Thomas White/ REUTERS
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Como a moeda chinesa pode se tornar uma arma na guerra comercial

Proprietários de fábricas da China têm uma vantagem ao vender seus produtos nos Estados Unidos caso o yuan esteja fraco

Keith Bradsher, The New York Times

06 de agosto de 2019 | 12h03

No momento em que os Estados Unidos e a China trocam ameaças e infligem tarifas cada vez mais punitivas, o mundo observa para ver se Pequim adota uma de suas armas econômicas mais potentes. Ela envolve o número 7.

A moeda chinesa, o yuan, também conhecido como renminbi, cruzou o nível psicologicamente importante de 7 yuans para o dólar na segunda-feira. Levou cerca de 7,05 yuans chineses para igualar-se a 1 dólar a partir da segunda-feira de manhã, horário do leste. A última vez que foi preciso mais de 7 yuans para comprar um dólar foi em maio de 2008, quando o mundo escorregava em uma crise financeira.

A administração Trump não gosta da ideia de uma moeda chinesa mais fraca. Isso poderia dar o que considera uma vantagem injusta para os exportadores da China. No arsenal de disputas comerciais, as moedas podem ser armas potentes.

Mas a China tem boas razões para impedir que sua moeda se enfraqueça muito mais. Moedas podem ser armas potentes, mas são armas diretas - e elas podem se voltar contra aqueles que as usam.

Por que o 7 é significativo para o dólar?

Não há nada de particularmente ameaçador quanto ao número 7 em si. O yuan a 7,002 para o dólar é bastante semelhante à moeda em 6,998 em relação ao dólar.

Mas superar esse número é significativo simbolicamente. Isso sugere que a China está preparada para deixar sua moeda enfraquecer ainda mais. Isso daria aos proprietários de fábricas da China uma vantagem ao vender seus produtos nos Estados Unidos. Também prejudica as tarifas que a administração Trump impôs aos produtos fabricados na China.

Como isso ajudaria a China?

Digamos que você tenha uma fábrica chinesa fazendo ornamentos de jardim, e vende muitos flamingos cor-de-rosa para um varejista americano. O preço é de US$ 1 cada um - eles podem ser vendidos por muito mais em lojas de varejo nos Estados Unidos, mas o frete e o armazenamento são responsáveis pela maior parte disso. Quando o yuan é de 6 por dólar, isso significa 6 iuanes em vendas.

Mas quando a moeda se desvaloriza para 7 por dólar, esse flamingo de 1 dólar vale 7 yuans em vendas para você. Ou você pode reduzir o preço - digamos, de US$ 1 para 85,7 centavos - e ainda faturar seus originais 6 yuans em vendas. Seu concorrente americano, que tem que comprar e vender em dólares, precisa, a contragosto, cortar os preços para poder competir.

(É muito mais complicado no mundo real. O plástico e o metal para o flamingo de plástico podem ter sido importados para a China e precificados em dólares, por exemplo. Mas seja tolerante conosco.)

Uma moeda mais fraca também pode ajudar os exportadores chineses a superar as tarifas do presidente Donald Trump. Os Estados Unidos impuseram tarifas de cerca de 25% sobre uma ampla variedade de mercadorias chinesas que chegam aos portos americanos. Se o iuane enfraquecer em 10%, as tarifas basicamente caem 15%.

O que está conduzindo o declínio?

Alguns políticos nos Estados Unidos e em outros países há muito tempo dizem que a China manipula sua moeda, mesmo que autoridades de Washington - inclusive no governo Trump - não terem levado adiante nenhuma acusação oficial. Mas o destino do iuane não está inteiramente sob o controle de Pequim.

O sistema financeiro da China é firmemente controlado pelo governo, dando aos líderes do país um grande grau de controle sobre quanto vale o yuan. As autoridades estabelecem uma taxa de referência diária para o yuan e permitem que seu valor se mova um patamar muito pequeno acima ou abaixo desse nível nos mercados de câmbio. Autoridades chinesas dizem que a atividade comercial de cada dia ajuda a determinar o valor que eles definem para o iuane no dia seguinte, mas divulgam poucos detalhes sobre como isso funciona.

Na segunda-feira, Pequim fixou esse indicador em 6,9225, colocando-o ao alcance de 7 por dólar. No mundo do câmbio, um número maior significa uma moeda mais fraca.

As pessoas que levaram o yuan desse ponto médio para além do limite de 7 são os comerciantes, muitos dos quais acreditam que o yuan deve valer menos. As pessoas e empresas que detêm a moeda ficaram cada vez mais nervosas com o fato de a guerra comercial prejudicar ainda mais a desaceleração da economia chinesa.

Existem outras razões. Desde o ano passado, Pequim tentou incentivar a economia fazendo com que o setor bancário controlado pelo Estado aumentasse os empréstimos, tornando o dinheiro mais disponível. Isso significa ainda mais iuanes circulando, enfraquecendo o valor da moeda.

Quais são os riscos mais amplos?

Quatro anos atrás, enquanto sua economia desacelerava, a China desvalorizou o yuan em parte para dar uma ajuda às suas fábricas. O mundo financeiro ficou chocado. Os mercados despencaram.

Enquanto as autoridades chinesas se apressavam em dar explicações, as pessoas e as empresas começaram a transferir seu dinheiro - dinheiro do qual a economia chinesa precisava – para fora do país. Um ano depois, a China gastou mais de US$ 500 bilhões de suas reservas em um esforço para fortalecer o yuan. Mais tarde, reforçou o controle sobre o sistema financeiro para bloquear as muitas formas pelas quais as pessoas costumavam levar o dinheiro para fora do país.

Existem outros problemas em potencial. Uma moeda chinesa mais fraca encarece as compras dos consumidores chineses. Isso piora o ônus da dívida de qualquer empresa chinesa que pediu dinheiro emprestado em dólares. Também faz com que commodities globais, como o petróleo, tenham preços mais elevados em dólar.

Se a guerra comercial se intensificar, a China pode tentar adotar medidas mais agressivas com sua moeda. Mas, como mostra a história, pode haver um preço a pagar por isso./ Tradução de Claudia Bozzo

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