Comida que vai pro lixo

Ações

Empresas de Eike disparam na bolsa após fim de recuperação judicial da OSX

Imagem Celso Ming
Colunista
Celso Ming
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Comida que vai pro lixo

Entre 25% e 35% dos alimentos produzidos no mundo se perdem ou são desperdiçados todos os anos, segundo dados FAO; no Brasil, apesar do cenário semelhante, o problema das perdas já começa em sua mensuração

Celso Ming e Amanda Pupo, O Estado de S.Paulo

07 de setembro de 2017 | 21h00

O desperdício de alimentos ao longo de toda a cadeia produtiva é uma deficiência grave da economia e um rombo enorme por onde tanta gente perde dinheiro. Se hoje quase ninguém dá importância para isso é porque o problema é mais generalizado do que se pensa.

Entre 25% e 35% dos alimentos produzidos no mundo se perdem ou são desperdiçados todos os anos. São dados da FAO, organismo das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação. É um número alto demais, também responsável pela fome de muitos e, mais que tudo, uma irresponsabilidade.


O Brasil não mostra números melhores do que esses. Infelizmente, é quase tudo que se pode afirmar a respeito da quantidade de comida jogada fora ao longo do processo, que vai da colheita às gôndolas dos mercados, e termina no desperdício doméstico. Afinal, o País não dispõe de estatísticas abrangentes sobre o assunto.

Isso significa que o problema começa com o desconhecimento da sua extensão. Se levarmos em conta que, mais do que um obstáculo, esta é uma grande oportunidade de avanço, é preciso ultrapassar esse impasse inicial. 

No começo do ano, por meio do Ministério do Desenvolvimento Social, o Brasil deu um passo nessa direção ao criar um comitê para se debruçar sobre o problema e formular metodologias de mensuração. Uma das instituições que fazem parte do grupo é a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária).

Apesar de dominar dados esparsos, a Embrapa não consegue avaliar o tamanho total das perdas. O IBGE, que se dedica a precisas avaliações sobre o volume da produção e da renda agropecuária, não tem pernas nem metodologia para isso. 

A grande extensão da produção brasileira de alimentos não deixa de ser um obstáculo. Mas, se é para atacar o problema sem mais delongas, há um fator que nos favorece, aponta Murillo Freire, pesquisador da Embrapa. A agricultura familiar é hoje responsável por 70% dos alimentos que chegam à mesa do brasileiro. Embora as tecnologias para redução de desperdício sejam relativamente dispendiosas, existem soluções simples para enfrentar o problema nessa faixa. 

Exemplo disso é o cuidado maior na manipulação das hortaliças. Se forem colocadas à sombra assim que colhidas, as perdas são reduzidas em cerca de 30%. Mais zelo ao empacotar, distribuir o produto em lugares próximos da região produtora e trocar as caixas velhas de madeira por novas são tratamentos baratos que aumentam a eficiência e a margem de lucro do agricultor. 

Guardadas as devidas proporções, algumas das soluções são similares às do produtor de grãos, como aponta estudo recente sobre o desperdício de soja e milho no Brasil. Pesquisador do Grupo de Pesquisa e Extensão em Logística Agroindustrial da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, Thiago Péra calculou que, em 2015, o País perdeu 2,4 milhões de toneladas com soja e milho, apenas por deficiências em armazenagem e transporte. Para enfrentar o problema, ele sugere o uso de caminhões mais novos, melhor qualificação dos envolvidos com transporte e armazenagem e fiscalização na área de logística. 

Tudo o que pode ser feito sem auxílio de terceiros deve ser recomendado e cobrado do produtor. Melhorar a eficiência e a produtividade do negócio – que no Brasil é das que mais crescem no mundo – depende, em parte, disso. Permanecer parado, à esperar de que o governo melhore e desenvolva a infraestrutura e derrube o custo Brasil, implica não só atrasos, mas, também, perdas de dinheiro pelo próprio agricultor./COM AMANDA PUPO

 

CONFIRA

» Evento e documento à vista

Rede mundial, a Save Food chegou ao Brasil no ano passado e promove no dia 26 deste mês evento sobre perda e desperdício de alimentos, em São Paulo. A WRI Brasil, organização internacional focada em pesquisa e membro da Save Food, pretende lançar a versão em português do Protocolo de Mensuração de Perdas de Alimentos, criado nos Estados Unidos. Embora não seja ferramenta voltada para as condições brasileiras, o documento deve auxiliar na produção de metodologias próprias. 

» Solução social 

Bancos de alimento são uma solução para o aproveitamento de produtos que não atendem ao padrão estético de comercialização. Por meio deles, grande número de entidades assistenciais recebe e distribui alimentos. Primeira iniciativa deste molde no Brasil, a ONG Banco de Alimentos, de Luciana Quintão, arrecada cerca de 40 toneladas por mês, na Grande São Paulo. A Ceagesp atende cerca de 296 entidades. Só entre 21 e 25 de agosto, por exemplo, a empresa estatal doou 84 toneladas de alimentos. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.