Como evitar uma década perdida

Mesmo com o imenso esforço do governo em 2008-09 para evitar o colapso financeiro e a depressão, os Estados Unidos já completaram até agora quase a metade daquela que pode ser uma década perdida. Do primeiro trimestre de 2006 ao primeiro trimestre de 2011, a média de crescimento da economia americana foi inferior a 1% ao ano, resultado semelhante ao apresentado pelo Japão depois do estouro de sua bolha. Durante este período, a parcela da população no mercado de trabalho caiu de 63,1% para 58,4%, reduzindo em mais de 10 milhões o número de pessoas empregadas. A proporção de pessoas no mercado de trabalho continua quase a mesma que a registrada no auge da recessão, e relatos recentes sugerem que o crescimento perde força.

Lawrence Summers, do The Washington Post, O Estado de S.Paulo

19 de junho de 2011 | 00h00

Além da falta de empregos e renda, uma economia produzindo abaixo do seu potencial durante um intervalo prolongado sacrifica o próprio futuro. Um imenso número de recém formados pelo ensino superior está voltando a morar com os pais este mês porque essas pessoas não encontram emprego e nem meios de se sustentar. Em todo o país, distritos escolares de orçamento apertado estão cortando as aulas avançadas de matemática e ciência e, em certos casos, abrindo a escola somente quatro dias por semana. A redução na renda e na arrecadação fiscal é a causa mais importante de déficits orçamentários inaceitáveis tanto no presente quanto no futuro.

Tradicionalmente, a economia americana apresentou uma recuperação sólida após as recessões, pois a demanda foi rapidamente retomada.

Depois das duas recessões mais profundas do período posterior à 2.ª Guerra - as de 1974-75 e de 1980-82 -, a economia precisou de apenas dois anos para retomar um crescimento anual na casa dos 6% ou mais, algo que hoje parece inconcebível. Por quê? A dinâmica da inflação desafiou o ciclo econômico americano tradicional do pós-guerra. As recuperações continuaram e chegaram a ganhar força até serem assassinadas pelo Federal Reserve, que alegou como motivo a necessidade de controlar a inflação. Depois que a inflação perdeu fôlego, uma rápida recuperação impulsionada por reduções dramáticas nos juros e pela aplicação de um grande volume de investimentos adiados seria quase inevitável.

Nossa situação atual é muito diferente. Com as políticas monetárias mais prudentes, as expansões não são mais contidas por uma alta da inflação e uma decisão do Fed de puxar o freio. Desde que Paul Volcker retomou o controle da inflação, todas as três expansões americanas poderiam ter sido prolongadas. Elas se encerram depois que um período de excesso de confiança leva o preço dos bens capitais a patamares elevados demais e os aparentes aumentos na riqueza dão margem a um excesso de gastos e de concessões e solicitações de crédito.

Depois que as bolhas estouram, não ocorre a satisfação do desejo acumulado de investir. Em vez disso, o que existe é uma fartura de capital provocada pelo investimento excessivo durante o período de confiança - imóveis desocupados, shoppings sem inquilinos e fábricas sem consumidores. Enquanto isso, os consumidores descobrem que possuem muito menos riqueza do que acreditavam ter, menos garantias para os empréstimos que solicitam e veem-se submetidos a mais pressões do que esperavam por parte de seus credores. A pressão sobre os empréstimos particulares é reforçada por mudanças estruturais. A indústria editorial nos proporciona um exemplo vivo disto.

Conforme as livrarias de bairro deram lugar às megastores, estas perderam espaço para a internet e os livreiros da internet perderam lugar para os livros eletrônicos, duas coisas ocorreram. O potencial produtivo da economia foi aumentado e sua capacidade de gerar demanda foi prejudicada conforme os recursos foram transferidos dos trabalhadores de classe média do varejo e do atacado, muito propensos a gastar, para o degrau superior da cadeia, onde a propensão a gastar é muito mais baixa.

O que deve ser feito? Não há tempo para fatalismo e nem para pautas políticas tradicionais. A ironia central da crise financeira está no fato de apesar de ela ter sido causada pelo excesso de confiança e do exagero nos gastos e na solicitação e concessão de crédito, sua superação só ocorrerá por meio do excesso de confiança e do exagero nos gastos e na solicitação e concessão de crédito.

A maior ameaça à credibilidade do país é um período contínuo de crescimento lento que, assim como ocorre na Europa, faça com que a proporção entre endividamento e PIB aumente rápida e acentuadamente. O debate das medidas de médio prazo para conter os gastos e aumentar a arrecadação devem ser somadas a um foco no crescimento no curto prazo.

Sem os cortes nos impostos retidos em folha e o seguro-desemprego negociados pelo presidente e pelo Congresso no segundo semestre do ano passado, é bem possível que estejamos diante da possibilidade de um duplo mergulho recessivo. Uma retirada substancial do apoio financeiro no fim de 2011 pode ser prematura. Na verdade, o apoio fiscal deveria ser ampliado com a oferta de cortes nos impostos retidos em folha tanto para os empregadores quanto para os empregados. Aumentar a proporção do corte nos impostos de 2% para 3% também seria desejável.

Agindo de maneira decisiva em 2008 e 2009, conseguimos evitar uma Depressão. Agora, ao reconhecer a realidade econômica atual, podemos evitar uma década perdida. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

FOI PROFESSOR, PRESIDENTE DE HARVARD E SECRETÁRIO DO TESOURO DURANTE O GOVERNO CLINTON. ATUOU COMO CONSELHEIRO ECONÔMICO DO PRESIDENTE OBAMA DE 2009 A 2010

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