DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO
DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

Comércio segura repasse do câmbio

Queda nas vendas por causa da crise pesa mais do que a alta do dólar e lojas dão descontos de até 60% para girar os estoques

Márcia De Chiara, O Estado de S. Paulo

06 de agosto de 2015 | 21h48

A disparada da cotação do dólar e do euro em relação ao real, que à primeira vista levaria a uma alta de preços de importados, tornando esses produtos inacessíveis ao bolso do consumidor, não está se confirmando como se imaginava. Pressionados pela queda nas vendas por causa da crise, varejistas decidiram cortar o preço de itens importados ou repassar só parcialmente as altas de custos para se livrarem do encalhe. Também o fato de lojistas estrangeiros fecharem as portas no País engrossou o movimento de promoções de importados nas últimas semanas e os descontos bateram a casa de 60%. As barganhas vão de brinquedo ao carro zero-quilômetro.

A Lojas Riachuelo, por exemplo, onde 35% dos artigos de vestuário são importados, optou por segurar o repasse da alta do câmbio. “Estamos absorvendo a alta do câmbio e reduzindo as margens”, conta o presidente, Flávio Rocha. Ele observa que a decisão da empresa foi manter os descontos de até 60% da liquidação de inverno, que vai até o dia 11 deste mês, também para os importados. Diante desse quadro, Rocha vai reduzir a participação de importados nas próximas coleções.

“Estamos mais cautelosos nas quantidades encomendadas”, afirma Ana Maria Lopes, diretora da Casa Santa Luzia. Os itens importados representam 40% dos produtos da loja, especializada em alimentos e bebidas diferenciadas. Ela conta que repassou até agora metade da elevação do euro, já que a maioria dos importados vendidos vem da Europa. Para tentar impulsionar as vendas, Ana diz que intensificou negociações com fornecedores e, em alguns casos, até conseguiu cortar preço. Um exemplo é o queijo italiano Parmeggiano Reggiano. Em julho de 2014, o quilo custava R$ 146 e hoje sai por R$ 131.

Victor Jacques, dono ToyShow, loja que vende brinquedos, itens de decoração, camisas e miniaturas colecionáveis, todos importados, até tentou repassar a alta do câmbio. “Aumentamos em 25% os preços (a variação correspondente a alta de R$ 2,8 para R$ 3,5 do dólar), mas voltamos atrás.” Para evitar que as vendas caíssem, ele cortou em até 50% os preços. “Estamos com saldão até sábado na loja física e virtual.”

Ocasião. Foi exatamente para aproveitar a oportunidade de desconto nos importados que Angelina Elisa Carbone decidiu trocar de carro. Atraída por um desconto de R$ 9 mil, ela a adquiriu um Soul, da marca coreana Kia, por R$ 84 mil. “Fui atraída pelo bônus”, conta ela, que não pensava em trocar de carro agora. Angelina deu como parte de pagamento também um Soul ano 2012, com 12 mil quilômetros rodados, avaliado em R$ 43 mil. “Foi um bom preço.”

José Luiz Gandini, presidente da Kia no Brasil, diz que as vendas da marca em número de unidades caíram 29% no 1.º semestre deste ano em relação ao mesmo período de 2014. Os estoques da marca equivalem a 65 dias de vendas. Em períodos normais oscilam entre 35 e 40 dias. “Não repassamos a alta do câmbio porque o poder de compra do consumidor está defasado.” Segundo ele, não é possível subir preço nem dos modelos de luxo. 

Um exemplo é o Sportage, 2.0, vendido por R$ 98,9 mil, com desconto de R$ 5 mil. Atualizado pela cotação do dólar o valor do carro seria de R$ 117 mil. “A alta do dólar só veio coroar um período de vendas fracas”, diz Marcel Visconde, presidente da Abeifa, que reúne 17 marcas de carros importados.

De volta para casa. Além da alta do dólar e do euro - que tiveram valorização em 2015 de 33,4% e 19,7%, respectivamente, ante o real - ter complicado a vida de varejistas nacionais, também houve impactos sobre os negócios de lojistas estrangeiros instalados no País. 

A Zucchi, por exemplo, marca italiana líder na Europa em artigos de cama, mesa e banho para os mais ricos, com faturamento de € 135 milhões, fechou a última das quatro lojas que tinha no Brasil. Segundo seu diretor, Basilio Mandara, em quatro anos foram investidos R$ 14 milhões, mas a projeção de vendas não se confirmou, afetada pela Copa, pela crise e, finalmente, pelo câmbio. Para entregar os pontos, a empresa fez uma liquidação com descontos de até 70%.

A Kate Spade New York é outra que está deixando o País. A rede de moda feminina, que trabalha com 100% de importados, dá desconto de até 60% para alguns itens, mas não atribui o corte de preço ao fechamento das sete lojas. Quanto ao motivo da saída, alega que é “estratégia de operação da marca”.

Tudo o que sabemos sobre:
varejocâmbio

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.