Rafael Arbex/Estadão
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Como a recuperação do Brasil é cíclica, teremos de conviver com velhos problemas

Porém, no curto prazo, a retomada é ameaçada pela crise hídrica e seus reflexos no nível de operação da indústria e, sobretudo, na inflação

Fábio Alves*, O Estado de S.Paulo

07 de julho de 2021 | 04h00

A recuperação cíclica da economia brasileira parece ter engatado finalmente uma marcha acelerada num momento em que a vacinação contra a covid ganha ritmo no País e o número de casos e de mortes pela doença apresenta queda. Os últimos indicadores de atividade do segundo trimestre colocam um viés de alta para as projeções do PIB brasileiro em 2021.

Depois de três meses consecutivos de queda, a produção industrial cresceu 1,4% em maio ante abril. Em junho, os índices de confiança e de sentimento de empresários e consumidores também registraram melhora significativa, sinalizando uma expansão de investimentos e de consumo.

O índice de gerente de compras (PMI, na sigla em inglês) industrial do Brasil subiu para 56,4 pontos em junho, seu maior nível desde fevereiro. Já o índice de confiança empresarial, apurado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), subiu 4,3 pontos em junho para 98,8 pontos, patamar mais elevado desde dezembro de 2013. E o índice de confiança do consumidor registrou alta de 4,7 pontos em junho.

Não à toa, a expectativa é grande para a divulgação hoje, pelo IBGE, do resultado das vendas no varejo referente a maio, depois que o desempenho do de abril superou com folga o consenso das previsões dos analistas. Para maio, o banco Credit Suisse, por exemplo, prevê um aumento de 4,0% ante abril das vendas no varejo ampliado, que inclui as atividades de material de construção e de veículos.

Do lado externo, os números impressionam. A balança comercial brasileira teve superávit de US$ 10,4 bilhões em junho, o maior saldo da série histórica, iniciada em 1989. A corrente de comércio (soma das exportações e importações) avançou 61,1% em junho ante igual mês de 2020, com as exportações crescendo 60,8% no período, enquanto as importações tiveram um salto de 61,5%.

De janeiro a junho, a balança comercial acumula um superávit de US$ 37,5 bilhões, um aumento de 68,2% sobre igual período de 2020. Com isso, a Secretaria de Comércio Exterior (Secex) já prevê um saldo recorde de US$ 105,3 bilhões da balança comercial em 2021.

A Secex também prevê que, em 2021, a corrente de comércio do Brasil ultrapasse pela primeira vez o valor de US$ 500 bilhões. Isso mostra que, para além da demanda externa e da melhora dos termos de troca, a indústria nacional também está importando máquinas e outros insumos prevendo um aquecimento da demanda interna.

No início do ano, a previsão do mercado, conforme a pesquisa Focus, era de um superávit da balança de US$ 55 bilhões para 2021. Com as surpresas positivas, em parte pela disparada nos preços das principais commodities exportadas pelo Brasil, essas estimativas já começam a convergir para um saldo positivo de US$ 75 bilhões neste ano.

Se as projeções mais otimistas para o superávit comercial acabarem se confirmando, é possível que os analistas passem também a revisar para cima as suas estimativas para o desempenho do PIB em 2021. Na mais recente pesquisa Focus, a previsão aponta para um crescimento de 5,18% do PIB neste ano. Para 2022, a expectativa é de uma expansão mais modesta, de 2,10%.

“Até o fim do ano, é muito provável que as estimativas para o desempenho da economia migrem em direção a um crescimento próximo de 6,0%”, diz Alexandre Manoel, sócio e economista-chefe da MZK Investimentos. “A recuperação cíclica está acontecendo muito acima das expectativas até dos analistas mais otimistas.”

A retomada mais forte da atividade econômica, juntamente com uma aceleração da inflação, vem contribuindo para um aumento além do esperado da arrecadação de impostos federais, que somou R$ 142 bilhões em maio, o maior valor para o mês desde, pelo menos, 1995.

No curto prazo, o maior risco à retomada cíclica é a crise hídrica e seus reflexos na oferta de energia, no nível de operação na indústria e em outros setores e, sobretudo, na inflação. Isso porque uma nova onda da pandemia de covid, que seria a outra ameaça à recuperação, pode não causar o mesmo estrago de antes em razão do avanço da vacinação.

Mas como a natureza da recuperação em curso é cíclica, isso significa que quando o ritmo de crescimento voltar ao normal, o Brasil terá de conviver com seus velhos problemas, especialmente o fiscal. 

*COLUNISTA DO BROADCAST

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