrer em detrimento da indústria porque é insustentável", completou.

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