Ruth Fremson/The New York Times
Ruth Fremson/The New York Times

Como a pandemia transformou o interior dos depósitos da Amazon

Após meses recebendo críticas por sua resposta ao coronavírus, gigante americana está trabalhando para convencer o público que seus ambientes de trabalho são seguros

Karen Weise, O Estado de S.Paulo

12 de junho de 2020 | 15h00

NYT - Depois de meses recebendo críticas por sua resposta ao coronavírus, a Amazon está trabalhando para convencer o público que seus ambientes de trabalho — mais especificamente, os depósitos onde são guardados produtos que vão  de brinquedos ao álcool-gel — são seguros durante a pandemia.

A gigante do varejo na internet começou a veicular anúncios na TV que mostram seus funcionários dos setores de estoque e entregas usando máscaras e outros equipamentos de proteção. Foram repassados a emissoras de notícias locais segmentos mostrando suas melhorias no quesito da segurança. A empresa convidou jornalistas a visitarem suas instalações para comprovarem as mudanças por si mesmos.

A Amazon está difundindo sua mensagem de segurança após um momento que o diretor executivo da empresa, Jeff Bezos, descreveu como “o período mais difícil que já enfrentamos". Com o coronavírus varrendo os Estados Unidos, a Amazon teve dificuldade em equilibrar o grande aumento no número de pedidos e as preocupações de saúde de sua equipe de 1 milhão de funcionários e terceirizados que operam os depósitos e entregas.

Em centenas de instalações da empresa, funcionários contraíram a covid-19, e muitos responsabilizaram a Amazon. No auge da crise, um executivo da Amazon disse ter deixado o emprego por causa da demissão de funcionários que chamaram a atenção para a falta de segurança no ambiente de trabalho durante a pandemia.

Ainda que a Amazon tenha implementado mudanças de segurança, muitos funcionários e autoridades disseram que as medidas vieram tarde demais e não foram adotadas uniformemente.

Mas, de acordo com os funcionários, algumas das condições de trabalho dentro dos depósitos nas semanas mais recentes. E a empresa, que vinha respondendo a tudo em modo emergencial em março e abril, reassumiu um ritmo de negócios mais próximo da normalidade.

Recentemente a Amazon convidou os repórteres para uma visita a um centro de distribuição em Kent, pouco mais de 30 km ao sul de Seattle, onde fica a sede da empresa. A reportagem concordou em conhecer a instalação para conferir as mudanças descritas pela Amazon e por muitos trabalhadores no país.

Acrílico, fita adesiva e estações desinfetantes

Aberta em 2016, a instalação ocupa mais de 23 acres. A estrutura baixa e quase sem janelas fica em um parque industrial cercado de estacionamentos. Do lado de dentro, uma vasta rede de esteiras cruza o edifício, ligando áreas onde funcionários armazenam produtos em prateleiras robóticas e áreas onde os funcionários apanham produtos das prateleiras. Há também estações de trabalho onde produtos são embalados para o envio.

Habitualmente, são de 600 a 800 funcionários por turno. Naturalmente, em boa parte do edifício há pouca interação humana, porque as áreas de trabalho ficam distantes entre si.

Mas algumas áreas de movimento intenso mudaram. O departamento de recursos humanos instalou paredes de acrílico para permitir as conversas cara a cara com uma camada de separação. Há fita adesiva por todo o depósito, indicando o distanciamento de 2m que deve ser observado. As estações desinfetantes são comuns; antes, raramente as encontrávamos.

A transformação mais dramática ocorreu na entrada do edifício, um saguão amplo com catracas altas. Antes, os funcionários passavam pelas catracas para iniciar seu turno. Agora, quando chegam, são encaminhados para câmeras térmicas, operadas por colegas, que registram sua temperatura corporal. Em um pequeno estande protegido com acrílico, um funcionário distribui máscaras, entregues com pegadores compridos.

Laboratório de testes

Depois de passarem pela verificação de temperatura, os funcionários chegam a um salão de paredes transparentes antes usado para o treinamento. A sala faz parte do programa piloto da Amazon para testar a presença da covid-19 entre os funcionários dos depósitos, parte dos US$ 4 bilhões que a empresa disse planejar investir nos próximos meses em resposta ao vírus.

Quando entram no centro de testes improvisado, os funcionários passam o crachá pelo leitor. Um kit de teste do vírus lhes é entregue com os pegadores. O saquinho plástico marcado com o símbolo de risco biológico contém um cotonete e um recipiente semelhante a um tubo de ensaio. Os funcionários podem seguir para uma das áreas com mesas para seguir as instruções do teste. Então, o material coletado é selado e colocado em um recipiente verde.

Um funcionário da Concentra, empresa que oferece atendimento de saúde no ambiente de trabalho, fica a postos para garantir a supervisão médica necessária para os testes feitos pelos próprios funcionários.

A Amazon disse que mais de 1 mil dos mais de 3 mil funcionários da instalação já fizeram o teste do coronavírus.

Atividade ininterrupta

Os funcionários continuam entrando e saindo da instalação o tempo todo. Almoçam no refeitório e fumam na área externa. São indícios de uma volta à normalidade.

Nos estágios iniciais da pandemia, a Amazon se concentrou no envio de produtos essenciais, como fraldas e desinfetante. Mas o depósito de Kent também guarda produtos para atender às outras necessidades dos clientes — iluminação externa, eletrodomésticos, produtos para a limpeza do carro, e mais.

A Amazon contratou 175 mil funcionários temporários — incluindo cerca de 1 mil somente nessa instalação — para substituir empregados que ficaram em casa durante a fase inicial da pandemia e para atender a uma demanda comparável à observada no fim do ano, auge do movimento. Agora a maioria desses funcionários recebeu um cargo permanente.

A funcionária Emilie Deschamps, que recebeu da Amazon autorização para falar com a imprensa, começou a trabalhar no depósito em outubro. Ela disse que a principal mudança não foi física, e sim no ajuste das pausas, que se tornaram mais intercaladas para evitar as aglomerações,. A empresa também deu aos empregados mais tempo para lavarem as mãos, disse ela.

“Sinceramente, as coisas estão indo bem por enquanto", disse ela.

Mesmo com os postos de trabalho mais distante entre si, às vezes os funcionários ainda passam perto uns dos outros, como ocorreria em um mercado ou na calçada. / Tradução de Augusto Calil

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