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Albert Fishlow
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Como decidirá o eleitor?

No Brasil, as lealdades estão ainda mais divididas do que nos Estados Unidos

O Estado de S.Paulo

19 Agosto 2018 | 05h00

As eleições estão se aproximando tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos. Em um caso, a escolha é mais ampla: presidente, Congresso e governadores; quem vencer terá o trabalho de Sísifo de restaurar as antigas esperanças brasileiras no avanço para o mundo desenvolvido. Nos Estados Unidos, não há corrida presidencial; mesmo assim, as perspectivas globais dependerão desse resultado.

No Brasil, todos os indícios apontam para a confirmação da inelegibilidade de Lula. É provável que surja uma decisão definitiva até o fim do mês. Haddad tomará seu lugar. Em todas as pesquisas anteriores, Lula aparece como vencedor. Agora a escolha depende de quem vota e onde. No Brasil, as lealdades estão ainda mais divididas do que nos EUA.

Um novo presidente, eleito no segundo turno, não terá garantia de apoio contínuo dentro do Congresso. A casa permanecerá tão fragmentada em partidos políticos quanto antes. De fato, agora há mais candidatos buscando reeleição para a Câmara do que nos anos anteriores. O cargo eletivo é a melhor salvaguarda contra as futuras condenações pelos inúmeros delitos cometidos contra tantos.

Quais são as prioridades dos vários candidatos e como eles irão cumpri-las? Nem os documentos preparados por seus partidos nem os discursos proferidos por seus muitos conselheiros dão uma resposta confiável. Tudo dependerá de propostas iniciais rápidas, especialmente agora, na era da internet. A experiência executiva é uma vantagem, não uma desvantagem.

Há muito o que fazer. A Previdência precisa passar por modificações, menos por suas consequências imediatas do que para dar prova da capacidade governamental de prever e executar. A participação no comércio exterior tem de ser reforçada. É necessário retomar o crescimento econômico, não com foco na demanda, mas na oferta e na importância de aumentar a poupança e o investimento internos. Isso se traduz em um crescimento menor do consumo e maior da produção. A baixa qualidade da escolarização continua sendo um problema sério. Ganhos constantes na produtividade exigem não apenas avanços tecnológicos, mas também capacitação da força de trabalho e quantidade de capital. Assim, não será mais necessária uma emenda para assegurar um superávit primário.

Mas pelo menos se pode discutir a possibilidade de realizar esses avanços de maneira racional. Já com Trump e nossa próxima eleição, minhas preocupações se aprofundam. Escolher um empresário sem experiência política acaba sendo um desastre. Para entender suas prioridades, todo mundo tem de prestar atenção aos seus tuítes. Até mesmo seus poucos escolhidos competentes precisam tomar cuidado para não discordar muito dele.

A sessão em seu gabinete na última quinta-feira não foi muito diferente. Ele começou com um ataque à imprensa – afinal de contas, no dia anterior, os editoriais de cerca de jornais haviam criticado seus erros diários e sua oposição aberta a qualquer coisa que não fosse bajulação. E terminou, em menos de uma hora, dando uma volta pelo gabinete para receber elogios de todos por suas notáveis contribuições para a melhoria da vida de todos os cidadãos, um feito muito maior que o de qualquer um de seus predecessores.

Os democratas estão se preparando para concorrer às próximas eleições para a Câmara e o Senado dando maior atenção aos jovens e às minorias. A liderança do partido tentou evitar uma mensagem uniforme para todos os distritos, particularmente para aqueles 60 ou 70 onde os republicanos são mais vulneráveis. Estão encorajando a diversidade e ignorando a evidente divisão entre os centristas que apoiaram Clinton e o grupo mais radical de Sanders. Essa questão reaparecerá na próxima batalha pela indicação presidencial, em 2020.

As chances são muito melhores para a Câmara do que para o Senado. O momento é muito difícil para os democratas que buscam a reeleição. A maioria vem de Estados que optaram esmagadoramente por Trump em 2016, com margens de 20% ou mais. Isso explica a disposição de três senadores para se encontrarem com Brett Kavanaugh, candidato de extrema-direita à Suprema Corte, cuja aprovação parece certa. 

O controle da Câmara será suficiente para impedir a aprovação de novos cortes de impostos para os ricos, bem como para incentivar os republicanos mais sensatos do Senado a admitirem a importância do aquecimento global, das questões ambientais, da imigração e até mesmo de algumas questões de política externa.

Espero que, em ambos os países, o velho ditado – você pode enganar todas as pessoas durante algum tempo, algumas pessoas o tempo todo, mas não todas as pessoas o tempo todo – venha a se provar correto. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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