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Como fica o câmbio?

A situação política se deteriora neste agosto, mês de desgosto; e instabilidade política é campo fértil para a disparada das cotações da moeda estrangeira

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

08 de agosto de 2015 | 16h00

O governo Dilma ainda não desistiu de vestir roupas de Poliana. Ainda repete que não há nada de especialmente errado na economia, que os problemas estão lá fora e não aqui dentro, que o ajuste é suave e passageiro - como o programa político do PT na televisão mostrou na quinta-feira.

Mas já se ouve outro discurso. Na quarta-feira, por exemplo, o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, não tentou esconder a gravidade das avarias, como fazia habitualmente seu predecessor no cargo, Guido Mantega. “A situação da economia é séria e a fiscal, também”, disse. O vice-presidente da República, o contido Michel Temer, não temeu espalhar intranquilidade: “A situação é grave; há crise econômica e política”. E, meio desajeitadamente, pediu um pacto nacional e “alguém para reunificar o País”, que aparentemente não seria a presidente Dilma. 

A sinceridade é boa prática, pode concorrer para restabelecer a confiança, mas não resolve os problemas subjacentes. O ajuste das contas públicas está capenga e o PIB, cada vez mais mirrado. O desemprego avança e a irritação também, como o alentado panelaço de quinta-feira demonstrou. O governo bem que vem conseguindo realinhar a maior parte dos preços administrados que estavam em atraso e, por esse lado, a inflação está mais controlada. Nesse capítulo, falta saber como fica o câmbio.

A política não declarada até a semana passada foi promover a desvalorização do real. Apenas neste ano, a alta acumulada do dólar em relação ao real é de 32,2%. O Banco Central vinha atuando no câmbio de maneira a comprar US$ 4 bilhões por mês ou US$ 48 bilhões por ano. Essa intervenção agora parou. 

Na última quinta-feira, o diretor de Política Monetária, Aldo Mendes, avisou ao mercado que a alta foi longe demais. E, em seguida, as operações de compra de dólares foram suspensas. Esses fatos novos indicam que a autoridade cambial não está mais interessada na desvalorização do real.

Independentemente dessa intervenção, outros fatores já vêm atuando para conter a sede de moeda estrangeira. O desempenho da balança comercial está substancialmente melhor. As projeções de um superávit inicial de apenas US$ 2 bilhões saltaram para algo próximo dos US$ 10 bilhões. E tem o jogo financeiro. Os juros básicos (Selic), de 14,25% ao ano, tendem a atrair mais dólares, por meio das operações de arbitragem, cujo objetivo é levantar um dinheiro a juro gotejante lá fora para aplicá-lo em reais e tirar proveito dos juros altíssimos aqui dentro. Estes são dois canais por meio dos quais os recursos externos continuam entrando, concorrendo assim para certo reequilíbrio entre procura e oferta de moeda estrangeira no câmbio interno.

Mas não dá para considerar apenas essas variáveis. A situação política se deteriora neste agosto, mês de desgosto. E instabilidade política é campo fértil para a disparada das cotações da moeda estrangeira. Enfim, não dá para cravar aposta firme na trajetória do dólar. Também aí o pião gira, e gira cada vez mais rápido.

CONFIRA:

No gráfico, a evolução das cotações do dólar em reais e em pesos argentinos desde janeiro de 2014.

Ai, ai, ai

Os empresários da Argentina estão alarmados com a forte desvalorização do real diante do dólar. Como o governo de Cristina Kirchner mantém o peso argentino (artificialmente) valorizado para combater a inflação, desde o início de 2014, o produto argentino ficou 44% mais caro em relação ao brasileiro. O jornal ‘La Nación’ publicou dia 4 matéria intitulada: “Derreteu o comércio bilateral com o Brasil”. O rombo comercial triplicou em um ano.

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