Imagem Monica De Bolle
Colunista
Monica De Bolle
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Como destruir a economia

Abalos nos rumos globais seriam espécie de golpe de misericórdia na economia brasileira

Monica De Bolle, O Estado de S.Paulo

18 de julho de 2018 | 04h00

No Brasil foi a combinação das políticas econômicas equivocadas de Dilma Rousseff junto com o caos político que derrubaram a economia – os dois fatores não são mutuamente excludentes. Aqui nos EUA é um presidente turrão, cheio de ideias fixas erradas na cabeça, a comportar-se como elefante numa loja de vasos e copos de cristal. As destruições econômicas às vezes custam a aparecer, sobretudo quando o legado herdado do governo antecessor possui alguma resistência. No caso de Dilma, o Brasil ainda estava robusto em 2011, ainda que os preços das matérias-primas estivessem perdendo o dinamismo e que o quadro global se mostrasse mais adverso. No caso de Trump, a economia continua a crescer com taxas de desemprego muito baixas e pouca inflação, o que sustenta a ilusão da solidez inquebrantável. Foram-se quatro anos até que os erros de Dilma coadunados com os efeitos da Lava Jato e do desmantelamento político se transformassem na pior recessão da história. O que pode vir pela frente para os EUA, e como isso poderá afetar o Brasil?

Primeiramente, é preciso que se diga com clareza: eu não estou comparando o Brasil de Dilma com os EUA de Trump. As circunstâncias são diferentes, as condições iniciais idem, as políticas em curso não têm qualquer semelhança. Dilma teimou em desorganizar as contas públicas concedendo benefícios fiscais sem se dar conta dos efeitos orçamentários, adotou congelamentos de tarifas públicas e de preços de energia como forma de conter a inflação, liberou o crédito público de forma irresponsável e dispendiosa para os cofres públicos. Fez tudo isso em nome de uma capacidade de geração de investimentos que jamais se materializou tamanha a bagunça econômica. Quando os efeitos não apareceram, ela dobrou a aposta até o esgotamento, em 2015, quando foi forçada a dar um cavalo de pau na política econômica. Já era tarde demais.

As medidas de Trump são diferentes, mas a teimosia e a insistência nos erros são parecidas. Como tenho escrito nesse espaço, o presidente norte-americano está engajado em uma guerra comercial com boa parte do planeta e de seus parceiros econômicos. Alguns efeitos já estão sendo sentidos pelo consumidor norte-americano: em janeiro, o governo Trump impôs tarifa salgada sobre as máquinas de lavar, boa parte das quais é importada da China. Na última divulgação dos índices de inflação apareceu o inevitável – os preços das máquinas de lavar já subiram cerca de 16%. O mesmo deverá ocorrer com os demais produtos que hoje estão no fogo cruzado das tarifas e das contratarifas retaliatórias. Em meio a esse fogo cruzado, é provável que em breve esteja a indústria automobilística.

Há pouco mais de um mês, Trump pediu ao Departamento de Comércio um relatório sobre as práticas de exportação de automóveis de parceiros comerciais alegando práticas desleais que deseja o presidente qualificar como prejudiciais à segurança nacional – tal qual já fizera com o aço e o alumínio. Essa semana, foram abertas consultas públicas entre o governo e representantes do setor para avaliar o impacto de imposições de tarifas de cerca de 25% sobre partes e componentes importados de veículos. Segundo cálculos feitos pelo Peterson Institute for International Economics ainda não divulgados, a elevação de preços de automóveis provocadas por tais tarifas poderiam chegar a 20%, a depender do tipo de veículo. Tal alta de preços apagaria boa parte dos benefícios provenientes da reforma tributária de Trump aprovada no fim do ano passado.

Qual o problema disso para o Brasil? Há vários. De um lado, caso as tarifas entrem em vigor, haverá um escalonamento da guerra comercial com a União Europeia, com o Canadá, e com o México – evidentemente, os diferentes países haverão de retaliar. A incerteza e os temores em relação aos rumos da economia mundial têm deixado os mercados ressabiados, além de terem influenciado a visão dos organismos internacionais sobre os severos riscos que podem se concretizar. Abalos nos rumos globais seriam espécie de golpe de misericórdia na economia brasileira, que vive dias atormentados pelos efeitos da greve dos caminhoneiros e pelas eleições que se avizinham, provocando fortes revisões das projeções de crescimento. Sem um timoneiro e com um Congresso hostil empenhado em empurrar pautas-bomba, o momento brasileiro é especialmente grave. Disso tudo, a lição: não é difícil destruir a economia, ainda que leve tempo para que os efeitos apareçam. Difícil é reconstruí-la a partir de bases demasiado frágeis ou inexistentes. Os riscos brasileiros vêm de dentro e de fora. 

ECONOMISTA, PESQUISADORA DO PETERSON INSTITUTE FOR INTERNATIONAL ECONOMICS E PROFESSORA DA SAIS/JOHNS HOPKINS UNIVERSITY 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.