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José Roberto Mendonça de Barros
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Como está, a zona do euro vai morrer

O equilíbrio franco-alemão se dissolve, dando margem ao nacionalismo de Le Pen

José Roberto Mendonça de Barros, Impresso

19 de fevereiro de 2017 | 04h00

A Europa está crescendo e deverá ter um ano razoável em 2017. Entretanto, nunca foi tão claro que o projeto europeu e, em especial, o euro correm sério risco de vida.

A emergência de um nacionalismo antiglobalização na França, na Holanda, na Hungria e em outros países contesta o arranjo europeu. Na mesma direção vão a negociação da saída do Reino Unido da Comunidade Europeia e o novo governo da Polônia. O euro está mesmo mal e por boas razões, econômicas, financeiras e geopolíticas.

A mãe de todas as críticas é totalmente procedente: apenas a Alemanha se beneficia mesmo dos acordos europeus. Embora haja algum exagero nessa afirmação, pois países como Espanha passaram por uma grande transformação e hoje são desenvolvidos, é verdade que a Alemanha abocanhou a maior parte dos benefícios resultantes dos novos acordos.

De 1998 a 2016, o PIB per capita da Alemanha cresceu 26%; o da Espanha, 20%; o da França, 16%; o da Grécia, 3%; mas a Itália viu seu PIB per capita cair 2%!!

O modelo alemão vitorioso se baseia, antes de tudo, numa eficiente máquina exportadora. O saldo comercial do ano passado foi de US$ 280 bilhões, muito maior do que o da China, que atingiu US$ 210 bilhões. Com os Estados Unidos, o saldo foi de US$ 50 bilhões, com a Inglaterra o mesmo tanto e com a zona do euro a bagatela de US$ 80 bilhões.

Como esses gigantescos saldos exercem forte pressão deflacionária nos países deficitários, não é de surpreender que as queixas se avolumem, como a recente afirmação de Trump de que o euro é um artefato alemão. Na Europa, isso é muito visível também, bastando lembrar que, desde o início da moeda comum, quase metade da indústria italiana desapareceu.

Os alemães se defendem dizendo que são trabalhadores produtivos e frugais, que seu sucesso é fruto de reformas do passado e de trabalho duro no presente. Isso é totalmente verdadeiro, mas apenas parte da verdade, pois o euro foi fixado muito mais desvalorizado do que seria o marco alemão isoladamente. Como não existe desvalorização dentro da zona do euro, a vantagem inicial das paridades não só foi mantida como elevada pela competência germânica.

Além disso, a Alemanha mantém um grande rigor fiscal. Suas despesas também não incluem grandes gastos com defesa, o que é feito pela Otan. Em consequência, o país tem um mercado interno relativamente pequeno, que resulta em importações modestas e saldos gigantes; daí as queixas recentes.

Mas isso ainda não é tudo, pois os saldos em conta-corrente se traduzem em aumento contínuo de ativos nos bancos alemães, hoje da ordem de ¤ 740 bilhões. Em sua maior parte, esse valor é uma contrapartida para as transferências dos países deficitários na zona do euro (da ordem de ¤ 580 bilhões), via mecanismo de compensação do Banco Central europeu.

É evidente que tal sistema não pode se perpetuar. Muitos dos créditos de bancos alemães não serão pagos, pois inúmeros devedores fora do país não terão como fazer a liquidação. Daí as dúvidas dos mercados quanto à saúde de várias instituições germânicas.

Do ponto de vista geopolítico, o maior problema é que a economia francesa está em clara decadência, pouco produtiva e pouco competitiva (lembra-se da semana de 35 horas?). Assim, o equilíbrio franco-alemão está se dissolvendo e dando margem ao nacionalismo de Marine Le Pen.

Há uma tempestade se formando. Ela pode ser detonada por uma eleição, pela exacerbação de problemas bancários, pelo enfraquecimento da liderança política alemã ou pela incrível instabilidade do presidente americano.

Em junho de 2012, escrevi aqui no Estado: “Já se disse que, após duas guerras fracassadas, a Alemanha conseguiu com o euro dominar a Europa sem dar um tiro. Entretanto, esse domínio pode, mais uma vez, acabar mal”.

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