Loren Elliott/Reuters
Loren Elliott/Reuters

Como a pandemia se tornou estagflacionária

Enquanto o vírus sofria mutações, também mudava sua relação com a economia

The Economist, O Estado de S.Paulo

07 de setembro de 2021 | 05h00

Foi um verão de surpresas desagradáveis para a economia mundial. Os Estados Unidos, a Europa e a China estão crescendo mais lentamente do que os investidores esperavam. Os preços pagos pelos consumidores estão subindo em ritmo terrivelmente rápido nos Estados Unidos. Até mesmo na zona do euro, acostumada a uma inflação morna, os preços em agosto foram 3% mais altos do que em 2020, o maior registro em uma década. As economias estão tendo dificuldades com a escassez de peças e de mão de obra, transporte caro e lento de mercadorias e a confusa variação de adoção de lockdown.

A propagação da variante Delta é a culpada, mas a maneira como a pandemia está afetando a economia está mudando. O mundo se acostumou com o crescimento violento do vírus, conforme as ondas de infecção causavam paradas repentinas nas atividades e os preços eram atenuados ou até mesmo caíam. A Delta, por outro lado, parece uma força estagflacionária que está minando o crescimento de forma menos dramática, mas disparando a inflação. A variante está pesando nos gastos do consumidor no mundo rico, mas sem causar um colapso. Em países com muitas vacinas, os casos não estão mais impedindo tanto os consumidores de se movimentarem. O setor de serviços da Europa foi reaberto em meio a uma onda de contágios pela Delta.

Os consumidores parecem menos assustados com a doença mesmo existindo um número suficiente de pessoas não vacinadas para encher os hospitais. Há um ano, o número de clientes em restaurantes americanos foi aproximadamente metade do de 2019. Agora, o serviço está cerca de 10% abaixo daquele período, apesar de os hospitais estarem três vezes mais cheios. 

No Japão, um estado de emergência tomando conta de Tóquio não parece estar afastando os consumidores das lojas. Apenas nos países com políticas draconianas destinadas a eliminar o vírus as pessoas estão presas em casa. Austrália e Nova Zelândia enfrentam novas recessões como resultado de seus lockdowns, e o setor de serviços da China parece estar encolhendo.

Enquanto isso, a propagação da variante Delta continua a prejudicar o fornecimento global de mercadorias, assim como os consumidores, principalmente os americanos, pretendem comprar mais carros, dispositivos e equipamentos esportivos do que nunca. 

Surtos em países do Sudeste Asiático com baixas taxas de vacinação estão provocando paralisações temporárias na produção das fábricas e nas redes de logística, o que por consequência prolonga a interrupção nas cadeias de suprimentos. 

Nos Estados Unidos, varejistas, entre eles a Gap e a Nike, têm feito pressão para a Casa Branca doar mais vacinas para o Vietnã, tão cruciais para suas fábricas voltarem a funcionar. A escassez está fazendo os preços subirem. 

A mudança na relação entre o vírus e a economia tem implicações para os legisladores. Eles não serão capazes de repetir o truque do início da pandemia de restringir a movimentação das pessoas como um modo de conter a propagação do vírus, ao mesmo tempo em que liberam ajudas financeiras para criar um boom de compensação na demanda por mercadorias.

A recuperação do setor de serviços é atualmente o único caminho rápido para um crescimento rápido, porque é aí que a chance está. Os gastos das famílias americanas com serviços no segundo semestre foi cerca de 3% abaixo do nível registrado em 2019 em termos reais. 

Se a propagação da variante Delta prejudicar as indústrias de serviços tais como a de lazer e hospitalidade, mais ajuda financeira apenas criará mais inflação. Também é mais difícil argumentar que o medo do vírus afugenta os consumidores das compras e que as restrições do governo para diminuir a velocidade da propagação da doença, portanto, têm pouco custo econômico extra. 

Uma conexão mais fraca entre os casos e a movimentação das pessoas e a necessidade de crescimento do setor de serviços aumentam o custo dos lockdowns. 

Se a pressão sobre os hospitais fizer com que até mesmo nações com grandes taxas de vacinação, como o Reino Unido, restrinjam os serviços durante o inverno, o dano econômico será grande, e os benefícios menores. 

A onda de contágios de covid pela variante Delta pode diminuir em breve, aliviando a pressão sobre a economia mundial. 

Se isso não acontecer ou se outra variante tomar o seu lugar, as compensações envolvidas na luta contra o vírus se tornarão mais difíceis de se justificar. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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