Comissão vai avaliar fundo do Cruzeiro do Sul

Cotistas do BCSul Verax 5 Platinum formam grupo para investigar lastro do fundo, que tem na carteira debêntures de empresa de donos do banco

LEANDRO MODÉ, O Estado de S.Paulo

31 de julho de 2012 | 03h04

A primeira assembleia para discutir o destino de um fundo de investimentos de R$ 250 milhões do banco Cruzeiro do Sul, realizada ontem em São Paulo, terminou sem acordo. Os cotistas do Fundo de Investimento em Participações (FIP) BCSul Verax 5 Platinum decidiram criar uma comissão, composta por sete integrantes, para apurar o real tamanho do patrimônio. A assembleia continuará na quinta-feira da próxima semana, no Rio de Janeiro.

A suspeita dos cotistas é de que o fundo não tenha ativos suficientes para honrar os compromissos. O BCSul Verax 5 Platinum era vendido nas agências do Cruzeiro do Sul, mas, desde o início, tinha gestão e administração sob a responsabilidade da Verax Serviços Financeiros. A Verax, por sua vez, tinha como sócios os controladores do banco, Luís Felippe e Luís Octavio Índio da Costa.

Ambos deixaram a sociedade logo após a intervenção do Banco Central (BC) no Cruzeiro do Sul, no dia 4 de junho. Documentos da Junta Comercial de São Paulo mostram que os dois saíram oficialmente da Verax no dia 6 de junho, embora o contrato que selou a mudança tenha sido assinado em 7 de maio.

Segundo a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), todo o patrimônio do fundo está aplicado em debêntures emitidas pela empresa Patrimonial Maragato - que também é de propriedade de Luís Felippe e Luís Octavio.

Na assembleia realizada entre as 11 horas e as 15h30 de ontem, os cerca de 200 cotistas presentes não se satisfizeram com as informações apresentadas pela Verax a respeito do patrimônio da Maragato.

"O balanço suscitou pânico, terror e aflição", disse um cotista que pediu para não ser identificado. Procurada, a Verax preferiu não se pronunciar.

A desconfiança em relação aos números fez os investidores optarem pela comissão. O objetivo, segundo apurou o Estado, é que os sete integrantes levantem mais dados sobre a Maragato e os apresentem na continuação da assembleia, no próximo dia 9. Com os dados mais consistentes em mãos, os cotistas devem decidir o que farão.

Uma das várias dúvidas que vêm tirando o sono dos investidores diz respeito ao tamanho da Verax - R$ 50 mil de capital social com capacidade de emitir mais de R$ 250 milhões em debêntures.

Nos dados apresentados ontem na assembleia, constam como ativos da Maragato, por exemplo, ações alugadas da Petrobrás para garantir débitos de um fundo com papéis da própria estatal. "O que quer dizer isso?", indagou um cotista.

Outra dúvida está relacionada à liquidez do fundo. O BCSul Verax 5 Platinum é um fundo de investimento em participações. Ou seja, é um veículo de investimento para aplicações em ativos reais, como empresas. Segundo o regulamento do fundo, o resgate das cotas ocorrerá só em 2015 (tempo necessário para maturação das aplicações).

No entanto, cotistas relatam que o fundo tinha liquidez diária - o que seria contrário ao regulamento. Fontes ouvidas pela reportagem enxergam nesse detalhe uma brecha para que os cotistas que eventualmente percam dinheiro - ou queiram sacar o capital antes de 2015 - entrem com ações contra o Cruzeiro do Sul.

Em situações normais, o banco não seria responsável pelo fundo, que tem até mesmo um CNPJ próprio. Ainda segundo essas fontes, há relatos de praticamente todos os cotistas de que, no momento da venda, havia promessa de liquidez diária.

Os investidores que aplicaram no BCSul Verax 5 Platinum - e em outro fundo com a mesma composição, chamado BCSul Verax Equity, com patrimônio de R$ 200 milhões - seriam em sua grande maioria, pessoas do círculo de relacionamento de Luís Felippe e Luís Octavio Índio da Costa. Por isso, não teriam atentado para todos esses 'detalhes'.

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